Crônicas parisienses: Edward Hopper, o pintor da solidão

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“Uma luz que ilumina, mas que não aquece.”

Revista Veja.

 

Edward Hopper (1882-1967), considerado por quase todos os críticos de arte como o maior pintor americano, está tendo uma monumental e exuberante exposição no Grand Palais, que começou no dia 10 de outubro. São filas intermináveis, artigos nos jornais, comentários na televisão, publicações, todos deslumbrados com o artista que foi considerado o pintor da solidão, e alguém que dominou a luminosidade como poucos outros conseguiram na história da pintura.

Hopper passou longas temporadas na França, onde sofreu grande influência de Manet e, principalmente, de Degas. Alguns dos quadros de Degas estão na exposição, ao lado dos de Hopper que neles buscou inspiração, mais marcante, principalmente, nas cenas de teatro. Hopper era um pintor preso aos seus princípios de retratar a vida real, sem retoques e sem maquiagem, independente do tema abordado e dando um toque psicológico a seus personagens. Era um leitor de livros de psicanálise, principalmente da obra de Freud.

Realizou uma série maravilhosa de caricaturas em aquarela, técnica que dominava com a mesma maestria que a pintura a óleo, o desenho e o bico de pena, ilustrando cenas da vida parisiense; foi apresentada ao público em 1916, e diante delas você esquece o passar do tempo.

Sua ilustração para Os Miseráveis de Victor Hugo é algo quase angustiante, sendo seus miseráveis mais miseráveis dos que os criados pelo grande escritor.

Seus óleos retratando Paris são, também, profundamente solitários, tristes e belos ao mesmo tempo: ruas vazias, Notre-Dame, pontes e recantos do Sena e o extraordinário “Soir Bleu”, pintado em 1914 e inspirado em um poema de Rimbaud. Este quadro, de grandes proporções, mostra um grupo de boêmios na beira de um cais, depois de uma festa à fantasia. O que tem a cara pintada de branco, com boca de palhaço. é o mais profundo exemplo da solidão hopperiana.

Outro fator impressionante e dominante em sua arte é o conhecimento da luz, que, segundo ele, tentou aprender com Vermeer. Do mestre holandês a exposição tem um quadro que mostra uma mulher costurando, ao lado do de Hopper, onde outra mulher costura em uma máquina. O jogo de luz é puro Vermeer, mas a solidão absoluta da costureira do americano é sua marca registrada.

Hopper era tão minucioso no estudo da luz que voltava a determinado lugar, sempre na mesma hora, para estudá-la com mais precisão, seus detalhes, suas sombras e o efeito que poderiam produzir. Mas até essa luz é repleta de solidão, porque ou ilumina com genialidade casas, trens, barcos sem pessoas, ou, quando coloca um personagem em suas telas, ele está sozinho e a luz é elemento fundamental para obtenção desse efeito.

“O certo é que Hopper usava pincéis, mas pintava com a alma”,dizo belo catálogo da exposição, editado pela revista Beaux Arts.

Quando voltou definitivamente para os Estados Unidos, Hopper começou a desenvolver seu tema urbano, e toda a sua criação passa a refletir sua visão pessoal da moderna vida americana. E quando passou a abordar as paisagens e os temas urbanos americanos, a arte de Hopper explode como genial em sua fascinação pelos subúrbios, principalmente os de Nova York, ruas, postes, casas, vagões e trilhos.

Seus vagões estão sempre parados em um canto, e os trilhos são uma constante em suas paisagens rurais e urbanas, talvez porque o pintor visse em seu paralelismo, linhas que nunca se encontram, um elemento de toda a sua solidão.

Hopper passou a desenvolver uma temática nova, o que foi chamado de voyeurismo hopperiano, para pintar seus personagens colocando-se fora de seus apartamentos. Pintura alguma talvez tenha atingido a solidão de seu quadro “Morning Sun, onde uma mulher de camisola, sentada na cama, tem uma carta na mão, sua tristeza e solidão acentuadas pela eterna luminosidade exterior que a ilumina.

Um crítico escreveu que “a solidão dos casais de Hopper é a solidão a dois, a mais angustiante de todas, porque divide o que não se consegue somar”.Esta solidão a dois tem seu momento mais tocante no quadro “Room in New York”, onde o voyeur Hopper, de novo olhando pela janela, pinta um homem lendo um jornal enquanto sua companheira, no canto do quadro, dedilha um piano-armário, sem que seus olhos se encontrem. Este quadro de 1932 é a considerado o maior exemplo da solidão partilhada de sua obra, e diante dele você cria uma história e começa e escrever mentalmente um romance que nunca irá realizar. Mas fica a fantasia.

Ruas e bares de Nova York são tocantes, e foram inspiração para diversos filmes policiais. E foi essa Nova York onde as pessoas não se encontram, mesmo em seus bares onde os personagens, até os acompanhados, estão sozinhos, que influenciou o genial escritor Georges Simenon, que viveu nos Estados Unidos entre 1945 e 1955, ao escrever seu romance, dos mais amargos, Trois Chambres à Manhattan, onde o escritor que é considerado o mais profundo analista da alma humana coloca seu dois personagens em uma busca desesperada de se encontrar, e, segundo palavras do próprio Simenon, talvez nunca tivesse sido escrito se não fosse a visão dos quadros de Hopper.

E esses mesmos quadros foram fonte de inspiração para filmes como o clássico “The Killers, de Robert Siodmak, com Burt Lancaster e Ava Gardner, o “Profondo Rosso”, do italiano Dario Argento, dois filmes do diretor alemão Wim Wenders — “Don’t come knocking e The end of violence, além de inúmeros outros de menor expressão.

“Meu objetivo na pintura foi sempre a transcrição a mais exata possível das minhas impressões mais íntimas da natureza.”

Suas casas também são sempre solitárias, poucas habitadas, e as poucas sempre por solitárias personagens. Seu estupendo quadro “House by the Railroad, que nos deixa de queixo caído, também deixou caído o queixo do mestre Alfred Hitchcock que nele se inspirou para filmar a casa do seu filme “Psicose”; mais tarde foram os criadores da “Família Adams” e, finalmente, já em 2005, o diretor John Carpenter a usou em um de seus filmes de terror e maior sucesso de público, “A névoa”. A lendária tela de Hopper fez história até no cinema.

Se você gosta de pintura, se gosta de arte, se gosta de se emocionar, por favor, indo a Paris, não deixe de ir ao Grand Palais. Faça todos os sacrifícios possíveis, enfrente fila, frio, neve, vento, mas vá ver a genialidade de Hopper.

Tenho uma querida amiga que mora em Paris há mais de quarenta anos, e como possui a carta Cézanne, que lhe dá direito de entrar levando um convidado e não enfrentando filas, tive a sorte de ir vê-la duas vezes. Infelizmente, termina no dia 28 de janeiro, completando quase cinco meses de exposição.

 

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1 Resultado

  1. Hopper, realmente é um artista que sempre me tocou muito ao coração.

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