Crônicas parisienses: as manifestações

Gay-Dads-Penney-489A editora Noga Sklar, da KBR, me sugeriu que escrevesse algumas crônicas abordando o que observei na minha viagem de novembro e que complementariam algumas informações sobre temas tratados no meu livro Paris para principiantes.

Para começar, devo dizer que o livro, apesar de ter saído no dia 10 de novembro, quando fizemos seu lançamento diretamente de Paris, via Facebook, já precisa ser atualizado. No capítulo “Manger”, ao me referir a um de meus restaurantes preferidos, elogiei sua bancada de ostras. Agora, passando por lá, nem bancada e nem ostras! Um dos sócios me disse que resolveram terminar com elas.

Falei do Fórum des Halles e vinha andando tranquilamente, quando me deparei com tapumes, britadeiras, guindastes, gruas, poeira, um barulho infernal e nada do Fórum des Halles: tinha ido para o espaço, ficando somente as bocas para acesso ao metrô e aos trens da RER. Em 2013 serão inaugurados lindos jardins e, em 2016, o novo Halles, projeto meio mágico, futurista, de extremo bom gosto.

Mas vamos voltar às manifestações. No capítulo “As greves”, falo que as manifestações são tão atávicas que fazem parte da cultura francesa, são mais populares até do que a baguette, e recebem o tratamento carinhoso de “manif”. São realizadas manifestações a qualquer momento; pessoas nelas entram sem saber nem por que, mas entram porque é edificante para o francês estar no meio de uma manifestação.

Na mais pura gozação afirmo no livro que “se, por acaso, tipo milagre, naquele dia não acontecer nenhuma, a turma da CGT se reúne e organiza imediatamente uma manifestação para protestar contra o fato de que não foi programada nenhum manif. Entenderam?”

Uma semana depois do lançamento do livro, exatamente no dia 17, sábado, e no dia seguinte, domingo, Paris foi cortada ao meio por duas manifestações que reuniram, em cada dia, mais de cem mil pessoas, todas protestando com o objetivo do pressionar a Assembleia a não aprovar o projeto de lei permitindo o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

Puro preconceito em uma cidade que nas décadas de 1920 e 30 foi chamada de “lupanar do mundo”, o que é isso? Cidade que recebeu de braços abertos os gênios do jazz americano, e onde, segundo o imortal Charlie Parker, “foi a primeira vez que me trataram como gente”.

Paris, que aceitou os emigrantes de todos os recantos do mundo, que foi o berço de manifestações intelectuais em todos os setores das artes, teria mudado tanto ao ponto de movimentar milhares de pessoas para protestarem contra essa lei? Soube, conversando com um manifestante — adoro bater papo —, que o motivo não era o casamento propriamente dito, mas o fato de que, aprovada a lei, o casal homossexual teria, de acordo com o Código Civil Francês, direito a adotar crianças, e os slogans e cartazes eram exatamente neste sentido. Diziam: “Não toquem na maternidade”, ou “Não tem pai verdadeiro, não tem mãe verdadeira” ou “Uma criança, uma mãe, um pai”, e outras besteiras análogas ou semelhantes.

Mas como era domingo à tarde, tinha ido ver mais uma bela exposição, tomara um copo de vinho com dois amigos e era muita a fome, entrei na conhecida brasserie Le Select, em pleno Boulevard Montparnasse, todo tomado, de ponto a ponto, pela tal manifestação.

No simpático e acolhedor Select, exatamente ao meu lado, se encontravam dois jovens, muito bem vestidos, clientes habituais da casa, em companhia de uma menina de cor escura, de uns quatro ou cinco anos, que pela conversa deveria ter sido adotada por um deles, porque o chamava de papa. Eles formavam um discreto casal gay e me impressionou a ternura e o carinho com que tratavam a menina, que se não tivesse sido adotada estaria em um gueto das periferias da cidade e, certamente, quando mais velha, seria violentada, porque estudos realizados na França demonstram que violência sexual contra crianças ocorre principalmente nas periferias; quase sempre o criminoso é o padrasto ou a madrasta; e não são conhecidas denúncias de abusos cometidas contra crianças por casais do mesmo sexo.

O fato real é que, terminado almoço, agasalharam a menina com um belo casaco e saíram de mãos dadas com a criança, cada um de um lado, formando uma verdadeira família.

Não sei se no restaurante se encontrava algum ilustre membro da Assembleia que também tenha ficado tocado por esta demonstração de amor, mas o fato é que a lei foi aprovada e a turma da passeata perdeu um agradável fim de semana, que poderia ter sido muito mais belo, útil e proveitoso.

Mas o que se há de fazer, estávamos em Paris, e Paris sem manifestações deixaria de ser Paris.

 

 

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