Cúmplices no drama

envergonhado rindo

Aconteceu num daqueles city tours em que o ônibus vai pegando os turistas, dois ou três em cada hotel. Ao final, reuniu-se um grupo com cerca de trinta pessoas de nacionalidades diferentes, usando o inglês como língua de comunicação.

O guia era um senhor de seus setenta anos, elegantíssimo, vestindo um sobretudo bem talhado. Enquanto percorríamos os hotéis ele dava, pelo microfone, algumas informações sobre os lugares por onde passávamos.

Primeira parada: Igreja de Santa Maria. Linda. Explicações agora ao vivo. Com os turistas reunidos no interior da igreja, o guia começa. Surpreendentemente, dele sai uma voz que em nada combina com a figura física.  Esganiçaaaaaaaada como a de um adolescente que está virando homem. Aguda. Bizarra. Ridícula.

Cada turista foi tomado de súbito interesse cultural por um santo, ou altar, ou escultura, ou púlpito, ou coisa que o valha. O importante era que o objeto escolhido para admirar os levasse para longe do guia. Afastaram-se respeitosamente, disfarçando, até que estivessem a uma distância segura que lhes permitisse rir sem serem notados. Alguns, com maior autocontrole, caminharam lentamente, outros fugiram às pressas. Olhos no teto ou no vazio, o grupo se dispersou. Só continuaram com o guia minha companheira de viagem e uma espanhola de chapelão. Fleumáticas, aquelas duas. Talvez ajudasse o fato de não entenderem uma palavra de inglês.

Escondida atrás de uma coluna, eu via alguns dos meus colegas de infortúnio também com ataques de riso. Encarar o outro dava ainda mais vontade de rir. Só pelo olhar, nos reconhecemos moleques de calças curtas.

Mas o senhor era tão distinto! Com sacrifício, mirando o chão, sem olhar uns para os outros, nos reaproximamos aos poucos. Cúmplices. Não vi nada da igreja, só me lembro do chapelão da espanhola. Assim que acabou o passeio e o guia virou as costas, ela e minha companheira explodiram em gargalhadas. Sem que nenhuma das duas compreendesse o que a outra falava, soltaram a franga.

 

 

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1 Resultado

  1. manuelfunes disse:

    O riso é gerado quando nossa pobre cérebro se depara com um paradoxo! É uma especie de Catarse… talvez para não ser liquefeito RS RS RS

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