Diário de uma Europa doente

São nove horas em Budapeste. Entro no carro que nos levará a Viena e conheço Kristoff, nosso guia. Seu português é perfeito, pois ele morou no Rio. Do seu discurso vêm as guerras que fixaram o povo húngaro às margens do Danúbio — a mesma Hungria que foi obrigada a lutar por Hitler e sucumbiu à máquina soviética.

Chegamos a Bratislava, Eslováquia. Kristoff nos leva a um castelo. Ele despreza o edifício: “Isso aqui é muito malfeito. Os eslovacos fizeram isso aqui para tentar ter uma história. Eles não têm tradição, não são como os húngaros”, diz.

Em Viena, Jamelka é uma sardenta que nos conduz pelo Ring, o centro histórico; nos apresenta o Bairro Grego. Numa viela, perto da casa de Mozart, está pichado na parede. “Tourist is terrorist”.

Fico assustado. Passa um sujeito no passeio e joga seu ombro no ombro do meu amigo. Sinto que ele nos quer longe da Áustria. Estou comendo schnitzel, porco à milanesa. Almoço apreensivo.

Estou na van que nos levará a Praga. Deixo o Danúbio para trás. Vinícolas. Estrada perfeita. Ross é o motorista esloveno cinquentão, que fala inglês britânico. Festeiro e piadista, dá uma de guia e nos passa altas informações. Usa um cachecol coloridaço. Bamboleia os pulsos a cada frase. Adora mostrar que é gay.

Estamos cruzando a fronteira com a República Tcheca. “Preparem-se para bandidos e estradas ruins”, alerta o motorista. Dito e feito: um rapaz tenta nos roubar no estacionamento de uma lanchonete; minha cunhada grita, o elemento sai vazado. “Aqui não é a Áustria!”, alerta o esloveno.

Tento pedir um sanduíche com uma coca. A moça leva cinco minutos para entender o que quero, está impaciente comigo. Minhas mãos tremem.

Em Praga, Ross pede informações sobre como chegar ao hotel, fala com um senhor naquela língua muito doida. Ross vira-se para mim e diz. “É um sérvio. Sérvios são ignorantes”. O motorista fala com outro homem. Agora cochicha para mim: “Bah, pelo jeito é búlgaro”. Gorjeta para Ross em coroas tchecas, moeda boa e barata. Ross, o gay intolerante.

Museu do Kafka. Sombrio. Vejo as primeiras edições de seus clássicos. Estou muito emocionado. A Metamorfose: todos somos Gregor Samsa, não passamos de baratas tontas. O Processo: somos sempre condenados.

Tanya é a guia judia que nos leva ao colossal castelo de Praga. Seu português é mais ou menos, mas rola. Digo a ela que guiar pessoas de todo o mundo pela cidade mais deslumbrante da Europa deve ser legal demais. Na catedral de São Vito, ela comenta: “Só que eu não gosto de guiar alemães. Eles pensam que são os donos do mundo. Também não gosto de russos. Fazem perguntas maldosas, querem saber de tudo com o rigor de todos os detalhes. Os russos torcem para eu errar alguma informação para jogar isso na minha cara. Gosto dos brasileiros. Amanhã tenho outro grupo de brasileiros. Que bom!”

Tanya chora de leve em frente ao cemitério judeu. O Menino Jesus de Praga usa roupas luxuosas. Hoje vou ao show do Jeff Beck. Faço a conversão: oitenta reais o ingresso. Se fosse no Brasil, seria quatrocentos.

A crise na Europa é muito mais profunda do que as dívidas públicas dos estados. A União Europeia é uma farsa; os europeus estão com o espírito doente: a intolerância e a xenofobia estão gritando no Velho Mundo caduco, e os turistas tiram fotos na ponte do Rei Carlos.

A cerveja tcheca é boa mesmo. O joelho de porco é crocante. O garçom está de mal humor.

Até a próxima.

 

 

Um comentário em “Diário de uma Europa doente

  • 17/05/2012 em 11:04
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    Paulo, gostei da sua crônica. A situação é triste, a xenofobia parece de alguma forma fazer parte da natureza humana. Mas, por outro lado, a Europa oriental tem esse ranço, herança de eternos tempos difíceis. Em Paris vc não sente nada disso, pelo contrário, recentemente os franceses se suavizaram e passaram a tratar os turistas com o amor e respeito que a gente merece, rsrs, afinal de contas, os sustentamos! A arte e a cultura estão em alta como sempre. Uma delícia.

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