Damas do crime

Depois da fantástica dupla Sherlock Holmes e Watson, tivemos alguns outros autores de livros policiais, mas o fato marcante foi a chegada de Agatha Christie, por muito tempo a grande dama no mercado editorial mundial, só vendendo menos do que a Bíblia. Os críticos a crucificavam por ela usar uma única fórmula em suas narrativas. No entanto, é preciso reconhecer que ela usou a “formula” com muita habilidade. Julgamentos à parte, ela ocupa um capítulo especial dentro de uma literatura chamada “de massa”. E, a exemplo do que Conan Doyle fazia muitos anos antes, costuma viciar seus leitores.

Agatha Christie se situa no melhor da tradição inglesa, a das histórias de detetive que usam mais o intelecto do que os punhos. Na sua época, a polícia já contava com a Scotland Yard e diversos recursos para descobrir os criminosos. Os detetives de Agatha Christie investigam casos, baseando-se no profundo conhecimento da alma humana.

Seus detetives são Miss Marple e Hércule Poirot. Eles não têm aquele amigo que os admira e narra os acontecimentos para o leitor. Seus casos se passam sempre na aristocracia inglesa. O ambiente é refinado. O desenlace também é clássico. O detetive reúne os suspeitos e, com lógica implacável, demonstra quem é o assassino.

De nacionalidade belga, Poirot é um personagem extremamente extravagante. Não é nada modesto, e está sempre se gabando da forma como usa as suas “células cinzentas”. Possui um grande e belo bigode que é o que melhor o identifica, e tem sempre uma aparência elegante e impecável. Ele é um grande fã da ordem e do método, daí estar sempre impecavelmente vestido. Em certos momentos, chega a ser rabugento. O personagem apareceu pela primeira vez em 1921, no romance O misterioso caso de Styles.

Ao contrário dos outros grandes detetives da Scotland Yard, Poirot diz que pode resolver um crime estando “apenas sentado na sua poltrona”. Ele compara os seus colegas a “cães de caça humanos”, pois eles usam pequenas pistas no chão, pegadas e impressões digitais como método de trabalho. Além de “pequenas células cinzentas”, Poirot usa como único meio a psicologia humana. Não é um detetive de ação, mas meramente dedutivo, que para resolver seus crimes prefere interrogar todos os envolvidos; porém, muitas vezes, precisa investigar a pedido de seu amigo Hastings, ou por extrema necessidade.

A outra detetive de Agatha Christie é uma mulher. Miss Jane Marple é uma anciã que mora na pequena aldeia inglesa de St. Mary Mead. Aparentemente é uma idosa comum, que se veste sem muita classe e é vista frequentemente tricotando e tirando ervas daninhas de seu jardim. Às vezes, é considerada confusa ou caduca, mas quando passa a resolver mistérios, mostra ter uma mente lógica e afiada, e um conhecimento incomparável da natureza humana com todas suas fraquezas, forças, truques e excentricidades. Sua primeira aparição foi em 1930, no romance Assassinato na Casa do Pastor.

Ao todo, Agatha Christie é autora 66 novelas policiais, 163 histórias curtas, duas autobiografias, vários poemas, e seis romances “não crime” sob o pseudônimo de Mary Westmacott. Pioneira em criar desfechos impressionantes, verdadeiras surpresas para os leitores, seus textos seguem fascinando as novas gerações.

Além de Christie, podemos falar que as damas do crime são basicamente as inglesas P.D.James, Ruth Rendel e Dorothy Sayers e a americana que viveu na Europa, Patricia Highsmith

Como seus detetives, P. D. James criou o comandante Adam Dalgliesh, Ruth Rendel o inspetor Wexford e Dorothy Sayers o Lord Peter Wimsey. A exemplo de Agatha Christie, todas elas criavam tramas em que o cadáver aparecia em locais fechados, em geral localizados em pequenas comunidades e descritos como ecos das clássicas histórias inglesas. Todas mostravam o ambiente refinado da aristocracia inglesa. O desenlace também é clássico, o detetive reunindo os suspeitos e demonstrando quem é o assassino.

Uma grande mudança acontece com Patrícia Highsmith (1921-1995), americana que viveu na Inglaterra e na Suíça. Ela estreou com Pacto Sinistro, que foi filmado por Hitchcock. Das damas do crime, é a que saiu dos padrões clássicos, talvez até por sua sexualidade extravagante para a época: era lésbica declarada.
Em 1955, publicou a primeira história da série Ripley, o anti-herói. Na época, os romances policiais se equilibravam entre o crime e as três decorrências lógicas: a investigação, o criminoso e a solução. O escritor mantinha o foco na investigação. Uma das estratégias da autora para manipular a convenção foi girar o triângulo e centrar a narrativa no criminoso, ao invés de na investigação. Com isso, ela minimiza o suspense; destaca as “motivações” do seu anti-herói e as “consequências” de seus atos.

Bem, aos poucos vamos vendo as mudanças! Até a próxima!

 

2 comentários em “Damas do crime

  • 19/08/2011 em 17:36
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    Olá Magno, obrigada por seu comentário. Muito bom!!!
    Borges, numa palestra sobre o conto policial, menciona Allan Poe e justamente o fato de hoje esses contos parecerem ingênuos, mas na época foram uma fantástica invenção! Foi o chute inicial para tudo o que veio depois. Tenho tentado ir pegando os novos elementos em cada autor!!! A história vai continuar! Na próxima semana será Simenon. E em seguida a fantástica mudança de Dashiel Hammet/Sam Spade; Raymond Chandler/Philip Marlowe: o noir americano! Não vou contar aqui a mudança!!! Deixo para você ler quando sair!
    um grande abraço

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  • 19/08/2011 em 17:01
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    Cara Vera,

    Alguns detalhes interessantes sobre sobre a história do conto policial.

    Como gênero literário, o seu marco inicial deu-se com a publicação, por Edgar Alan Poe, do conto “Assassinato na Rua Morgue”. Nesse conto, em apertada síntese, o crime já havia acontecido quando a história começa a ser narrada e o assassino não é humano, mas um gorila que se faz passar por gente.

    A seguir, em termos de evolução teórica do conto como peça literária, temos Conan Doyle, que nos traz Sherlock Holmes. Em suas histórias os crimes também já haviam ocorrido, a solução se dá por dedução e Holmes sempre é mais inteligente que os criminosos. Conan Doyle percebe isso ao longo dos anos e acaba criando um rival a altura, o cruel Moriarty.

    Em seguida, a próxima evolução do conto policial deu-se justamente pelos escritos de Agatha Christie. Ela foi a primeira a começar a história antes do crime ter ocorrido. Algo banal para os dias de hoje, nunca tinha sido escrito. A história era “Assassinato no Expresso Oriente”.

    E, por aí vai. A história do conto policial segue se renovando com Dashiell Hammett, Simenon, Boileau-Narcejac etc. Embora não tenham sido muitos os autores que efetivamente trouxeram elementos teóricos novos para a estrutura do conto policial como o concebemos hoje, os seus frutos foram férteis e são bem conhecidos. Agatha Christie influenciou todos os autores que vieram depois dela e isso não é pouco 🙂

    Essas criações literárias, sem sombra de dúvida, fizeram desses autores o grande sucesso editorial que conhecemos e, por isso, acho que cabe destacá-los de meros produtos de consumo descartável. Na verdade, são entretenimento da melhor espécie, mas também são preciosidades que merecem ser apreciadas e valorizadas.

    Um abraço e parabéns pelo artigo!

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