Cubada no outro

“Eu é o outro”, disse Arthur Rimbaud.

O meu outro estava com mania de me visitar direto e reto. Não sei se vinha por causa da minha cachaça de Itapecerica, do bufê cheio de discos de vinil ou dos meus aforismos de geminiano.

Numa noite gelada, pediu para ficar no quartinho do fundo. E foi ficando. Eu devia ter mandado o cara embora, mas não tive coragem. Meu vacilo se transfigurou em dó daquele louco de barba desamparada e roupas desmilinguidas, que jurou de pé junto que não ia me incomodar.

A curiosidade sobre o sujeito estranhíssimo me obrigava a dar uma cubada nele de vez em quando. Nos dias cinzentos, ele ficava radiante. Se pintasse uma chuvinha então, delirava. Todo falante, esfregava as mãos e chamava o povo da casa para fazer “alguma coisa de diferente”. Não esqueço o dia em que o dito cismou de enrolar ameixas secas em folhas de bacon. Fincou palitos para fixar os rolinhos, colocados com deferência no grill. Um rito. “Põe “Kashmir”, do Led Zeppelin”, pediu umas trinta vezes. A chuva o deixava elétrico.

Quando o povo da casa foi para Tiradentes, o figura se incumbiu de tomar conta de tudo, até de dar ração para o cachorro. Dias depois da viagem, um vizinho me contou que a peça amarrou um porre astrofísico e pôs “The Musical Box”, do Genesis, sem parar durante horas. No final da música, o volume superior às trombetas do Apocalipse, ficou berrando o clímax: “Why don´t you touch me? Touch me now, now, now, now, now!

De vez em quando, sem dar a menor satisfação, a Tristeza batia no homem. “Sinto as mãos da monstra. Uma empurra minha cabeça para baixo, a outra passa gilete no meu coração”, ele disse, enquanto procurava um colírio. Tentava ver TV, ler jornal, mas não conseguia foco. Ouvia gritos, acordes de vozes, sussurros de cobra, dizia que estava ficando esquizofrênico, que era o Mister Hyde.

Dureza essas crises. Ainda mais quando a Tristeza recebia uma pomba-gira niilista: era a hora de o elemento falar que não enxergava um único motivo para estar vivo, debochar do “bando de escrotos que buscam o sentido da vida”. Fã de Machado de Assis, dizia que o ser humano é a coisa mais vagabunda e ordinária do universo, que “nós não conseguimos nos organizar no planetinha”, que a civilização é um fracasso retumbante, que “as redes sociais são um aquário de palhaços incompetentes com suas fotinhas patéticas”. Quando via ou ouvia falar de algum político, tinha arritmia cardíaca.

Esse grau de enjoamento durava dias. “Não tenho celular, mas tenho uma solidão crônica que amo de paixão”, escreveu, num papel de padaria. Entre seus pertences escassos, uma coletânea do Drummond. Tinha dia em que ele amanhecia com a voz cavernosa e, com a contrição de um devoto de novena, ficava repetindo: “Êta vida besta, meu Deus”; “O poeta está melancólico”; “Carlos, por favor, não se mate”.

Confesso que eu ficava torcendo para chover. Só assim teria novamente acesso ao hóspede gentil.

Um de nossos melhores capítulos foi o passeio de Fusca debaixo de um dilúvio ameaçador. No toca-fitas, “Everybody´s Talkin’” para dois Perdidos na Noite cantarem ao sabor de uma cerveja, menos contraventora que fraternal.

O cara é um tremendo mala, mas é gente boa. Já tem uns dias que ele viajou. Disse que precisava apresentar a algumas pessoas o folder dos pacotes de viagem para o meio do inferno.

Reconheço que estou aliviado por dar uma descansada dele. Mas aqui ficou esquisito, tenho uma sensação de que está faltando alguma coisa…

 

 

3 comentários em “Cubada no outro

  • 14/06/2012 em 12:29
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    Me da igual! Amo los dos! Rssssssss…

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  • 14/06/2012 em 11:42
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    Hummmm…realemente um cara instigador…ese seu amigo….La morale est la faiblesse de la cervelle

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  • 14/06/2012 em 10:06
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    As lágrimas insistem em rolar !

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