Da água para o vinho

Dois Vales: antes e depois.

por Cláudia Vasconcelos

 

No desastre da Serra do Mar, a serra virou mar… um mar de lama, corpos, desabrigados e carros amontoados.

Naquele 12 de janeiro, o Rio de Janeiro assistiu estarrecido ao pior deslizamento da história do país. A combinação de fortes chuvas com condições geológicas características da região, aliadas à ocupação irregular, provocou um verdadeiro tsunami, levando em sua cauda árvores e pedras. As casas viraram móbiles, ao sabor do desvario da natureza. Dezenas de pessoas foram carregadas nos ombros do barro pavoroso. Os mortos se multiplicaram. A desgraça não dava trégua, desfazendo casas, famílias e sonhos.

Eu não conseguia sair de casa. Sofria as dores dos habitantes a cada take televisivo. Mas uma cena em especial tirou-me o fôlego: a Pousada Tambo Los Incas fora arrasada, tendo as águas alcançado o teto do estabelecimento. Estabelecimento? Não, não poderia ser classificado desse modo.

O lugar era um pedaço do paraíso. A construção rústica, aliada ao conforto do moderno, tinha sido a antiga Fazenda Santo Antônio da Providência e guardava a história da origem da pousada, como consta no antigo site: “A ideia que deu origem ao Tambo Los Incas começou a se delinear no início da década de 1980, quando o seu fundador, Zizinho Leite Garcia, retornou de uma estadia em Lima, no Peru. Apaixonado pela cultura inca, Zizinho conseguiu trazer na mala do seu Chevrolet, em 3 longas viagens, uma pequena, mas expressiva, coleção de cerâmicas pré-colombianas ou huacos — hoje expostas na sala principal da pousada. Deu à sua pousada o nome de Tambo, que, na língua quéchua, falada pelos antigos incas, significa um pouso para o descanso, uma cabana com água e comida em abundância.”

Estive lá várias vezes e a paixão pelo lugar, atendimento, quartos com móveis originais de época, adega e restaurante de tirar o chapéu e deixar a baba escorrer, davam-me a certeza de que o “conjunto da obra” pertencia ao gênero estupendo. O vigia conseguiu safar-se a tempo, mas o que ali estava de material virou uma maçaroca indescritível. Não sobrou garrafa de vinho sobre pedra, móvel sobre barro, ganso sobre lama, tocheiro sobre água. O paraíso ganhara ares de inferno. E meus fins de semana ficaram mais pobres.

O tempo passou, mas jamais a saudade do lugar. Insistente, resolvi no último domingo verificar se a pousada havia reaberto. Subi a serra e em pouco tempo já estava no Vale do Cuiabá. A poucos metros de onde ficava a pousada, uma casa/restaurante chamou-me a atenção, linda e amarela, entre os ciprestes. Segui. A visão do lugar devastado mordeu de jeito a beirada da alma. Agora, só as fotografias tiradas no passado poderiam preencher o vazio. Só restara a entrada de pedra.

Ali, dei meia volta com o carro. O estômago já roncava e o olhar comprido para o que vira antes na estrada me fez estacionar em frente ao Restaurante 2 Vales, aquele da casa amarela.

Meu pé parou quando a porta do lugar foi aberta. Deslumbrante! Não tive dúvida em dizer ao maître que estava à procura de um bom restaurante. Ele sorriu, simplesmente. Escolhida a mesa, trouxe o cardápio e a carta de vinhos. Abri o primeiro e me choquei: nele constava a história do restaurante, pasmem! A equipe do lugar é composta pelos antigos funcionários do Tambo Los Incas, que se reuniram após a tragédia para dar continuidade àquilo que sabiam fazer: atender com sofisticação e brindar os clientes com produtos de qualidade.

Sua determinação, coragem em enfrentar desafios, capacidade de trabalhar harmoniosamente em equipe foram recompensadas pelos clientes assíduos, como o arquiteto e decorador de interiores Chicô Gouveia, que os brindou com uma decoração original e elegante.

O lugar é dos deuses, e a equipe composta por Wellington, André, Angelo, Sergio, Marilene, Rita e Regina merece um lugar ao sol de Itaipava, e eu, outros fins de semana inesquecíveis.

Não à toa, o restaurante está localizado no Vale da Boa Esperança.

 

 

2 Vales Restaurante & Deli

Estrada Ministro Salgado Filho, nº 255 – Vale da Boa Esperança – Petrópolis

(24) 2222-0753

 

Cláudia Vasconcelos é escritora e poeta. Nasceu em Porto Alegre, na penúltima meia hora do dia 18 do mês de agosto. Ainda menina, tomou gosto pelas redondilhas das palavras. Não parou mais. Sua alma de viajante a levou aos quatro cantos do planeta, nas asas dos aviões da Varig, onde foi comissária de bordo por 30 anos. Pela KBR, publicou o best-seller Estrela Brasileira.

 

 

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2 Resultados

  1. manuelfunes disse:

    Talvez seja porque acreditamos que somos “alguma coisa especial” na natureza… Na verdade compartilhamos o mesmo ambiente. Sem tratamentos diferenciados dos outros habitantes do planeta.

  2. Apesar de um pouco nostálgico, traz a alegria do reencontro.
    Delicioso.

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