Cuidado, armadilhas!

Era um canal de televisão de língua espanhola e o subtítulo da notícia dizia: “presunto asesino”; especialista que sou em portunhol da melhor estirpe, imediatamente traduzi a expressão por “presunto assassino”.  A imagem mostrava um homem sendo algemado e preso, quiçá o vendedor do tal presunto que, estragado e cheio de más intenções, tinha matado alguém.  Numa fração de segundo, minha expertise concluiu que seria mais adequado traduzir presunto por presumível, uma vez que presunto em espanhol se chama jamón.  Dei uma gargalhada sincera: pelo menos começava o dia com bom humor.

Possuo uma coleção de traduções desastradas do espanhol, minhas e de outros brasileños.  Quando você se depara com uma língua completamente desconhecida, como russo ou mandarim, nem se dá ao trabalho de tentar entender, mas o problema do espanhol é que você conhece todas as palavras que eles falam.  Você entende tudo.  Tudo errado, é claro.

Há casos clássicos, como exquisito, que adjetiva uma coisa especialmente boa, e saco, que é casaco ou paletó.  Em espanhol, oficina quer dizer escritório; para designar oficina mecânica eles usam taller.  Talher?  Isso é cubierto.  Cobertor?  É cobertor mesmo, mas esqueça faca, colher e garfo: são cuchillo, cuchara e tenedor.

Além disso, você também se considera capaz de falar, achando que está mandando bem.  Certa vez precisei embalar algumas coisas e percorri várias papelarias atrás de papel para embrujo: inacreditável que não encontrasse papel de embrulho em nenhuma  delas, e que em algumas a negativa fosse enfática e acompanhada de olhares atravessados.  Pedi ajuda a um amigo local e descobri que embrujo quer dizer feitiço. macumba.  O que eu queria era papel para paquete, o que achei no primeiro estabelecimento em que entrei e pedi da forma correta.

Imbatível até hoje nesse esporte de adaptar o português ao espanhol foi uma amiga, que tomou uma Coca-Cuela em um restaurante.  Não posso rir, já fiz coisa semelhante, afirmando que “non vale la piena” e ouvindo como resposta “que lindo vocês falam, aqui nosotros dizemos pena“.  Fiquei quieta, desmentir para quê?  Existe por aí uma sul-americana dizendo piena, se você a encontrar, por favor, não a corrija, ela tem todo o direito de achar que está falando português.

É claro que toda língua prepara armadilhas.  Conheci uma espanhola (natural da Catalunha!) que, viajando pelas nossas estradas, se acabou de rir com duas placas que encontrou seguidamente: “Borracharia”, porque lhe soava estranha a existência de um lugar especial para recolher borrachos, para ela, bêbados; e “Perigo de vida”, pois dizia, muito acertadamente, que nós corremos “Peligro de muerte“, porque vivos, até prova em contrário, já estávamos.

Nas minhas andanças, descobri que cuello (lê-se “coelho”) quer dizer pescoço; o animal se chama conejo.  Foi quando me perguntaram se Paulo Coelho era Paulo Cuello ou Paulo Conejo.  É Conejo. E falando de bichos.  A primeira vez que ouvi a expressão “un rato, un ratito” só não subi em cima de uma cadeira porque todos os outros participantes da conversa mantiveram a calma.   Aprendi que a pessoa só queria que aguardássemos “um momento, um momentinho”.  O rato é un ratón.  Felizmente ele não disse barata (que, aliás, é cucaracha), ou eu teria dado o maior vexame.

Ainda por cima há os sotaques e as expressões regionais.  Brasileiro comum, é claro, não distingue uma coisa nem outra.  Os chilenos dizem pollera, os argentinos falda: ambos designam saia feminina, nada de poeira ou fralda.  Alguns pronunciam calle como “calhe”, outros como “caje”.  Às vezes, meu sobrenome é Vaje, outras é Valhe e em poucas ocasiões é até mesmo   Vale.

Se você fala espanhol, o que é muito útil e louvável, não me escreva corrigindo nada do que leu acima.  Deixe a gente rir de nós mesmos em paz…

 

 

Deixe você também o seu comentário