Desnorteados

TRAVELINGpor Maria Anna Machado

 

Algumas pessoas são assim, como uma de minhas filhas. Se estaciona o carro em uma esquina e dá a volta no quarteirão, não sabe mais onde o deixou.

Quando saímos juntas, se me distraio, ela logo entra em rua errada e tenho que achar o caminho de volta. Agora estou mais tranquila, com o GPS ela não se perde mais. Eu nunca perco o norte. Sei sempre onde estou e para onde devo ir, até dentro de um shopping sei por qual porta entrei.

Duas vezes apenas aconteceu de me sentir perdida. A primeira foi na Bahia, em Salvador. Estava com alguns amigos e íamos indo para ver o Elevado Lacerda, quando olhei para o sol, já no fim de tarde, e lá estava ele, se pondo, no MAR. Fiquei de boca aberta. Como, no mar? Falei, perguntei, os amigos pareciam não me entender, parecia que eu falava grego…

— Como? Estamos no lado leste do país, o sol nasce no mar, não pode estar se PONDO no mar… nunca!

Lembrei que havia passado ao lado de uma farmácia onde havia um telefone público e um catálogo telefônico. Voltei correndo, pequei o guia e abri na página do mapa. Soltei um suspiro de alivio!

Salvador fica num istmo, por isso o mar estava à volta toda, quase uma ilha.

Nesta viagem que fiz para a Califórnia, fui de Los Angeles para San Francisco, onde mora minha filha mais velha, e junto com ela, minha neta, que já tem três filhas; fui lá conhecer as duas mais novas, lindas, as três. Chegamos às 9h30 da noite e fomos dormir tarde. No dia seguinte, minha filha me chamou logo cedo.

— Mãe, vem ver que vista…

As duas enormes janelas da sala mostravam um vale enorme, de capim verde, já tingido de vermelho pelo começo do inverno; um pequeno rio serpenteava e lá ao longe, onde terminava o vale, via-se a passarela que passava logo ali, quase debaixo da janela. As pessoas passeando, andando ou de bicicleta, davam a volta ao vale que terminava onde começava uma montanha cheia de casas grandes e bonitas, coroadas por um céu azul, límpido e frio. Realmente lindo demais. Minha filha e a neta com as filhas tinham consulta marcada no médico e me deixaram arrumando minhas coisas, dizendo que voltariam por volta das duas, trazendo o almoço. Ok…

Arrumei minhas coisas no quarto e lá fiquei usando o computador da neta, para pôr em dia meus emails. Já eram quase duas da tarde e me dirigi para a sala, e logo fui para a janela olhar o lindo vale…

Fiquei paralisada, tenho certeza, de boca aberta, e não caí porque tinha uma cadeira perto e me sentei… juro que ia cair e gritar também… A visão era demais! Um lago maravilhoso, bandos de gaivotas rodopiavam e mergulhavam para comer, dezenas de garças, duplas de patos grandes e lindos, pássaros… havia até pequenas ondas… e todos, via-se, comendo, ou melhor, banqueteando-se no lago.

Juro, eu ia desmaiar, quando minha filha abriu a porta dizendo:

— Mãe, é a maré… esquecemos de te contar… todo dia ela sobe e à tarde ela desce e a lagoa some, o vale volta a aparecer…

À tarde, lá pelas 6 horas, lá estava o vale de volta, o rio uma valeta enorme, onde um fiozinho de água corria, tudo igual… só eu não voltava a mim do espanto…

Gente, é uma sensação incrível… eles, os que moram ali, já se acostumaram e nem se lembram de falar sobre isso… até eu, depois de alguns dias, já não ficava mais lá, parada, olhando…

Mas precisava contar!

 

 

 

Maria Anna Machado é pintora por nascimento e escritora por adoção. Suas pinturas são sua alma, seus escritos seu coração. Completou oitenta anos e se voltasse a nascer não mudaria um minuto sequer, pois todos foram vividos com intensidade, serenidade e amor. Seu novo livro de contos, O rei das orquídeas, estreiou nos TOP100 da Amazon BR. Não perca.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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