Do(i)s caminhos: bem ou mal

Alan me acordou esta manhã com um texto sobre os possíveis destinos que se pode dar ao que se sabe, se aprende durante a vida (ele passa a noite insone aprendendo na internet), taí, procês. E lá vem teste em seguida, é, ele é meu misto de pastor e mestre do cotidiano e demanda demais de sua única fiel e discípula: eu. Aqui se tem o que por aqui se paga. Infelizmente pra ele, raramente lhe dou a requerida atenção.

Mas o caso é que eu já vinha pensando em assunto de crônica e tinha dois caminhos a seguir, um levando ao céu, ao bem moral, à saúde mental, outro ao inferno nosso da santa tecnologia, ah, melhor esquecer aos domingos o que se faz todo dia.

Freud não acreditava em coincidências; e eu, ultimamente, ando bem inclinada em direção ao cientificismo de Freud em contraposição ao misticismo de Jung — embora a minha conexão com terapia não passe dos poucos filmes que assisto na TV antes de dormir, ou, claro, das crônicas que escrevo aos domingos — mas fato é que me espantei sobremaneira (ui!) enquanto via ontem à noite a bela cinebiografia de Georgia O’Keeffe — um bálsamo muito bem-vindo depois da baboseira violenta com Kidman e Cage que tinha comprado por ledo engano no pay-per-view, mas isso nada tem a ver com a história —, e lá pelas tantas o Stieglitz de Jeremy Irons consulta-se com o irmão médico a respeito de algo que o incomodava na garganta há meses:

— Não. Você não tem nada.

— Mas e isso que está me incomodando, não tem cura?

— Bem, sim, anos de psicoterapia.

Foi o que meu médico disse e os exames confirmaram: tudo frescura pura e estamos conversados.

Pois é. Coincidências não existem, mas minhas crônicas vivem delas, não daquelas óbvias que todo mundo enxerga, mas das outras, difíceis de serem percebidas e que, no entanto, após tratadas pela fome de ordem da nossa logística mental passam a formar uma explícita renda viral, rede, roteiro vital. Enredo. Normal.

Vai daí que depois de Alan e sua lição matinal vejo com outros olhos o artigo do NY Times sobre Ray Bradbury, falecido esta semana, que tinha separado numa tela do Windows para uso neste contexto, ah, o valor da conversa para um entendimento real. Bradbury, como todo mundo sabe e alguns da minha geração até mesmo leram, imaginem, era um autor especializado num antifuturismo moral que, embora antecipasse com exatidão inaudita os incríveis avanços tecnológicos de nossa era atual, dava a eles uma conotação de pecado, destino danado, digo, de danação, maldita distração das verdadeiras coisas importantes desta vida, natureza etc. e tal, em franca contraposição intelectual ao desenvolvimento que nos trouxe, finalmente, a este “pesadelo virtual”: todo mundo hoje em dia “viciado” em tecnologia, com seus brinquedinhos acoplados 24 horas por dia.

Bem, como diz o Zen, “nada é tão”. Tudo depende do uso que se faz de qualquer coisa: dinheiro, trabalho, sabedoria, e não estou falando de Deus, moral, nada disso, talvez de transparência e de objetivos na vida, atenção, carinho pelo outro e um cuidado meticuloso por tudo o que se tem e transmite aos que nos rodeiam no dia-a-dia. Amor, em suma, um sentimento amplo e geral de conexão emocional, um estilo de ação que não se traduz por um coração de ouro na vitrine eventual dos casais enamorados.

Depois de lida a lição, trocamos sonhos com o café. Alan do seu monastério outrora preferido, a propriedade que ele havia escolhido para sua comunhão com Deus, ou fosse lá que nome deu ao mais profundo de seu próprio eu. Comentei a beleza impactante do vermelho de Taos no filme-biografia de Georgia O’Keeffe, um espetáculo de comunhão com a natureza onde tudo que a gente escolher transformar em arte em arte a gente transforma. Basta querer. Ele conta que um dia fez planos de se mudar pra lá, eu pergunto se ainda gostaria disso.

— Mas pra quê? Se eu tenho tudo isso aqui? — e aponta o maciço impactante de granito com um triângulo misterioso gravado no dorso (tá bom, não conto pra ninguém, não passa de uma erosão caprichada com três linhas coincidentes, mas que parece mágico, parece: Deus talvez não passe disso, a percepção de uma magia que só na própria percepção se realiza) que se vê da janela de vidro, de todas as nossas janelas de vidro, o que não é nenhuma coincidência, mas pura arte advinda da nossa consciência, ciência arquitetônica, digo.

É isso aí. Mesmo que seja às vezes meio às cegas, o que se consegue nesta vida é aquilo que se persegue nela, ainda que o tal caminho leve um bom tempo para se revelar. No nosso caso, um banho diário de esplendor da natureza que só nossa conexão à internet nos permite aproveitar, ou estaríamos ainda algemados pela rotina estafante, comum, que tantos pobres urbanos insistem em perpetuar. Falta de visão, de coragem, sei lá, ou por puro gosto, mesmo: o bacana hoje em dia é que se pode escolher o uso que fazemos da tecnologia, que por isso se tornou, justamente, um passaporte para a liberdade, não para o vício ou prisão como Bradbury antevia. Nem importa se vai tudo se acabar um dia.

Sigo a manhã ainda encantada com a velhice de O’Keeffe, esplendidamente representada entre montanhas vermelhas, arte e memórias de seu grande amor por um homem que também lhe causou muita dor, mas que deu a ela tudo aquilo que ela já trazia por dentro e que se não fosse por ele, acabaria saindo de qualquer maneira. Entenderam?

Eis aí a importância vital de se manter vivo um grande amor, material ou não, algo tão complexo e visceral que certamente viria de Deus caso Deus existisse, despertando o que de mais profundo abriga o nosso próprio e muito mágico eu pessoal, não tem nada de coincidência nisso.

E um bom domingo procês

 

 

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