Dourado à urucuiana com pirão

No fim de uma linda tarde, quando o Sol está quase se pondo, saia de canoa com o seu amor em direção a uma corredeira do Rio Urucuia. Lá chegando, após apreciar devidamente a paisagem, sentir o aroma do mato, escutar os últimos gorgeios dos pássaros e os gritos das araras e ver a revoada de papagaios, prepare uma vara reforçada, coloque uma isca artificial e dê, juntamente com um beijo, o equipamento para o pescador para que ele lance no burburinho, pois o dourado gosta de água oxigenada e está na hora de ele caçar. Aprecie enquanto ele puxa a isca com habilidade — e com fé, senão não vai. Como o peixe é muito voraz, se estiver por ali, com certeza atacará o engodo com fúria, e ao perceber que foi ludibriado, vai saltar várias vezes, chacoalhando a grande boca na intenção de se desvencilhar: algumas vezes consegue, outras o dia é do pescador.

Após uma meia hora de luta, se der tudo certo, você já tem o ingrediente principal: um dourado de pelo menos cinco quilos (depois pode-se aumentar o peso, na hora de contar os causos). Agradeça a Deus e leve-o imediatamente para ser limpo. Essa é a pior parte; se for esperta, arranje alguém para fazê-lo por você, pois a retirada das escamas sempre provoca uma sujeirada. Retire a cabeça e reserve; procure não olhar muito nos olhos para não ter remorsos. Tempere tudo com bastante sal e vinho branco, não economize nessa hora; se for muito, mas muito necessário mesmo,  use limão ao invés, vá!, e deixe repousar por pelo menos uma hora, pois o peixe é fresquinho e já vem muito saboroso. Sorria enquanto vai pensando em outra coisa mais interessante, do tipo o que fazer depois do jantar; pique em cubos quatro tomates, três cebolas grandes, salsinha, cebolinha e coentro (nem todo mundo gosta), faça um bom refogado (pra quem não sabe, é fritar com um pouco de azeite) com esses condimentos, não esquecendo de colocar um pouco de pimenta e um pouco de gengibre bem raladinho só para dar um sabor, eu sempre me lembro de quentão nessa hora.

Separe metade desses temperos e com a outra metade refogue a cabeça do dourado com mais algum pedaço que sobrou. Depois de frita a cabeça, despeje água até cobrir e deixe cozinhar. Veja que os ossos estejam se soltando da carne no cozido, passe tudo pela peneira, guarde o caldo e separe as carnes das bochechas (que são as mais gostosas), reservando-as. Com esse caldo será feito o pirão na hora de servir. O resto do refogado será colocado dentro e sobre o dourado. Coloque umas torradas por baixo do peixe, cubra com papel alumínio e leve ao forno forte por meia hora para cada quilo de peixe.

Aproveite esse tempo para tomar um bom banho; lave bem as mãos e capriche na água de colônia. Muito creme hidratante, um vestido leve e soltinho, o cabelo natural e corra para o fogão. Retire o papel alumínio e deixe dourar. Enquanto o peixe doura, coloque o caldo em ebulição e vá mexendo com uma colher de pau sem parar enquanto deixa cair um fiozinho de farinha de mandioca, tem que ser bem garoado para não empelotar. O ponto é meio difícil no começo, tem que ficar numa consistência um pouco mais rala do que se pretende, pois quando sai do fogo engrossa mais um pouquinho. Adicione as carnes que estão reservadas, coloque tudo numa tigela e polvilhe salsinha picada.

Coloque o peixe numa travessa bonita e enfeite com folhas de alface e umas rodelas de limão por cima. Voilà. Abra uma garrafa de vinho e faça um arzinho de que tudo foi muito fácil.

Me convide para o jantar!

 

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

2 comentários em “Dourado à urucuiana com pirão

  • 22/01/2012 em 09:54
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    Contada com a naturalidade e a verve da crônica.
    Poderia dizer – está na hora de pescar…

    O conteúdo está cheio de graça, seu estilo..
    A receita ( apesar de sofisticada) é da gente do sertão!.Uma experiência!

    Eu ia fazer a mesma pergunta do final!
    Credo! Dá agua na boca!

    Bjs!
    CR

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