De livros e chocolate

Todo fim de tarde era aquela ansiedade. Aquele homem meio truculento, que chegava às lágrimas com a facilidade de uma mocinha e se odiava por isso, traria em seu bolso um pedaço de felicidade. Tinha dificuldade em expressar seu amor e o fazia trazendo pequenos presentes, não caros, com certeza, mas que faziam com que minha mãe, minhas duas irmãs e eu nos deliciássemos.

De volta de seu trabalho na cidade, a caminho de casa, meu pai sempre passava em uma confeitaria para comprar chocolate — vê-se que um dos meus vícios foi iniciado por ele o outro foi culpa de minha mãe, que desde cedo nos incentivou a ler e, em mim, encontrou terreno fértil.

Ainda me lembro como se hoje fosse o gosto do chocolate de uma antiga fábrica que já nem existe mais, a Sönksen, com trema mesmo. Eu não ia abrindo assim logo de cara; tinha todo um ritual para meu momento de prazer. Na hora de deitar, abria meu livro, começava a ler, e, devagarinho, ia abrindo também a embalagem do chocolate: enquanto saboreava o doce, saboreava também o livro.

Confesso que eram livros muito difíceis, principalmente para aquela idade tão pouca, mas eu adorava. Lia Dostoiévski (socorro, Noga!), Jorge Amado, Monteiro Lobato para crianças e adultos, mas o que me encantava era O Ferreiro da Abadia, de Guy de Maupassant. Hoje, nem sei se teria a paciência e a constância necessárias para ler uma daquelas obras.

Aqueles desses instantes tão prazerosos me marcaram tanto, que eu também quis contribuir com a satisfação de algum leitor ávido por um bom romance de férias, livre, leve e solto. Daí, escrevi o Nuvem de Pó. Vou contar um pouquinho dessa história.

De repente, o tema surgiu, e escrevi como quem não quer nada, só para guardar momentos incríveis que passei. Depois tomei gosto e fui aumentando o texto, criando e inventando, montando um enredo. Foram dias maravilhosos, vivendo aquela história que eu mesma ia criando. Cada capítulo era lido e relido, procurando as palavras que melhor demonstravam as emoções que eu queria passar e eram, praticamente, histórias completas e diferentes.

Depois de muitos e muitos anos, após a aposentadoria, terminei o livro e fui atrás de quem o publicasse. Logo encontrei uma grande editora de São Paulo, que se interessou mais ou menos, pois tive que bancar a edição. Fizeram uma edição boa e uma capa linda. Convidei os amigos e fizemos o lançamento do livro. Também foi um momento inesquecível ser reconhecida como escritora, ver que as pessoas valorizam muito essa classe tão sofrida.

A pior parte veio depois. Apesar de alertada, tinha a esperança de ver meu livro sendo divulgado e vendido: ledo engano, nada aconteceu. Ainda tentei fazer uma edição para lançá-lo como livro digital achando que, como é novidade, poderia ter mais chance. Outra decepção, afinal, não sou nenhuma BBB para ter notoriedade e possibilidade de divulgação do meu trabalho.

Mas não me queixo. Sempre recebo retornos sobre meu livro e as pessoas me estimulam a continuar escrevendo.

Àqueles que estão começando na carreira, desejo boa sorte, pois precisarão de muita. Mas mais importante do que o destino é a caminhada. Desfrutem-na.

  publicado também aqui

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

4 comentários em “De livros e chocolate

  • 10/09/2012 em 19:07
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    Verdade, Manoel, escrevemos para nosso deleite! Mas… se alguém ler e deixar algum comentário, será melhor ainda!
    Priscila, adorei seu texto, me identifiquei apesar de não ter escrito nenhum livro até agora! (nem escreverei)
    Prossiga… você tem o “dom”!

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  • 09/09/2012 em 22:16
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    Mana véia, bem vinda ao mundo dos artistas. A gente, se alimenta de luz e de iluzão. A coisa mais difícil é se fazer conhecer. E que adianta fazer coisas lindas, escrever lindas histórias como a sua em nuvem de pó, se ninguém vai ver? Ninguém vai ler, ninguém vai assistir? Beijão!

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  • 08/09/2012 em 12:04
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    No finalmente…. Não escrevemos para “Os outros” … è para nosso outro Eu… aquele que se diverte com nossos textos…

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  • 07/09/2012 em 10:36
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    Tendo sido convocada (eu sou a “Noga” citada no texto aí em cima, e também a responsável pela “tentativa digital” da Priscila), aqui estou: além de editora, sou também escritora, e entendo muito bem a frustração da minha amiga, a quem tenho visto construir uma carreira apesar da “pouca resposta” do mercado ao seu romance publicado. Pois eis o que tenho a dizer, pelo menos sobre a parte digital. Assim como a Priscila, como vários outros autores da KBR, e como a própria KBR enquanto empresa, todos estamos no limite da ansiedade quanto à receptividade de nossos ebooks, mas, gente, acreditem quando digo que a revolução do livro digital no Brasil ainda está por começar, e vai começar em breve. Nossas frustrações virarão história, podem esperar, quando cada pessoa neste país souber tirar proveito da maravilha que é o livro digital. Aguardem. E quem já estiver com seu leitor digital à disposição, não perca o livro da Priscila. É ótimo! O link para compra está no texto acima! Boa leitura!

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