Coragem e solidão

Um homem se aproximava da casa, lentamente. Vez por outra, o Coronel Juca da Prata, como era conhecido na região, mandava arrear Sansão, um tordilho manga-larga marchador que fazia bonito na região — rotina que o velho Coronel mantinha com o passar dos anos, fato já conhecido por todos. Enquanto Dona Iaiá ia com a filha mais velha à Igreja, o senhor das terras montava em seu cavalo e partia em marcha tranquila, sem destino certo.

Não pretendia com isso fazer pouco caso do Padre Zeca ou desfeitear a mulher. Tinha adquirido esse costume no passado, quando primeiro pisou na região do Baixo São Francisco, com uma mão na frente e outra atrás.
Conseguiu emprego numa fazenda da região e trabalhou duro, de domingo a domingo — durante a semana, na fazenda que o empregara, e aos sábados e domingos participando de rodeios e vaquejadas. Ganhou algum dinheiro com isso e assim conseguiu comprar seu primeiro pedaço de terra; força de vontade e determinação fizeram o resto.

Não se esquecera de Deus, somente se desculpava por não ir à missa. Habituara-se a rezar em separado. No silêncio da madrugada, sentia a presença do Criador enquanto vigiava a boiada. Ali, esperando o dia amanhecer e aguardando um companheiro que o rendesse na função, se deixou ficar em cima da sela. Olhava para o céu estrelado e sentia a presença Dele: no céu estrelado, na lua que iluminava o campo, no gado que descansava na várzea… tudo era Ele!

Com o tempo, ficou rico, mas o costume de ir a missa aos domingos ficou para sempre perdido. O padre insistia, ele não dizia que sim nem que não, mas talvez. Assim, como se tudo estivesse combinado, não ia. Mas fazia questão de ajudar nas obras da paróquia e socorrer os pobres. Ficou, portanto, estabelecido que, enquanto Iaiá ia fazer suas preces na Casa do Senhor, ele saía para visitar seu jardim.

Gostava de perambular sem direção determinada. Sansão marchava alegre e, apesar da idade, carregava o cavaleiro com prazer. O coronel se deixava levar ao acaso. Pegava alguma das inúmeras trilhas que se abriam no pasto, como veias finas em cima da terra, e seguia por uma delas sem se preocupar.

Viu-se assim, de repente, diante da casa do Belmiro, antigo vaqueiro, companheiro dos primeiros tempos, quando a fazenda era só um pedaço pequeno de chão e ele podia pagar pouco a quem o ajudava a cuidar da criação. Tinha um apreço especial por aqueles que o tinham ajudado a fazer fortuna no passado, levando as boiadas para o abate, enfrentando o pó, a distância, o calor e o frio. Patrão e empregados, nessa ocasião, eram bons companheiros. Ia pensando nisso, quando se viu diante da casa simples de um antigo subordinado. Puxou as rédeas; a montaria parou sem esforço.

Sentado diante dele, num banco de madeira, trançando um balaio, Belmiro se concentrava na função e não viu o patrão se aproximar. Só o latido da cadela, que o coronel ainda não havia avistado, chamou sua atenção, e então ele saudou:
— Bom dia, Coronel!

— Bom dia, Belmiro!

— Vamos chegar!

O Coronel sorriu e aceitou o convite. Enquanto descia da sela, ouviu um rosnar e um aviso em seguida:

— Quieta, Cigana! Vai deitar!

A cachorra olhou para o dono e voltou para debaixo do banco, onde estava desde o começo.

— Desculpe, Coronel, mas ela vigia a casa e a família e não faz distinção.

O coronel olhou sem ressentimento para a cadela. Sabia dar valor a um animal que auxiliava na proteção. Aproximou-se do antigo empregado e lhe apertou a mão.

— Maria! Traz uma cadeira para fora que chegou gente importante.

Uma mulher de meia-idade chegou até a porta e, reconhecendo a visita, se achegou, enxugando as mãos no avental que trazia amarrado à cintura.

— Gente, que satisfação! Seja bem-vindo, Coronel!

Apertou a mão da visita e já saiu avisando:

— Só um instante, que vem aí um café que acabei de passar. E ainda tem um bolo de fubá que está acabando de assar.

