Dois homens

mala 1Sentei-me, acompanhada de um bom livro, esperando um voo tranquilo de Toronto a Lisboa. Pelo menos, até à chegada do meu vizinho de poltrona: o caçador de minhocas. Juro: caçador de minhocas. Português, como a maioria dos passageiros, falava sem parar, cuspindo, inclinado na minha direção. Custei a entender o que queria dizer “ir à m’nhóca”.  Era tão estranho que eu duvidava dos meus ouvidos. Só acreditei quando, numa tentativa de se fazer compreender melhor, ele mencionou a palavra worm.

“Ir à minhoca” é assim: a pessoa vai para os pântanos à noite, calçando botas de borracha de cano alto e usando um capacete que tem uma lanterna acoplada, pegar certas minhocas que tem alto valor comercial como iscas vivas. Obviamente, não há muita concorrência nessa atividade e meu companheiro estava orgulhoso do dinheiro ganho. Na verdade, confessou que era pintor (de paredes!) e exercia as duas atividades. Razoável, porque, com o clima canadense, esse negócio de minhocas deve ser sazonal.  Soube de tudo isso antes de o avião sair do solo. Como vou aguentar tanto falatório e cuspe até Lisboa?

O avião está lotado, só há lugares vagos na classe executiva. Peço à aeromoça para mudar. Basta um olhar rápido na direção do caçador de minhocas para que ela concorde. Mas ressalva: “É preciso que algum passageiro não se importe em ter companhia”.  Faço uma avaliação urgente das pessoas na executiva e decido falar com um senhor de idade. Explico a situação. Não se opõe a que me sente a seu lado. Em pensamento, beijo-lhe os pés. Também é português, chama-se Sr. Lebre e, na realidade, não viaja só, mas com a mulher e o filho acomodados um pouco mais adiante. A mulher reclama um pouco do meu atrevimento, mas ele não se abala e de novo, em pensamento, beijo-lhe os pés.

O voo para Lisboa não é longo, menos ainda na companhia do Sr. Lebre.  Ele conta como um acidente de automóvel deixou sequelas no filho. É um rapaz bonito, na faixa dos trinta anos, que a previdência social canadense sustentará para sempre. A aceitação pelo Sr. Lebre da situação do filho, sua calma e sua compreensão do que isso representava para a esposa, me impressionam. Diz que o Canadá é muito frio, mas a casa dele tão quentinha que no inverno português sente saudade dela. Um homem de berço simples, com alma de cavalheiro. Uma pessoa fascinante.

O que o caçador de minhocas tem a ver com o Sr. Lebre?  Só o voo entre Toronto e Lisboa…

 

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