Digressões de um Beócio*


Nosso conhecimento é necessariamente finito, porém nossa ignorância é necessariamente infinita.

Karl Popper

Acordei esta manhã com a sensação de que alguma coisa estava diferente, em mim e no Cosmos. De algum modo, similar à personagem de Metamorfose” (Kafka). Com medo da deixar minha  cama confortável e segura fechei as cortinas, acendi a luz e fingi que ainda era noite, e estava apenas sonhando que estava acordado.

Como não tinha sono, passei a meditar, meu esporte favorito, também o dos loucos. Olhei a mesinha de cabeceira: uma banana e uma laranja me olhavam com medo, uma de uma ser mordida e outra de ser chupada. O que faz uma laranja ser “laranja” e uma banana ser “banana” ? Uma grande pergunta filosófica. A principio, é uma coisa óbvia que nós, humanos, associamos um conjunto de letras ao que denominamos de substantivo, também associado a um som, colado a uma entidade concreta ou abstrata.

Substantivo é a palavra usada para denominar coisas, pessoas, lugares, um ser e sentimentos. Pode estar acompanhado por um adjetivo, numeral, ou pronome”. Ah! Agora temos também os adjetivos e pronomes. “Adjetivo é uma palavra que descreve, qualifica ou caracteriza o ser ou objeto designado pelo substantivo” (exemplos: mar violento, pessoa triste, céu azul). Os adjetivos são variáveis, concordando em gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural) com o substantivo, e admitem flexões de grau (comparativo e superlativo).

Um mosquito posou na minha fronte, e tenta picar-me! Fez-me lembrar que um fato similar, não com um mosquito, porém com uma mosca, fez o grande René Descartes inventar a geometria analítica, descobrir a exata posição do inseto na sua habitação!

Peguei minha garrafa de água — sempre durmo com ela por perto, nunca se sabe quando  vamos nos afogar num acesso noturno. Tomei um gole e olhei de novo as duas frutas. Sei qual é qual pelo substantivo associado à natureza do objeto (sabor, textura, cor); e se eu chamasse uma laranja de banana e uma banana de laranja? De cara, as outras pessoas me qualificariam, no mínimo, como maluco.

A pergunta pulou na minha frente e me agarrou pelo pescoço: O que é a Verdade? Após algumas reflexões, cheguei a uma conclusão simples, e portanto, óbvia: a verdade[1] para existir tem que ser uma entidade funcional (que atende a uma função ou fim prático), logo uma promessa não pode ser uma verdade, já que não atende a fim nenhum no momento presente, não é funcional. Tomei mais um gole do diluente universal e passei a testar minha definição de Verdade com outros substantivos, que tal um abstrato?

Antes, pensei,  posso muito bem aplicar essa definição: Entidade funcional na politica, sociologia e outras áreas que não são ciência, puxa! Um choque saber que estas searas do conhecimento carecem de base cientifica, stricto sensu (uma expressão em latim que significa, literalmente, “em sentido estrito”, “em sentido específico”, por oposição ao “sentido amplo”  — lato sensu — de um termo).

Outra pergunta me atacou violentamente: Como podemos regular uma sociedade com ferramentas que carecem de base científica e, portanto, não podemos qualificar de verdade funcional? Será que estamos guiando nossos destinos com suposições, palpites, no melhor dos casos? Estarei ficando demente? Me lembrei de Descartes e me acalmei.

Substantivo “Democracia”: Governo do Povo.

Não diz muita coisa, funcionalmente falando; logo, é uma definição inaceitável. Vamos tentar uma definição funcional: “Maximação das opções individuais”, já que não pode existir escolha coletiva. O ser individual (sic) escolhe sua laranja, banana, mulher, homem, o que fazer da sua vida. Então, Democracia não pode ser uma forma de governo, mas sim uma forma de vida, baseada em escolhas individuas. O maldito mosquito entrou no meu nariz!

Para escolher, as opções têm que ser necessariamente exclusivas; obviamente não existe escolha entre coisas iguais! Por consequência, não pode existir escolha em entidades que provenham da mesma fonte, porque, por definição, a fonte define a natureza da coisa. As implicações desta constatação são contundentes, exemplo: partidos políticos oriundos da mesma casta[2] servem aos mesmo senhores, apesar de se dizerem diferentes.

Pensar conceitualmente [3] é perigoso, podemos dar de cara com verdades desagradáveis. Não existe o conceito de “Governo Democrático”, mas sim o de “Vida Democrática”, que se mede pelo grau de escolha individual à nossa disposição. Quanto menos escolhas tem uma população, menos democrática é sua forma de existência.