O velho fazendeiro gostava era disso, o convite simples e sem-cerimônia: isso lhe dava a certeza de que a vida valia a pena. Enquanto os dois homens conversavam, como dois iguais, a manhã corria solta, sem pressa ou necessidade.

Cigana, vendo que o dono não corria perigo, saiu do seu posto e se deitou mais à frente, tomando o sol — que reluz sobre bons e maus — na confiança de estar em paz.

Apesar de ser de porte médio, o pelo branco brilhando ao sol fazia com que ela se destacasse. Na cabeça bem-feita, somente uma orelha marrom parecia destoar num primeiro instante, mas, em seguida, agradava a harmonia da combinação. Os olhos negros e brilhantes, assim como o focinho, denunciavam no animal algo nobre e ao mesmo tempo selvagem. Se não soubesse sua origem, um viajante desprevenido a tomaria por um cão de raça, de rara estirpe. O coronel olhou para a cadela e perguntou a Belmiro o porquê do nome.

“Cigana”, explicou Belmiro ao interlocutor, “possuía uma necessidade natural de liberdade. Por isso, quando, por vezes, se ausentava da casa, ele sabia que um chamado mais forte fora ouvido por ela, que saía para caçar”. No meio da capoeira, a cadela dava vazão a seus instintos mais primitivos. O nome remetia a essa liberdade pura e selvagem. Tendo natureza de cigana, assim o dono a chamava.

O coronel, ouvindo o velho peão, se deliciava com esaas explicações puras que só os homens simples têm. Belmiro tirou do bolso um pedaço de fumo de rolo e ofereceu ao patrão, que aceitou sem se fazer de rogado. Os dois ficaram naquele fazer sem precisão. Acenderam o pito e, enquanto desfrutavam da companhia um do outro, voltaram a conversar:

— Sabe, Coronel, Cigana há muito se tornou da família — a cachorra, escutando seu nome, levantou a cabeça meio de lado, viu que tudo estava como antes, suspirou e tornou a deitá-la ao chão, voltando aos sonhos dos justos. — Digo isso com o coração aberto e vou lhe explicar a razão.

O homem idoso se encostou com gosto na parede da casa do antigo empregado e também com gosto se pôs a escutar.

— O senhor lembra, depois que eu me aposentei da lida e consegui com sua ajuda comprar esta casa, sosseguei o facho. Tinha prometido para Maria que, quando esse dia chegasse, ficaria à toa e isso eu cumpri à risca. Com o dinheirinho que eu guardava… que na verdade ela guardou, pois se dependesse de mim era tudo para o jogo e a bebida… nós conseguimos viver bem. Como eu gostava de caçar nas horas vagas, um amigo me deu esta porqueira — disse, apontando para a cadela. — Veio filhote, e por ser do jeito que, é logo tomei gosto pela bichinha. Além de caçar, a danada tem um senso de responsabilidade natural: vigia a casa como se fosse dela! Conquistou até o coração da Maria, que, o senhor sabe, não gosta de criação.

Belmiro fez uma pausa, levou o cigarro de palha à boca, aspirou e soltou a fumaça, prazeroso. O coronel, apreciando a narrativa, também fumou o seu palheiro. Ouvia atentamente e aguardava o desenrolar da história.

— O senhor se recorda, nós temos uma filha, que se casou com um rapaz que trabalha na farmácia lá na cidade, um moço bom — refletiu e continuou. — Passados alguns anos, quando eu já estava acostumado com esta vida sossegada, não é que a menina teve uma criança? Um menino bonito como ele só! E para amolecer ainda mais o coração de um velho, puseram o nome de Belmiro… — disse, sem disfarçar a satisfação.

