Dr. Hackenbush

Como se não me bastassem todos os perrengues por que passei nos últimos anos, ainda tive que aturar umas três semanas de cão, em estado de “suspensão animada”, depois que o “especialista” que consultei, por conta da minha histeria concentrada no gogó, me diagnosticou com suspeita de hepatite C — nem House, fala sério, que, felizmente, já se aposentou depois de perturbar por oito anos a nossa saúde mental com aquela mania invasiva de punção lombar.  Tá certo, no meu caso, a pedidos de uma amiga, vou dar um desconto: foi “excesso de zelo” por parte do doutor.

Senti meu corpo como um ser estranho, um outro que me odeia, à minha revelia maquinando dores além de qualquer controle, eu, que sempre me dera tão bem com ele e, portanto, não merecia. Senti na pele como se sentem as pessoas que estão realmente doentes, e não foi nada de bom, posso garantir. Alan também ficou muito preocupado, disse que “dançaria sobre a minha tumba” mas me beijou consternado quando eu respondi: “Duvido.”

Histérica eu estava e mais histérica fiquei, a mesa de edição entupida, atrasada, e nada rolava, os compromissos profissionais irremediavelmente adiados, primeiro por causa do inevitável, a morte de mamãe, depois por causa do inaceitável, a burrice médica de nosso cotidiano (im)paciente, vamos combinar. Não à toa, ao entrar no consultório do frentista Alan já foi logo o nomeando “Dr. Quackenbush”, ou “Hackenbush”, o médico idiota imortalizado por Groucho Marx, uma piada nossa que pouca gente no Brasil entende, o nosso pelo menos não a conhecia, pois enquanto estava sendo ofendido, ria.

Não foi o meu primeiro. Teve aquele babaca, desculpem, medalhão em Brasília que me diagnosticou com menopausa dez anos antes do verdadeiro evento, disse que meus ovários estavam “secos” e me entupiu de hormônios de égua de uma forma tal que arruinou meu casamento: era uma semana de loucura completa todo mês, e o marido, que já não me aturava muito, não suportou; e teve aquele outro também medalhão e médico das estrelas no Rio que me condenou com uma suspeita de descamação maligna no colo do útero, mais um susto indevido. Isola. Toc toc toc.

E combinemos também (ui!) que só à minha histeria resta culpar por esses emolumentos todos, ou tolos. Que pessoa em seu juízo normal pensaria que agora que os graves problemas terminaram, não sobreviveria aos dias necessários para superá-los? Viver a vida normal, aquela que só vê a vida passar? Isso é coisa bem minha, devo confessar. Sempre que as coisas ficam boas pro meu lado eu tenho certeza de que não vai durar, alguma hecatombe completa não tarda a se instalar. Fosse consultar outro “especialista” e ele me afirmaria que isso é depressão na certa, na bucha, no bucho, que eu preciso com urgência me medicar.

Alan concorda: sou mesmo maluca. Nada tem a acrescentar.  Fiquei rodando pela casa feito uma condenada que por “ordens médicas” já não podia beber nada, nem comer e nem fumar se acaso ainda fumasse, a vítima desconsolada de uma inexplicável cirrose, ou câncer, sei lá. Adiei enquanto pude o exame protocolar, e só o fiz, confesso a vocês, porque meu sobrinho querido disse que eu tinha que enfrentar.

Por mim, morreria em casa, ignorante da minha condição falimentar, estoica, sem cirurgia ou quimioterapia ou outra violência antinatural pra me arrebentar, fraca e nobre esperando a morte chegar. Mas se temos alguém que nos ama é nossa obrigação nos tratar, cumprir todos aqueles absurdos que a má medicina nos recomenda para escapar, não é mesmo? E tome morfina pra nos apascentar.

Obrigada, Edgar. Finalmente posso tirar da cabeça esse medo e tocar a vida que ainda me cabe levar. Ufa. Escapei mais uma vez.

Ainda custei um bocado a checar o desenlace fatal, que só chegou à internet na última terça-feira. Enquanto isso, procurava me consolar dizendo a mim mesma que gente perfeitamente saudável também pega essas doenças terríveis e não há nada para explicar. Acontece e pronto. Me lembrei de Kate Hudson, coitada, tão jovem, bonita, bem-sucedida e depois de fodida também apaixonada pelo gato Bernal no chorumela “Pronta para amar”, na vida real a entrevista de Astrid Fontenelle à Gabi no último domingo, prato cheio para disfarçar a própria miséria que ameaçava me derrubar. Até site de “hepatizados” passei a frequentar, sem mencionar a Ivete, minha faxineira e rainha dos casos escabrosos como aquele da senhora que perdeu os sentidos e internada no hospital, descobriu-se com câncer no fígado em último estágio metastático. Foi de amargar.

Fiquei tão nervosa e confusa com os resultados, de uma normalidade acachapante (e óbvia, por sinal, por que alguém que se sente tão bem teria alguma doença grave para enfrentar?), que comecei a chorar, e me veio uma irresistível vontade de vomitar.

Abre parêntese: embora eu escreva frequentemente que “vou ali vomitar” não cultivo esse hábito salutar — com a exceção dos exageros bulímicos, claro, não meus, felizmente. Se vomitei umas três vezes na vida foi muito, uma delas no início desta crise, enquanto me enrolava com o contrato draconiano da Amazon.com, um cliente aí bem complicado por questões de família e o agravamento da situação de mamãe, tudo junto e mais um pouco em dezembro do ano passado como até já contei pra vocês, fecha parêntese.

Fui correndo pro banheiro ou vomitaria ali na sala mesmo. Fiquei uma meia hora lá, tremendo, chorando, gritando, chamando o doutor de cretino e tentando sem sucesso vomitar. Da sala, ouvia Alan gritar:

— Para com essa histeria! Não está aliviada? Vamos comemorar!

E eu me acabando de chorar, até que abri o chuveiro pra me lavar, o corpo e a alma, partir enfim pra me recuperar. Já não era sem tempo.

Bem, estou mais calma agora. Já posso beber de novo, pois não há felizmente cirrose nenhuma pra me incomodar, que me impeça de me embebedar se assim eu desejar, mas, sinceramente, embora eu tenha me sentido ultraculpada e viciada com cada gotinha de álcool que decidi tomar nas últimas três semanas, não me parece agora que isso me faria relaxar.

Mas tenho a certeza de que daqui em diante retomarei minha atitude habitual quanto à medicalização excessiva que tanto nos atrapalha a boa vida. Médicos, nunca mais, nem tão cedo, pelo menos. Pois como eu já disse, quem procura, acha, então é melhor não procurar. Sai, azar.

E um bom domingo procês.

 

 

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5 Resultados

  1. Esses médicos são medievais, eu não fiz nem metade dos exames que mandaram, tinha de fazer até tomografia cerebral, por causa de uma pneumonia, e eu disse: manda a mãe do médico fazer! Meus filhos se surpreenderam, “nós fazemos tudo que os médicos prescrevem…”
    Saúde, Noga, tudo de bom, e paciência com esses médicos burrinhos.

  2. Noga Sklar disse:

    😉

  3. Claudia Valle disse:

    Com um relato desses, só mesmo atacando de Groucho Marx.
    E viva o bom senso…

  4. manuel funes disse:

    Sabe…na família teve o “Causo” da minha “Abuela”, morreu com 97 anos, de uma pneumonia. Seu médico, nos relatou que os últimos 38 anos padecia de doenças muito mais complicadas, como boa filosofa diz:

    – As doenças simples aos médicos, as outras a Deus!

  1. 08/07/2012

    […] O resto, aqui. […]

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