Duas mulheres

mala 4Ir para o norte passando pelo sul, assim funciona a cabeça do meu marido. Imaginem, então, se estiver envolvida uma economia de quinhentos dólares na passagem aérea! Convenceu-me a ir para Lisboa com escala em Toronto. Funcionaria assim: eu iria um pouco antes, ele me seguiria, na volta pararíamos no Canadá para alguns dias de férias.

A companhia aérea prometeu toda a assistência: recepção, hospedagem, refeições, traslados.  Precisava lotar os vôos entre Toronto e Lisboa e, para atrair passageiros, oferecia preços imbatíveis e apregoava facilidades. A chegada ao Canadá era de manhã e o voo para Lisboa só partia na tarde do dia seguinte, mas o acréscimo no tempo de viagem seria compensado por uma noite de descanso em Toronto.

No aeroporto do Rio soubemos que apenas três pessoas fariam a conexão para Lisboa: eu e duas senhoras portuguesas, às quais me juntei na sala de embarque. O futuro genro de uma delas trabalhava em agência de viagens. Não sei se achou boa a proposta da companhia aérea ou se vislumbrou uma oportunidade de se livrar da futura sogra. Duas moradoras de Vila Carapiá (nome fictício), mulheres simples, desejosas de rever a família em Portugal, parcos recursos, sem falar uma palavra de inglês.

O voo transcorreu normal. Na esteira de bagagens, esperei, esperei, esperei. Nada de aparecer a minha mala. Aconselhei as duas a sair porque precisava tomar providências demoradas e não convinha que se desencontrassem do funcionário da companhia aérea que nos esperaria lá fora. Daria um jeito de encontrá-las no hotel. Saíram, e fui atrás da mala desaparecida.  Levaram-me a um grande, imenso, desolado depósito de bagagens perdidas para ver se a minha estava lá, pobrezinha. Busca demorada e inútil. Não estava, tive que preencher uma porção de formulários. A essa altura, desesperada, já havia gasto uma fortuna, ligando para o Rio na esperança de que a mala tivesse ficado por lá. A despesa com os telefonemas? Abati mentalmente dos quinhentos dólares economizados.

A maratona durou mais de duas horas e, esgotados todos os recursos, saí da área de desembarque. Adivinhem quem encontrei… Ninguém as tinha contatado e as duas ficaram à espera do lado de fora da porta pela qual saíram. Inocentes quanto ao tamanho do aeroporto, nem perceberam como era incrível a minha aparição por aquela mesma porta. Só então reparei na bagagem delas, constituída por onze pequenos volumes: malinhas, sacolinhas, embrulhinhos. Questionei essa estranha forma de embalagem. A futura sogra esclareceu: o futuro genro informara que as companhias aéreas não aceitavam grandes volumes.  Sei. Deixa pra lá, vamos à luta.

No balcão da companhia ninguém conhecia as condições em que havíamos comprado as passagens e pediram para reclamar através de um telefone direto que ficava no saguão. Ao telefone, igual desconhecimento e um monte de negativas. Aquilo foi me dando aflição. As duas mulheres não entendiam o que se passava, mas andavam fielmente atrás de mim. Grudadas. Voltei ao balcão, ao telefone, ao balcão, ao telefone. Minha insistência fez aparecer uma supervisora. Lembrei-me de um fax do meu agente de viagens que mencionava hotel em Toronto. Mostrei. Ameacei processar a companhia: tinha testemunhas, escreveria às agências de turismo e não sei mais o quê. A raiva, o cansaço, a mala perdida, toda essa adrenalina me tornava feroz. Falei tanto, esbravejei tanto, que finalmente a supervisora resolveu cumprir o combinado no Rio. Cumpriria no meu caso, que tinha o fax e era insistente. No caso das duas mulheres, não faria nada. Como?! Tudo o que me disseram no Brasil tinham dito, igualzinho, a elas!  Vão passar o dia, a noite e a manhã seguinte no aeroporto? Sem dinheiro e sem entender uma palavra de inglês?! Vamos começar tudo de novo! A nova briga foi curta: eu já estava com prática e a supervisora também.

Levaram-nos para um daqueles hotéis cinco estrelas perto do aeroporto e afastado da civilização. Pedi quartos no mesmo andar. Mostrei às duas como usar o telefone interno e como bater à minha porta em caso de necessidade. Não chegaram a usar o telefone, mas abusaram do direito de bater à minha porta. Combinamos almoçar depois de descansar um pouco.

Tomei um banho. Vesti a mesma roupa. A partir desse episódio não viajo sem levar uma muda de roupa de baixo na bagagem de mão. A gente sempre aprende alguma coisa. Quando atingirmos a perfeição, provavelmente não teremos mais vontade de viajar.  O kit de primeiros socorros fornecido pela companhia aérea era ridículo, mas, felizmente, tinha comigo alguns artigos de toalete. Pelo menos o corpo ficou perfumado.

No quarto, mais telefonemas para o Rio. Deduzi dos quinhentos dólares. A essa altura, percebi: quem fazia jus aos quinhentos dólares era eu. Disse ao meu marido para optar: ir para Lisboa diretamente ou via Toronto, economizando quinhentos dólares. Acrescentei que achava a primeira opção altamente recomendável, mas, nesse caso, eu teria direito a embolsar os quinhentos dólares economizados na minha pagassem. Indenização por perdas e danos.

Estava saindo do quarto quando ligaram para avisar que haviam encontrado a minha mala! Aleluia! E acrescentaram: “Amanhã, antes de embarcar, a senhora pode passar por aqui para apanhá-la”. Não sei repetir o que disse, só me lembro de começar por “Estou nua dentro do quarto, como é mesmo essa história de amanhã!?” A mala chegou ao hotel em vinte minutos.

Fui buscar minhas companheiras no quarto. Perguntei se tinham tomado banho e descansado. Descansaram sim, foi bom, mas não puderam tomar banho. O banheiro estava sem água. Hoje não é meu dia. No embalo, pego o telefone, mas um lampejo de bom senso passa pela minha cabeça: hotel cinco estrelas sem água? Vamos ver. Habemus água! As torneiras eram monocomando, completamente desconhecidas no Brasil naquela época. Por que nunca ninguém se lembrou de oferecer um curso sobre torneiras e outros aparatos domésticos para viajantes?

No almoço, traduzo o cardápio tintim por tintim, mas, é claro, acabo decidindo tudo. Não vou sair do hotel, estou exausta. É grande, passeamos pelos saguões. Jantamos juntas. Tomamos café da manhã juntas. Almoçamos juntas. Vamos para o aeroporto juntas. Embarque. Tinha me esquecido das onze malinhas. Só permitem dois volumes por pessoa. Explico por alto a situação, a moça compreende e despacha a bagagem. No Rio, o futuro genro deve estar comemorando.

Descubro que meu lugar no avião é longe delas. Sinto culpa por ficar alegre. Mas, pondero, aqui dentro não podem mais se perder, e já cumpri meu papel. A família prometeu ir buscá-las ao aeroporto. Oxalá.

Uma das melhores recordações de minha vida foi o alívio que senti ao ver os parentes delas em Lisboa. Ocuparam-se das duas com grande contentamento. Deles e meu. Agradeceram-me enquanto elas contavam em detalhes as maravilhas do Canadá. O universo na forma de um hotel e torneiras monocomando. Boa gente. Desejo que tenham aproveitado bem a estadia em Portugal e retornado sãs e salvas ao Rio, via Toronto, frustrando os planos do futuro genro. E que nunca mais tomem avião comigo.

 

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