Depois que o mundo não acabou

 No cinema o mundo já acabou por conta de vulcões, tsunamis, terremotos, invasão de extraterrestes e mais o que o freguês puder imaginar. Se o produtor precisa de um sucesso estrondoso, é só contratar uma autoridade em efeitos especiais e mandar ver. O fim do mundo se adapta a qualquer gênero: tragédia, comédia, romance, terror, ação. O estoque de filmes ruins sobre o tema não para de crescer.

A ideia do fim do mundo, no sentido literal ou figurado, está no DNA humano, um respingo da nossa finitude. Periodicamente alguém anuncia a sério (a sério?!) que o mundo vai acabar.

Há previsões para todos os gostos, mas se você leu até aqui, significa que nenhuma delas se concretizou. No entanto, para cada um desses fins do mundo existiu um dia seguinte que, entre o alívio e a frustração, deve ter marcado a vida de muitas pessoas. Imagine como pode ter sido o dia seguinte de quem realmente acreditou estar vivendo suas últimas vinte e quatro horas.

Por exemplo: a pancadaria comeu solta no vizinho aqui do lado. Pelo que deu para entender, no meio daquele vocabulário todo, ontem, véspera do fim do mundo, marido e mulher confessaram traições mútuas e pediram perdão um ao outro. Abraçaram-se e perdoaram-se aos prantos. Hoje caíram na real e dá para escutar os gritos de longe.

O mundo acabou ontem para os seguidores do Bispo Rosado, que se suicidaram coletivamente. Exceto o próprio bispo, é claro, que pagou para ver o castigo dos injustos e hoje acordou rico porque herdou todos os bens dos suicidados.

Numa certa delegacia, os policiais resolveram soltar os presos de menor periculosidade para que se despedissem das famílias. Um ou outro realmente fez isso, mas a maioria aproveitou para fazer um ganho extra ou para encher a cara no boteco mais próximo. Dizem que alguns agentes penitenciários se juntaram a eles. Hoje de manhã foi um Deus nos acuda.

Marcelo entrou num restaurante chique e pediu o Romanée-Conti que sempre quis tomar e nunca teve coragem. Era a sua derradeira chance. Tomou a garrafa inteirinha e pagou no cartão. Vence daqui a vinte dias. Vai ter que rolar a dívida e ralar o ano todo para cobrir o prejuízo. Quer saber? Valeu o sonho realizado. Para alguma coisa serviu esse tal de fim do mundo.

E como é que a Vanessa vai olhar hoje para aquele colega do DP, que é o maior tesão, depois do apaixonado beijo na boca que lhe tascou ontem, sem mais nem menos? O mundo ia acabar mesmo, o negócio era aproveitar. Só quando o cara a empurrou é que se deu conta de que mulher não era a praia dele.

Ontem, Maria ligou para a chata da prima Cristina e disse tudo o que achava dela e estava engasgado há anos. Se já era difícil encontrar a prima nas reuniões de família, imagine agora.

Sei não, é melhor continuar acreditando no fim do mundo só no sentido metafórico, tipo a Maysa cantando “Meu mundo caiu” ou a Luluzinha, exclamando “Seis anos e a vida acabada!” depois de brigar com o Bolinha. Ou, como diria Brás Cubas, antes cair das nuvens, que de um terceiro andar…

 

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