De cu pra lua

Não havia Geração Beat, apenas um bando de autores querendo publicar.

Allen Ginsberg

 

Tudo bem, eu tinha prometido que neste domingo falaria sobre Uivo, de Allen Ginsberg, então muito bem (já estou me repetindo, e na primeira frase, nossa mãe, isso é que é crise de criatividade).

O fato é que ando meio cansada de minhas promessas pra todo mundo, mas mesmo quando quero escapar delas, o compromisso com o “destino” parece que me persegue. Mal assisti ao filme na HBO e a querida Raquel Cozer escreve em sua coluna de ontem que a legenda na TV utiliza uma tradução à qual não tem direito, e ainda por cima a suaviza de um jeito que deve ter feito o próprio Ginsberg revolver-se na tumba, ah, todo mundo já sabe que escritor bom é escritor morto, a não ser, claro, quando alguém decide torná-lo torto.

La Cozer deplora que, por exemplo, “Deixaram-se enrabar” virou [na versão moralista da HBO] “ofertaram seu ânus”, mas não me lembro disso, talvez porque divido a minha mente, automaticamente e por artes do meu exigente casamento internacional, entre a legenda e o original, e só escute realmente o que me dá aquele clique final.

Argh. Ginsberg, é claro, teria odiado (eu ia acrescentar “um judeu como eu”, mas isso não tem nada a ver com a história). O que eu ia justamente dizendo sobre Uivo é que há nele a liberdade do que não foi escrito para ser publicado, ao contrário de tantos autores hoje em dia que pensam dar conta do recado com um texto muito bem arrumadinho, mas muito carente de sangue, de autêntica energia, de uma permanente e duvidosa autobiografia — que é o que confere força a quem entende do rabiscado, nunca verdadeiramente vomitado.

Literatura é forma, meus amigos, mas é verdade também, ou fica faltando alguma coisa, sabem como é, atire a primeira pedra etc. etc. Só a transpiração pode dar um jeito.

Pois o que me chamou a atenção no filme (e também nos vídeos que procurei depois na internet), no mau sentido, foi perceber que Ginsberg colheu seus louros ainda bem jovem, e com a devida colaboração do falso moralismo dos Estados Unidos — que em seu afã de bem (a)condicionar já havia podado igualmente na “corte” o Ulysses de James Joyce, sob a mesma e limitadora pecha de indecente sensacionalismo, o que há de errado com o sexo dessa gente? —, deitou-se sobre eles: virou para a sempre a voz concupiscente do movimento gay. Mas deixa isso pra lá, pra eles lá, digo, e Ginsberg sempre a regozar o mesmo verso no rabo, já velho, perto da morte e ainda não superou: “de prazer, e não de dor”.

O que está me interessando, no momento, é o perpétuo desafio de se reinventar, se é que vocês em entendem, ou a vida para, deixa de se renovar. No meu caso, uma manobra inteligente que me possibilita — com todo vapor e alguma dor dos textos que reprimo, por falta de tempo para escrevê-los, embora a autodisciplina me obrigue semanalmente a cometê-los aqui pra vocês, ó — o desafio mais duro ainda de me autossustentar e a ampla tranquilidade que isso pode providenciar. Nada a ver com a divina providência, claro.

Penso nisso e concluo que a maior liberdade que já experimentei na vida, acrescida de todo o vazio que a típica liberdade sempre traz — algo semelhante ao medo pânico daquilo que se desconhece —, foi ter me desvinculado definitivamente das pequenas superstições xamânicas que antigamente me tolhiam . Vejo as coincidências como coincidências, simplesmente, temperadas com uma organização mental que confere a elas um divinismo reincidente, mas falso, e que já não me afeta mais.

Fiz da minha vida o que quis, e de algum jeito que não consigo explicar, fui organizando a existência de acordo com aquilo que escrevi, algumas vezes relatando o que vivi, mas outras, aquilo que agora vejo que previ, et voilà. Estou por aqui. Antes e depois, sempre gravitando em torno da autobiografia ficcionada, vida reorganizada, autoeditada e autorreinventada uma multiplicidade de vezes, e com algum estilo.

Ainda bem, ou morreríamos de tédio, não é mesmo? [Royal we, legenda: plural majestático]. Pois embora não uive pra ela, por me auto-obrigar ao comportamento esperado e correto, no fundo no fundo, contra todas as aparências, sou mesmo de lua.

E um bom domingo procês.

 

 

2 comentários em “De cu pra lua

  • 22/07/2012 em 13:03
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    Então, de forma geral (100%) “Legendas” são deploráveis, deprimentes….traidoras do original.
    As sociedades são a quinta essência da imbecilidade e como se fora pouco …Moralmente hipócritas. Se tecem “criticas” sobre o uso de termos “correntes na linguagem falada” … ou temas que por absurdo que pareça ainda prevalecem como “tabu” nas cabeças ocas de milhões…. Muitos eventos chegaram, passaram e foram… sem serem percebidos.

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