Dionísio da Trácia: patrono das letras

“Dionísio da Trácia (Alexandria, 170 a.C. — 90 a.C.), conhecido por ser o autor da Téchné grammatiké, livro de vinte e cinco sessões em que ele apresenta uma explicação da estrutura do grego e cuja única deficiência, segundo Martins, é a omissão da parte de sintaxe. O seu sistema de classes de palavras e modelos de análise morfológica, porém, constituíram a base das formulações sintáticas posteriores. Dionísio traçou a seguinte ordem para a gramática: tomando por base a palavra, deveria-se proceder primeiramente a identificação formal dessa entidade linguística; depois, identificar as classes de palavras e por fim, as categorias que as evidenciam. Segundo Neves a época helenística facilitou a produção de Dionísio, visto que durante o helenismo a prática da linguagem já não focava tanto o ensino retórico empírico da época clássica, e sim a exposição de padrões da linguagem que devem ser seguidos, o que leva ao estabelecimento dos quadros da gramática.” (Wikipedia)

papiroEucidesTemos tantas descobertas na mão que foi difícil escolher o assunto da crônica: a importância da herança cultural grega é vital para o mundo ocidental, sem ela dificilmente atingiríamos o momento atual. Com a queda da civilização greco-romana a Europa entra no que chamamos de Idade Média, que vai do século V até o XV, quando caminha na obscuridade. Em algum ponto após estes dez séculos, uma luz brilha e mostra a saída, a cultura grega é redescoberta e marca o divisor de águas: o Renascimento.

No mesmo momento em que a Europa era formada por agrupamentos semi-selvagens, na África florescia a cidade de Alexandria, onde grandes homens acreditavam no conhecimento, decretando a natureza espúria do dogma. Ao estudar os fatos, ficamos assombrados com a existência deste fenômeno, quase irreal: a maior parte dos conceitos que nos levam na caminhada às estrelas tem sua origem nesta fonte.

Quem era Dionísio da Trácia? Era um filósofo, professor do que modernamente chamaríamos “Letras”. Da mesma forma que Euclides, que sintetizou em Os Elementos a geometria de seu tempo (sendo base de estudos pelos 23 séculos seguintes), Dionísio escreve seu tratado sobre a “Língua Grega”: poderia-se dizer que organizou a primeira gramática, além de abraçar outros temas, como interpretação de texto, e ensinar “como se escreve um livro”, talvez um papiro.

A invenção do papiro permite ter um “meio” para guardar o conhecimento de forma barata: cresce aos milhares nas águas do rio Nilo. A planta produz um tipo de papel adequado para escrever com diversos tipos de tinta, resistente aos fatores agressivos externos, de fácil transporte e adequado para ser “enrolado”. Pode ser usado também para fazer pinturas, ícones e representações gráficas diversas — ainda vou fazer alguns papiros caseiros, usar minhas tintas “acrílicas” e pintar  Deusas e Deuses Egípcios… Se quiser aprender a fazer “papiros”, este vídeo é para você.

Fiquei muito emocionado ao observar uma relíquia dessa época, quase se desmanchando, cópia de papiros originais, datada do século IX, que  se encontra bem guardada numa coleção particular no Uruguai. Existe uma energia que emana deles, uma espécie de “calor” que se irradia alguns metros em torno. A fotografia “Kirlian” talvez nos permita estudar o fenômeno, outra linha de pesquisa que nos interessa.

Existem tesouros ocultos à nossa volta, como a tradução do livro de Dionísio, feita na Universidade Federal do Paraná, pela pesquisadora Gissele Chapanski, Uma Tradução do TEKHNE, de Dionísio Trácio, para o português (UFPR, 2003). Obrigado por nos ofertar tal maravilha, Gissele. Os escolásticos preservaram estas e outras obras, fontes de águas frescas para a humanidade, após um longo caminho; são trabalhos magníficos, e é isso que deveria ser publicado pelas editoras, que se dizem formadoras de cultura.

Fiquei sem palavras ao ler a tradução,como gostaria de aprender grego para me deliciar com as obras no original!

textoOriginalGregoGramatica

“Gramática é o conhecimento empírico do comumente dito nas obras dos poetas e prosadores. Suas partes são seis: (1) A primeira é a leitura treinada que respeite a prosódia. (2) Exegese dos tropos poéticos existentes. (3) Pronta restituição do sentido das palavras estranhas e das historias. (4) Descoberta de etimologia. (5) Cálculo da analogia. (6) Crítica dos poemas, que são a parte mais bela da Arte.” (Dionísio da Trácia)

O texto parece atual, cheio de conceitos potentes, o que mais posso dizer? nada, a não ser voltar minha alma dois milênios para o passado e agradecer a esses arautos, que, como Prometeu, nos legaram o fogo do conhecimento, que nos ilumina até hoje.

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