Duelo na padaria

A grande vantagem de não ser lido é que assim a gente pode escrever o que nos der na telha. O papel é um amigo fiel e silencioso, ele não sai pelas ruas fazendo escândalo, gritando “olha, olha o que fulano escreveu!”. A menos que algum desocupado se disponha a fazer a conexão entre o significado e o significante, ativando no cérebro o manjado processo conhecido por “leitura”.

Agosto de um ano qualquer. A tempestade de areia no deserto deixa qualquer filho de quenga louco. Eu trabalhava na redação de O Cafajeste, e estava na padaria tomando um expresso. De repente, o vento agreste começou a assoprar e em poucos minutos uma língua gigante de poeira cobriu a cidade. Fecharam-se portas e janelas. Pessoas corriam procurando abrigo. Fustigada pela tempestade de areia, logo a cidade se viu entregue às moscas.

Em meio ao redemoinho, ouvi um grito aterrador, vindo do lado de fora da padaria. Cheguei a cara na janela e vi uma rena voando baixo, toda estraçalhada (massa de sangue, fezes e urina), e pude ouvir os guinchos do animal, no exato instante em que os pneus de uma Ferrari Testarossa fizeram criiinche ao raspar a borracha no asfalto.

Dentro do carro, um sujeito cabeludo, jaqueta de couro preta.

Através da vidraça embaçada, olhei primeiro para o carro vermelho sangue e depois para o bambi. Que máquina! Viajei fundo no ronco do motor encoberto pelos gritos lancinantes do gamo. Falei com a atendente do outro lado do balcão, “fica quieta no seu canto, ele está vindo pra cá!” Segundo as leis ambientais, é crime abandonar uma vítima de acidente de trânsito. Mesmo que seja um veado.

Busquei uma mesa de canto, peguei vários guardanapos e me sentei, pronto para agir, enquanto bebericava meu café ainda quente.

A tempestade que se iniciava era prenúncio de que o mês de agosto não terminaria bem. Com a crise das hipotecas imobiliárias, a Usina Siderúrgica funcionava a meia-boca. Centenas de trabalhadores foram demitidos. Nessa época do ano, longe da temporada de caça do natal, não era normal as renas cavalgarem por essas bandas, tudo seco, sem pastagens, queimaram até o capim pra fazer carvão. Além do mais, as tempestades de areia afugentavam os antílopes.

Entrando com cara de mau, o sujeito da Ferrari encostou-se no balcão e pediu:

— Uma cachaça e um prato de farinha!

Credo, a coisa vai feder. O elemento tinha cara de poucos amigos. Saquei de uma caneta e comecei a escrever. E, à medida que eu ia escrevendo, enquadrando a carranca do baiano na folha de guardanapo, o cabra ia ficando mais feio, cabeça baixa no balcão, trabalhando no prato de farinha e bebericando a pinga.

Foi então que o baiano, quase satisfeito, a face vermelha igual pimentão, tirou do bolso da jaqueta um pedaço de rapadura e deu uma mordida que quebraria os dentes de um sujeito normal. Mascando feito o bode-rei, o homem de preto pegou uma cadeira, fazendo-a rodopiar a seus pés. Ereto, com a mão esquerda no quadril, a pélvis de frente para o espaldar, o cabra assentou sem tirar os olhos de mim. Não precisava dizer palavra, eu estava sendo desafiado para um duelo.

Gelei. Será que ele teria coragem de atirar em um homem desarmado?

Engoli o resto de café pra criar coragem. Os demais fregueses, percebendo a cena de faroeste que se desenhava, rapidamente pularam para trás do balcão. Lentamente, pensando no que escrever para me safar daquela armadilha literária, levantei-me da cadeira com as mãos trêmulas. Uma gota de tinta pingou da ponta de minha caneta esferográfica borrando o papel.

— Palhares, seu canalha, esta padaria é pequena demais para nós dois!

Dito isto, o desgraçado levantou-se, estufou o peito, abriu os braços e regurgitou. Eu não sei como ele conseguiu fazer isto, mas uma gosma de mandioca, cachaça misturada com baba de rapadura, qual bala assassina partiu da bocarra do sujeito com uma pressão tão forte, mas tão forte que me mataria se o projétil me acertasse.

Ainda bem que meu oponente era vesgo, foi o que notei quando ele tirou os óculos escuros. Como se eu fosse o TEX do gibi, girei o corpo para a esquerda, enquanto fazia o tampo da mesa de escudo, e disparei minha pistola esferográfica uma única vez.

Bang!

Tomando por ponto de referência a boca do baiano, acertei em cheio no olho esquerdo do elemento. Cego de um olho, efeito da tinta azul da caneta Bic, o homem de preto girou como um galo cego, rodopiando do poleiro para o assoalho.

Não tive clemência. Com o salão da padaria às moscas, tendo por testemunha apenas uma garrafa de cerveja no balcão, aproximei-me do filhote de urubu, pisei em seu pescoço e fiz a marca JT. Bem no meio de sua testa, tão vasta quanto a Chapada Diamantina. O cabra gemeu um ai profundo, puxado do mais fundo céu estrelado de sua alma nordestina. Se não rimou é por culpa da censura.

 

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