Dar e receber

Depois de um dia de muita labuta é desejo geral entre os trabalhadores um descanso merecido, mas no campo vivia um senhor chamado Hércules, que, como o semideus, também exercia uso contínuo de sua força sobre-humana.

A semana fora cansativa em excesso, pois o inverno deixara a terra dura e, no campo, “terra dura” é sinônimo de muita força para retirar os alimentos que ainda estão presos no solo.

Quem passasse por perto da casa de Hércules ouviria um assovio cadenciado e agradável, que denota um ser em harmonia com tudo que o cerca. Ao ver o Sr. Hércules qualquer ser humano ficaria cansado, só de ver, e nem pensaria em realizar o que o camponês estava fazendo.

Ele tirara da terra grande quantidade de vegetais e sua carroça já estava abarrotada; por último, estava puxando um toco de árvore como uma “tenaz humana” — coisa que o trator cantaria e tremeria para fazer, mas o homem Hércules nem resfolegou. Foi com calma e assovio que o toco de árvore, ainda enraizado, saiu do solo vagarosamente.

Os camponeses não acreditaram. Estavam suando só de observar o esforço imenso. João não se segurou e achegou-se à cerca, saudando:

— Boa-tarde, seu Hércules!

— Boa-tarde, João! — respondeu Hércules, com pleno fôlego.

— Como você consegue realizar essa façanha? Ainda mais depois de um dia de muito esforço?

— Esforço? — com o olhar manso e bondoso para João, Hércules pôs-se a falar. — Ah! Você está se referindo ao trabalho? Não é esforço algum, é muita alegria e uma diversão que agradeço diariamente.

João ficou embasbacado, e retrucou:

— Mas como, não é esforço? Se fosse outro provavelmente cairia fulminado pelo excesso de trabalho.

— Nem tanto, meu amigo! — e nesse momento outros camponeses estavam se aproximando. — Eu vejo o trabalho como possibilidade de desenvolvimento e dou graças por ter muito a meu dispor. Não sinto esse esforço demasiado que o amigo relata. E quanto mais faço, mais meu corpo agradece.

Nesse instante um grasnado baixinho foi ouvido e Hércules, como um cão de caça, se pôs em alerta.

João ia falar, mas Hércules o deteve com um sinal a pedir silêncio. O gigante se levantou e começou a caminhar lentamente em direção ao toco que retirara da terra. Abaixou-se, e com suas mãos enormes pegou algo com uma candura imensa. Ao voltar para junto dos camponeses que estavam perto da cerca há em seu rosto um sorriso claro e justo.

— Eis um presente! — e abriu as mãos. Bem ali, um filho de passarinho. — Hoje recebo este pequeno para cuidar. Como não agradecer ao Criador por tanta felicidade?

Um dos camponeses olhou o bichinho e disse:

— Mas é um filhote de corvo! Esse bicho vai acabar com sua plantação. Dê fim nele…

Hércules olhou bem nos olhos de quem falou e se achegou com passos firmes. Ao ficar frente a frente com o indagador, que já estava tremendo, colocou a mão na cabeça do homem e disse:

— Amigo! Não dê para as criaturas o seu pior, doe-se e receberás o melhor!

Como a noite vinha chegando, todos se retiraram, e na cabeça dos campônios ficou a lição:

Quem muito dá, muito recebe!

 

 

Edegerdo Hardt Junior

Edegerdo Hardt Junior nasceu em Jacareí, São Paulo, em 1974. Aos três anos foi morar em Taubaté, cidade onde vive até hoje. Descobriu o maravilhoso mundo da leitura com a mãe; no colégio descobriu a vontade latente de escrever, a que deu vazão por intermédio da poesia. Formado em advocacia, atuou profissionalmente em Taubaté por sete anos. Em 2010, com o falecimento de seu avô materno aos 100 anos de idade, ainda jornalista ativo, voltou a praticar outros gêneros de escrita que não o jurídico. Seu livro de estreia, Algo para pensar: uma aventura diária, será publicado em breve pela KBR.

3 comentários em “Dar e receber

  • 19/12/2012 em 14:14
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    Ed!Adoro a surpresa de conhecer a sensibilidade das pessoas que nos rodeiam!Parabéns pela sua obra.A vida de escritor se faz dura, mas quando se emociona um único leitor que seja, já terá valido a pena.
    Feliz Natal e um brilhante 2013 para você e sua família.

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  • 07/08/2012 em 20:42
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    Muito obrigado caro Manuel Funes!
    É uma honra tê-lo a ler minhas diminutas linhas.

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