— O menino cresceu rápido e vivia aqui em casa. Num dia desses, ele, que já estava com dois anos, dormia num bercinho lá no quarto. Minha filha e o marido tinham ido a um casamento em Santo Antonio e ficou combinado que nós cuidaríamos da criança. No dia seguinte, à tarde, quando voltei da caçada com a Cigana, encontrei a Maria sentada na cozinha, mais branca que a Cigana. Apertava com a mão a barriga, vi que era caso de precisão. Coloquei-a na cama ao lado da criança e mandei a cadela vigiar. Ela entendeu na hora, deitou no chão na frente das duas e ali ficou. Fui correndo atrás do doutor. Selei o burro e parti em disparada. Só que o médico não estava em casa, e enquanto eu o aguardava na maior aflição, a noite chegou depressa. Com ela, apareceu enfim o médico. Já fazia umas seis horas que eu tinha saído, e eu ali na maior aflição. Contei os fatos ao doutor. Ele nem apeou direito do cavalo e me seguiu de volta. Apesar de a casa não ser distante da cidade, eu me preocupava com a Maria e a criança; o que me diminuía a aflição era saber que a Cigana estava com elas. Com esses pensamentos, fomos chegando, e quando avistamos a casa ouvimos um som estranho. Soava como um latido, mas ao mesmo tempo parecia coisa diferente. Na correria de buscar socorro, eu tinha deixado a porta da casa aberta. Quando nós entramos no quarto… eu vi! — Interrompeu o relato com uma pausa prolongada, como fazem os que sabem contar uma história.

— No chão perto do berço … Uma cascavel! Ela tinha entrado sem convite; enrodilhada, armava o bote. Olhando fixamente para ela igual uma louca, saltando de lado e fugindo dos ataques, Cigana latia sem parar. Estava rouca de tanto latir! — explicou o narrador com espanto. — A criança chorava e Maria, sem forças, só rezava e pedia a Deus para ajudar. Eu entrei, peguei a cartucheira de caça que fica em cima da porta, e atirei naquele trem. Morreu na hora a maldita! Abracei a mulher e peguei o Miro no colo. Cigana veio para perto do bicho, se abaixou, latiu mais umas duas vezes e, então, deitou ao lado do berço. Tremia tanto, que eu achei que ia morrer! Passei a mão em sua cabeça. Ela me olhou, querendo dizer que tinha feito o melhor que pudera. Seu pelo estava molhado pelo esforço. O doutor começou a cuidar da Maria. Depois que o menino dormiu, peguei o monstro pelo rabo e fui jogar fora. Era cobra velha, contei mais de dez anéis no rabo! — ressaltou Belmiro. — Mesmo cansada, Cigana ainda veio atrás para certificar se não tinha mais perigo.

Falou isso e encerrou a narrativa. O dia já tinha corrido; era hora do almoço, o coronel suspirou e levantou-se devagar, esticando as costas.

— É! — pronunciou, como se tivesse dito tudo, algo pensativo. Colocou o chapéu na cabeça e se despediu do amigo.

Apertaram as mãos. O homem idoso subiu devagar e com certa dificuldade no cavalo, apoiando a mão esquerda na cabeça da sela. Agradeceu o café. Maria, com as mãos para trás, encostada na porta da entrada, escutara, silenciosa, o que tinha vivido, e levantou a mão com apreço.

O Coronel, antes de partir, deu uma olhada para o lado. Cigana se mantinha imóvel; aproveitando os últimos raios de sol, dormia pacífica. O visitante virou-se para Belmiro e disse:

— Deus conserve!

Esporeou o cavalo e partiu como tinha chegado.

 

 

 

8 comentários em “Coragem e solidão

  • 16/03/2012 em 18:51
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    Não há alegria maior do que reencontrar um velho amigo e vê-lo emocionar, com o encantamento das palavras, outras pessoas, outros leitores, senhores de outras vivências. A boa literatura tem o dom de aproximar pessoas e Gustavo é uma sólida ponte que nos conduz a este prazeroso caminho. Torno-me um leitor cativo deste espaço. Um afetuoso abraço!

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    • 20/03/2012 em 22:58
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      Obrigado Tarcizio!
      O desejo de todo aquele que escreve, é depoder transmitir suas emoções e visão de mundo.
      É uma satisfação te-lo em minha companhia.
      Um grande abraço,
      Gustavo.

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  • 14/03/2012 em 17:38
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    A fidelidade e coragem destes pequenos é emocionante ! Muito bacana….

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  • 14/03/2012 em 14:24
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    Realmente, Deus te conserve assim…escritor de mao cheia…emocionante narrativa…

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