Voltando às frutas, estamos chamando “laranja” de “banana” e vice-versa. Para agravar as coisas, usamos uma estratégia diabólica, oculta dentro de um conceito: Eufemismo.

“Eufemismo é uma figura de linguagem que emprega termos mais agradáveis para suavizar uma expressão.” Uma plêiade deles pululam na mente de cada um de nós, suavizando nossa apreciação da realidade, da mesma forma que balizas não são verdades funcionais, criadas para nos conduzir de pasto em pasto, para terminar algumas vezes na ordenha e outras no matadouro, que,eufemisticamente estão a chamar de “Nova Ordem Mundial”: vivemos em função das escolhas dos outros e não das nossas.

O “quid”[4] da questão poderia ser definido como “fabricação de consenso nas sociedades democráticas” (Noam Chomski)[5], e seu mantra “fazer com que o indivíduo acredite que as escolhas implantadas na sua mente são suas”. De certa forma, somos os beócios dos grupos de poder.

Por exemplo: Capitalismo é um sistema no qual “a grande maioria tem poder de compra”, não somente 10%, porém, por alguma magia linguística nos fazem acreditar que vivemos numa sociedade capitalista. Esquisito não? Ou que tirar a qualidade de vida de uma comunidade, desmatando para plantar mais soja (que será exportada), pode ser chamado de progresso; que deixar as industria de serviços, limpa e lucrativa, para o primeiro mundo e mandar as fabricas, sujas, que pagam salários menores, para os nossos países é uma solução brilhante para a crise mundial, com o nome pomposo de “Globalização”; que ter minas de ouro, que contaminam e geram lucro para um pequeno grupo que nem mora no mesmo pais, é um grande portento.

Podemos observar que somos acossados por todo lado, no sentido de optarmos por algum rumo de ação que fortalece os interesses de “outros”, que utilizam cavalos de troia — Patriotismo, Religião, Família, Civismo e muitos outros — para apelar para a nossa boa índole. Aqueles que resistem, seguem por dois caminhos possíveis: processo ou desterro.

Quando alguém fala dessa forma, é rotulado de comunista ou anarquista; mas, na realidade, quer simplesmente deixar de ser um beócio padrão.

Alguém bate na porta.

— Vai acordar? Ainda é o meio da semana, você tem que trabalhar!

Descartes, verdade funcional, bananas e laranjas… tudo desaparece.  Levanto-me de meu refúgio noturno, tomo um banho, mais um dia de trabalho me espera. Lá pelo meio do caminho, mudo de direção; em poucos minutos chego à beira da praia, desligo o motor, abro a porta, tiro os sapatos e as meias… Caminho na areia. Fiz uma escolha!

***

Post Mortem: o discurso anterior pode estar certo ou errado, segundo os implantes que o leitor esteja usando. Pessoalmente, acredito que estou perdendo a noção de realidade, ao perceber situações como essas: (1) o mundo está à beira do Caos, e ainda assim continuamos a consumir como loucos, para, consequentemente, sugar até o fim o que sobrou de nossos recursos naturais; (2) alguns caras querem se exterminar alegando que seu “Deus” é melhor; (3) sabemos que o sistema financeiro faliu, porém tiramos recursos dos mais necessitados para bombear dólares, euros e pipocas nos fundos de recuperação de bancos; (4) estamos apostando cada vez mais em soluções de tecnologia e menos em soluções de pessoas (a média de jovens sem trabalho, em toda a Europa é de 20,5%, só na Espanha 45%); (5) o número de conflitos bélicos[6] triplicou nos últimos 12 meses e ninguém fala sobre o assunto; (6) os países do leste da Europa estão vendendo suas mulheres como produto de exportação.

Nos indivíduos, a loucura é algo raro, mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.

Nietzsche

 

 

Notas

* Beócio. Diz-se do indivíduo bronco, ignorante, simplório (por alusão à reputação dos beócios da Antiguidade).

[1] A “Verdade” tem no mínimo quatro caraterísticas: funcional, corte espaço temporal no presente, não pode levar ao absurdo, não pode ser dividida.

[2] Casta. Camada social hereditária.

[3] Análise conceitual: apresentou-se, para autores como FregeRussell (durante algum tempo) e Wittgenstein (idem), como a tarefa de traduzir frases da linguagem ordinária para uma linguagem científica, livre de ambiguidades, tal como a conceitografia de Frege.

[4] Quid. Expressão em  latim equivale ao ponto central da questão.

[5] Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense.

[6] Conflitos bélicos.

 

 

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