Conto de Natal: a vela e o fósforo

match— Por que estais a olhar para a janela com tão melancólico vestir de face? — perguntou o fósforo para a vela.

— Observo a noite que vai lá fora — respondeu, com vagar e acabrunhada.

O fósforo olhou através da vidraça e disse:

— Lá só há o breu e nada dá para ver. Tu estais a me enganar. No que estais a pensar? — como todo curioso, era ele também um desconfiado.

— Não há logro, o que há é tristeza — as lágrimas da vela desciam silenciosas.

— Mas que tristeza? Aqui estamos esperando a ceia de Natal e tu dás ao ambiente um pouco de luz… que aquece os corações — disse o fósforo, tentando animá-la.

A chama deitava tênue luz sobre os cristais magnificamente dispostos sobre a mesa.

— É triste ver que a luz da humanidade foi esquecida, e tanto brilha que até um cego pode vê-la… só o homem faz por onde esquecê-la. É a estrela no firmamento que todos os olhos querem olhar, mas as vistas se viram para ver o breu e deixam a luz passar, como se fora despercebida — suspirou. — E nós, o que podemos fazer?

O fósforo sorriu e disse:

— Tem dó de ti mesma se assim desejas, no entanto, o que vejo é muito diferente. Vejo um ser dulcíssimo a doar-se ao próximo… dando de si tudo que pode. Uma lembrança da passagem do Mestre, que foi uma vela à sua maneira — olhou o lado de fora e continuou: — Lembre-se de que todos temos um fim aqui… e não é o nada, mas sim o transformar-se. Assim, voltaremos a servir de outra forma, num ciclo sem fim. E que outro objetivo é melhor que o eterno servir, que nos devolve em dobro, com pura satisfação, o ato de doação?

A vela o observava, com chama renovada, quando, de repente, a porta se abriu e os convidados entraram, incluindo um vento que a apagou.

O fósforo queimou rápido e a vela voltou a brilhar. Olhou o amigo apagado ali e reteve a grande benesse que ele lhe tinha dado, sem perguntar, sem pedir ou reclamar, e teve a certeza de que a vida é renovar. E no ar, a alegria de servir.

 

Nota da Editora: O livro de Edegerdo, Algo para pensar, é o livro mais vendido na estreia da Kindle Store Brasil.

 

 

Edegerdo Hardt Junior

Edegerdo Hardt Junior nasceu em Jacareí, São Paulo, em 1974. Aos três anos foi morar em Taubaté, cidade onde vive até hoje. Descobriu o maravilhoso mundo da leitura com a mãe; no colégio descobriu a vontade latente de escrever, a que deu vazão por intermédio da poesia. Formado em advocacia, atuou profissionalmente em Taubaté por sete anos. Em 2010, com o falecimento de seu avô materno aos 100 anos de idade, ainda jornalista ativo, voltou a praticar outros gêneros de escrita que não o jurídico. Seu livro de estreia, Algo para pensar: uma aventura diária, será publicado em breve pela KBR.

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