CPI

— Cara, tenho um furo de reportagem.  Descobri um deputado importante envolvido com o lobby dos fabricantes de leite em pó.  Coisa grande.  Se vier a público, não escapa de CPI.

— Então a gente dá a notícia e pede logo a CPI.  Sai na frente.  Divulga imediatamente.

— Não tenho muitos detalhes.  Vai ser difícil produzir uma matéria para hoje.

— Escândalo político é tudo igual.  Faz uma pesquisa básica e adapta um texto antigo.  Todo mês sai alguma coisa desse tipo.

— Posso usar algo parecido com o escândalo da exportação de frangos. Olhe aqui um trechinho: “A Empresa X, uma das principais fontes de recursos de impostos do governo, pagou ao senador Fulano, através de sua subsidiária XXX, a quantia de $$$, em depósitos feitos em Hong Kong para a empresa Y, da qual o senador Fulano é sócio majoritário.  Os dados constam de um relatório da empresa Y publicado na China no ano passado.  O senador afirmou ignorar a existência desses pagamentos e acrescentou que o responsável por todo o movimento financeiro é o contador.  Procurado por nossa reportagem, descobrimos que o contador se mudou recentemente para a Coreia.  De acordo com a família, o objetivo da troca de domicílio foi permitir que ele acompanhasse mais de perto os negócios da empresa Y.”

— Vai servir.

— E se o deputado nos processar por calúnia?

— Duvido.  Ameaça, mas não cumpre: tem rabo preso, perde mais do que nós.

— As provas que obtive são circunstanciais.

— Mas ele não sabe e, repito, tem rabo preso.  Quando a notícia sair, vai aparecer muita coisa mais.

— Ele vai negar e eu não posso revelar minha fonte.

— Os políticos sempre negam, faz parte, mas onde há fumaça, há fogo.  Não se preocupe, daqui a pouco todo mundo esquece o assunto e o deputado será o maior interessado em fazer isso acontecer.  O importante agora é arranjar um título que pegue.  Não pode ser a “CPI do Fulano”, está batido.

— Que tal a “CPI do Pó”?  Não é leite em pó?

— Amanhã o jornal vai bombar.

 

 

Um comentário em “CPI

  • 24/06/2012 em 12:00
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    Bem tive uma pesquisa, real, que diz que o pais que mais faz uso de “SUBORNO PARA EMPRESAS” é … CHINA.
    A maior parte dos “BIG BUSINESS” sempre são realizados com LUBRIFICAÇÃO monetária.
    O mundo se move com mecanismos digamos POUCO ORTODOXOS….

    “Os costumes, cuja excelência torna o governo quase inútil e cuja corrupção o torna quase impossível.”
    Charles Tocqueville

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