De vinhos, política e ação

O desespero eu aguento. O que me apavora é essa esperança.
Millôr Fernandes

 

Um amigo mandou esta frase sugerindo que eu desenvolvesse o tema, e dizendo que o apavora o sentimento de que o governo passa uma ideia de que está tudo bem, comparando com o encolhimento da economia.

Meu caro Rodrigo, abra uma boa garrafa de vinho daqueles especiais, mas faça como só você sabe. Tire a rolha devagar e vá observando enquanto esta se expande para fora até escutar o espocar da rolha, deixe em repouso por uns instantes enquanto lembra daqueles momentos em Lake Tahoe desfrutando nossa amizade e outro vinho. Sente-se numa poltrona confortável com a sua taça predileta e sinta o aroma gostoso observando a cor rubra do vinho, depois deguste o primeiro gole, tentando extrair o máximo de informações que suas papilas linguais permitam, do tipo: carvalho com certeza, um tiquinho de flor e se estiver com sorte algo de chocolate. Neste momento, você já estará vendo um Brasil mais cor-de-rosa. Quem sabe nosso ex-presidente não chegou à mesma conclusão, dentro dos mesmos eflúvios?

Meu amigo, você não era nem projeto de gente quando eu e muitos outros brasileiros participativos e atuantes já nos preocupávamos com os destinos desse gigante alegre que é o nosso país. Lembro-me muito bem de ter escolhido erroneamente a carreira de economista, pois achava que seria capaz, tolinha, de ajudar a solucionar os nossos grandes problemas econômicos. Já naqueles idos dos anos 1970 me desiludi, pois enquanto trabalhávamos eu e outros iludidos no Instituto de Pesquisa Econômica, teclando freneticamente as máquinas de cálculo manuais para descobrir o índice de inflação, o ministro da fazenda de plantão divulgava na mídia controlada pelos militares um número que nada tinha a ver com aquele que arduamente havíamos concluído.

Devo dizer que a corrupção que grassava naquela época era pinto comparada à de hoje, mas já mostrava suas garrinhas. Veja você, ainda estamos na luta.

A profissão de economista se mostrou absolutamente ineficiente, pois após estudos e mais estudos chega-se a uma conclusão e de repente uma vaca voa na china e vai tudo por água abaixo. Não se contava com esse fator.

Quando se poderia imaginar que, apesar de todos os nossos medos deste governo e toda esta corrupção dele advinda, nossa economia nem estivesse tão ruim comparada a outras que se consideravam muito mais sólidas? Estou neste momento escrevendo de uma varanda de frente para um lago muito plácido em Orlando na Flórida, e a calma é total, muito diferente do que tive a oportunidade de apreciar num centro de compras não muito longe daqui. A única língua que se escutava era o português, mas nem era preciso escutar. De longe, os modos já denunciavam a procedência daqueles ávidos consumidores derriçando prateleiras e mais prateleiras de artigos desnecessários, tão somente porque no Brasil está tudo pela hora da morte.

É de se entender que nossas indústrias estejam em baixa, já que hoje se compra de tudo muito mais barato no estrangeiro. Culpa de quem? Industriais? Coitados. Labutam debaixo da espada que é nossa legislação trabalhista onde se tem que aturar maus funcionários ou arcar com todas as despesas de sua exoneração. Aqui na América, se despede alguém na hora, pagando o que é devido no ato e pronto. Acabou-se o vínculo. Está claro que essas despesas têm que ir para o valor do produto final, junte-se a isso propinas e mais propinas para garantir o funcionamento da fábrica e, finalmente, mas muito importante, as taxas e impostos escorchantes.

Sinto muito desapontá-lo, meu estimado Rodrigo, mas a culpa de tudo isso é tão somente nossa enquanto povo (até pareço uma caetana). Cansei de estar em movimentos pela ética e cidadania e em campanhas políticas, mas era até triste o número de participantes. Nosso povo é alegre. Não percebe que estão lhe passando a perna contanto que possam comprar mais alguma boderega. Nem tente explicar a eles o que pode advir no futuro.

É por isso, meu amigo, que aconselho: deguste seu vinho com prazer e não canse sua cabeça com coisas que não pode resolver.

 

Publicado tambem no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

2 comentários em “De vinhos, política e ação

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