De olhos fechados

divaEsta semana assisti a um filme que me chamou a atenção, “Um Divã para Dois”, com Meryl Streep, Tommy Lee Jones e Steve Carell, este último surpreendendo no papel do analista. Os dois atores principais já valem o filme, e nos incentivam a assisti-lo. Se é possível com o tempo melhorarmos naquilo que fazemos, o desempenho dos dois confirma esta afirmação.

A história nos conduz para a vida de um casal, que, após muitos anos de casado, não mantém mais um relacionamento íntimo. Nisto se inclui a descrença no diálogo, no contato físico e, principalmente, no amor.

Desesperada diante da indiferença do marido, e vendo se perder no tempo a chance de viver uma vida plena, a esposa se vê diante da realidade crua da própria maturidade. Esta não fez desaparecer seus desejos e sonhos de uma vida em comum, junto ao homem que ama.

Ele, envolvido pelo tempo, pelo trabalho, pela rotina diária fortalecida pela ausência dos filhos que cresceram e partiram, se deixa ficar inerte diante da televisão. Espera o tempo o levar, sem pressa, para nenhum lugar.

Sentindo que sua vida não suporta essa realidade cruel e tal convivência, principalmente a ausência do real, do outro junto a si, ela propõe ao marido uma viagem. Juntos realizariam uma  Terapia de Casal intensiva. Ela já não suporta o relacionamento que existe entre eles, e quer uma mudança. Resistente e descrente, e não vendo razão para mudar o insuportável, a necessidade de modificar o relacionamento, naquilo que já esta estabelecido, ele cede no último instante. Eles partem para uma pequena cidade no interior dos USA, onde o tratamento ocorrerá.

Há entre o casal várias questões que os levaram a um impasse, e dentre elas a dificuldade do contato físico se ressalta. Fez-me pensar na importância do toque nas mãos antes de se sair para o trabalho, se é acompanhado de uma palavra ou um beijo suave, se existe um estar junto singelo e necessário nas coisas mais simples, detalhes que possam ser vividos entre dois.

Na história, existe no homem a dificuldade de olhar a mulher, de vê-la na intimidade, de ter no seu corpo a imagem de prazer e desejo. Como se o olhar vedasse os sentimentos, e não fosse possível o amor acontecer, ver o indescritível expresso pelos olhos do outro, seu gozo contido num morder de lábios, ou num grito que devassa o que não pode ser dito, no encontro de dois corpos e almas, na procura daquilo que já foi ofertado, e nesse instante sentido como se fosse único e completo.

Talvez falte aos homens, e neles me incluo, um jeito diferente de olhar. Ver a namorada, a amante e a companheira, mas ver, principalmente, a mulher. Ver que existe mais de um na relação, e que os desejos e vontades de dois são compartilhados. Há uma troca daquilo que é de um, próprio e único, e é ofertado ao outro. É mais que um laço, é um nó! Esta que amo, pela qual me apaixonei, mudará como eu, na carne e na alma. Nós viajamos juntos, sem a certeza do futuro, às vezes próximos, outras vezes num outro momento.

Sei que a distância que separa um casal pode ser imensa, mesmo quando estes dividem a mesma casa, a mesma cama, por muitos anos. Pois não é incomum, que um dos dois, ou mesmo ambos, permaneçam de olhos fechados diante da vida, que é dinâmica e requer mudanças.

Vale a pena ver a película. Vale a pena amar e ser amado!

No final, não do filme, mas de várias histórias, alguém pode, finalmente, abrir os olhos. Mas a seu lado talvez não reste muito, somente a certeza de que esse gesto aconteceu um pouco tarde.

 

 

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4 Resultados

  1. Gustavo disse:

    Abra os olhos e veja o que não quer ver!
    Abrs,
    Gustavo

  2. Bárbara Dias disse:

    O pior é saber que algum dia isso foi diferente, e que quando percebemos já é tarde. Ótima crônica!!

  3. Eliete Costa disse:

    No outro dia alguém cronicou sobre paradigmas… lembrei. Na relação longeva, tanto homem como mulher não abrem os olhos para o parceiro porque já sabem o que verão. Eu tb gostei muito do filme… deprimente em alguns momentos, mas sutil, delicado. Naquele casal quem abriu os olhos foi a mulher corajosa, que arrastou o homem para uma viagem ao desconhecido que era o próprio conhecimento – felizmente o amor imenso de ambos não tornou o gesto tardio. Ah, o filme tb é muito divertido. Aliás lembrou muito Walter Matthau.

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