Deus nos acuda

Por conta dos hobbies de meu marido — fazenda e pescaria — viajamos bastante pelo interiorzão, como costumamos chamar os recônditos mais profundos do país. E pude notar nos últimos anos uma grande diferença na qualidade de vida da população mais pobre. Sim, realmente, hoje há melhor comunicação, com telefones celulares em profusão, e mesmo nos lugares onde não há luz, TVs ligadas em baterias, dando a todos oportunidade para acompanharem os exemplos de condutas que são veiculados nas novelas, e pior, nos noticiários populares,.

Também existe muito mais gente gorda, aqueles fiapinhos de gente quase não circulam mais, somente nas passarelas das grandes cidades. Notem que não falei nada sobre gente bem nutrida, pois nas cestas básicas são distribuídos alimentos altamente calóricos e sem nutrientes suficientes, do tipo biscoito, macarrão etc. São alimentos baratos, e podem ser comprados à vontade com as aposentadorias dos pais, e até mesmo avós. O bolsa-família também permite adquirir esses bens.

Há pouco estive no interior do Rio Grande do Norte, e em uma cidade onde fiquei hospedada por três dias observei que havia bares em profusão, onde homens em idade altamente produtiva passavam horas e mais horas do dia e da noite em conversas intermináveis  e jogos simples como o dominó. Pouco comércio se podia notar na aldeota, tampouco indústria, e nem a beleza natural do local tem sido explorada como turismo.

Questionei os meus anfitriões de que viviam essas pessoas, ao que me foi respondido que de cestas básicas oferecidas pelo governo, de bolsas-família e, principalmente, de aposentadorias de pais e avós como já disse, inclusive citaram o caso de um rapaz na casa dos trinta, que antes trabalhava em São Paulo e agora tinha se mudado para lá, vivendo da aposentadoria de sua mãe e das geradas pelas mortes de seu pai e de seu irmão.

Lembro-me muito bem de minhas aulas de história econômica, onde se podia constatar que somente o trabalho produz a riqueza e, embora por algum tempo se possa em termos pessoais, ou mesmo de um país, viver com riqueza gerada no passado, isso se finda algum dia, levando aqueles que dela usufruíram por algum tempo à pobreza e à estagnação gerada por anos sem investimentos em infraestrutura.

Preocupo-me muito com nosso futuro, pois quando a exaurida pata dos ovos de ouro morrer, de tanto suprir as necessidades daqueles que hoje vivem na ilusão de uma vida mais próspera, quem olhará por nós? Deus nos acuda!

Penso que, hoje, deveríamos estar investindo em empresas geradoras de emprego, em educação, em saúde — percebam que não sou política em época de eleição, pois eles sabem muito bem do que a população necessita —, para que, mais adiante, as futuras gerações possam caminhar sem as muletas paternalistas do Estado.

Ei, pessoal do governo! Ainda dá tempo, não vamos chegar no fundo do poço!

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

7 comentários em “Deus nos acuda

  • 29/09/2012 em 20:43
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    Gostei muito da leveza com que abordou tema tão pesado nos últimos anos. Minha visão é bem parecida com a sua e com o velho ditado sobre ensinar a pescar e, não, dar o peixe. Penso até que o que se está fazendo é meio que irreversível. Mas nem quero pensar onde vai parar. Mais um belo texto seu!

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    • 29/09/2012 em 22:53
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      Bem á verdade, você pode obsrevar nos jornais, é que o paradigma de nossa sociedade como o conhecemos terminou. A queda é iminente.

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  • 28/09/2012 em 19:34
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    Eu também pensava desta forma, porém cheguei a uma conclusão realmente assustadora: “Não fomos feitos para trabalhar!”. Isto é um paradigma que se fez forte e consistente durante e após a famigerada revolução industrial. Nossa vida nesta sociedade “Voltada para o trabalho” realmente é ruim em todo sentido. Sim, parece um paradoxo, porém e verdade. È que existem tabus que em algum momento de nossa vida aprendemos a engolir com farofa e outras coisas do gênero: Religião, trabalho, fidelidade… E por ai vai, todas elas voltadas a preservar a integridade o famoso “Status Quo” de uma cultura voltada para o controle das massas. É bem simples: para comprar “Coisas” precisamos de “dinheiro”, para ter dinheiro precisamos trabalhar e trabalho é TEMPO DE VIDA. Não é lógico trocar VIDA por algumas contas de vidro. Sei que é extremamente difícil e complicado alterar este paradigma, que esta levando a crises constantes que sempre se resolvem com guerras. Se estudamos sem preconceito nosso sistema atual de sociedade, veremos que é uma minoria precisa de que a maioria trabalhe por um MINIMUM VITAL,para gerar riqueza que no final das contas fica sempre em mãos de poucos.

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  • 28/09/2012 em 16:49
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    E nós vamos pagando impostos e mais impostos para um governo populista se eternizar no poder. Depois da ditadura militar, vivemos a ditadura petista- sindicalista. E o povo vivendo a ilusão desta terrinha, comendo e se alimentando de todas as bolsas assistencialistas que vão sendo criado. Seu artigo está fantástico porque reflete a nossa realidade social, econômica e política. Parabéns.

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    • 28/09/2012 em 23:50
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      Aqui caberia um estudo muito profundo que não combina com o tipo de crônica leve que tenho postado. Concordo plenamente com seus comentários.

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