Conto da meia-noite

Noite adentro, morro abaixo, o vento batia na crina do esgoto a céu aberto, empesteando o ar. Um cão latiu ao longe.

Rua acima, terminado o calçamento, um homem adentrou numa trilha ladeada de mato. Na mão direita, uma marmita, provavelmente vazia, enrolada num pano de prato ensebado, dentro de uma sacola de supermercado. Na boca, um gosto de raiva, outro dia amargo, daqueles, vigiando patrimônio de banqueiro. Com crise ou sem crise, os putos sempre ganham.

Matutando sobre a própria sorte, o homem caminhava. Traçava planos mirabolantes; a solidão faz essas coisas com a gente.

Tatiana…

Que vontade de dar uma trepada! Metera com ela duas vezes. Foi bom. Branca, coxas roliças, buceta quente, por que será que toda puta só escolhe nome bacana? Ainda estava longe o dia do pagamento, quando, pelo menos por alguns dias, teria grana para uma cerveja e um tira-gosto: mulher gosta de um agrado antes de dar pra gente.

Como naquele dia estivesse duro, chegando em casa iria bater uma bronha. Dizem que na China existem 40 milhões de homens, entre 18 e 24 anos, vivendo de punheta, empregados de uma indústria de sabonetes que exporta para o mundo inteiro.

Passaria outra noite no moquifo escuro, infestado de pernilongos, o pau como que em brasas estalando na barriga esfomeada. Lembrou-se da mãe. Dos cinco filhos, quatro tinham morrido no tráfico. “Se a mãe me visse agora, empregado, ela teria orgulho de mim…, mesmo eu sendo um fodido.”

Teve vontade de urinar. Parou. Achegou-se numa moita e desabotoou a braguilha. Distraído, olhava as estrelas, enquanto pensava em Tatiana, bunda avantajada, gorda, a pele branca como leite. Nem percebeu que um estranho surgia às suas costas, de repente:

— E aí?

O que urinava tomou um susto, e por instinto estancou o esguicho, recolhendo o pênis. A escuridão impediu que o recém-chegado percebesse o medo em sua cara.

— Ôoopa! — respondeu, depois de alguns segundos de indecisão.

Não dava pra ver a cara do elemento, apenas que o outro vestia camisa de malha preta, jaqueta de couro, calça jeans surrada. Ele pode estar armado, melhor ficar ligado — pensou.

— Eu o vi se aproximando, então resolvi te esperar. Tenho medo de passar pela mata sozinho. Ah, não se incomode, pode continuar…

Desconcertado, voltou a urinar, atento aos movimentos do estranho.

— Eu também tenho medo — respondeu o trabalhador, mudando de assunto. — Só passo aqui de vez em quando — falou, medindo o intruso.

— Posso te fazer companhia?

— Ok — disse, virando as costas, a bexiga doendo por causa da brusca interrupção. (Tem horas que a necessidade fisiológica é maior do que o medo).

Voltou a urinar. Findo o serviço, o trabalhador, aliviado, pegou a sacola com a marmita e retomou seu caminho. O sujeito pôs-se a segui-lo, bem ao lado.

— É a segunda vez que uso esse atalho — confidenciou-lhe o estranho.

O capim balançava ao vento. Lá embaixo, as luzes da cidade, aos poucos, diminuíam de tamanho, quanto mais os dois homens subiam o morro.

Mais à frente, próximo a uma enorme caixa d’água abandonada, a trilha se estreitava. Depois da caixa de concreto, descendo um morrinho, havia um tronco estendido sobre um filete de água podre. Ao atravessar a pinguela, o sujeito agarrou-se à camisa do trabalhador, e falou, com voz esgarçada:

— Me segura!

Puta que pariu, será que esse cara é viado? — pensou, enquanto com a mão direita auxiliava o outro.

— Obrigado.

Vencido o obstáculo, os dois retomaram a trilha, já do outro lado.

— Se você não me segura, eu tava na merda — disse o estranho, soltando uma gargalhada.

Sem proferir resposta, o trabalhador apertou o passo, como a querer distância do estranho.

— Hei, me espera!

— Olha, mano, estou louco pra chegar em casa. Se você não andar depressa, vou te deixar pra trás.

— Peraí, irmão, o que há com você?

O trabalhador não deu ouvidos, continuou caminhando. Com passos largos, o outro avançou, tomando a dianteira.

— Ei, não precisa correr, eu só quero aproveitar sua companhia.

— Tá certo.

Tump, tump, tump, tump, faziam os sapatos dos dois na terra úmida. O caminho era estreito, pontilhado de enormes e traiçoeiros pelotos de bosta, camisinhas usadas e tocos de cigarro deixados pelos maconheiros que subiam o morro de motocicleta e ficavam ali horas e horas, rindo feito débeis mentais, acocorados no meio do mato ou dentro das manilhas, fumando e trepando. Mas hoje não havia ninguém.

— Você conhece o Cara de Cavalo? — perguntou o estranho.

— Conheço.

— Ele me mandou te procurar.

O trabalhador estacou. Sem tirar os olhos do outro, a meio metro de distância, perguntou:

— O que ele quer comigo?

— Tem uma parada pra te oferecer.

O estranho, tirando um cigarro do bolso, acendeu o isqueiro, queimou a ponta do Derby, soltou uma longa tragada e continuou:

— Servicinho maneiro, coisa mole.

— Tipo o quê?

— Tipo assaltar um banco — disse o outro.

— Muito obrigado. Estou empregado.

— Ganhando salário mínimo. Deixa de ser otário. É grana fácil. Você só precisa abrir o portão, finge que vai olhar alguma coisa…

— Qualé, mano! Por mim vocês podem assaltar aquela porra de banco à vontade. Pelo que eles me pagam, não tô nem aí, não vou reagir, mas também não vou me meter em encrenca!

— Você conhece o esquema. O Cara está contando com sua colaboração — disse o estranho, soltando um tubo de fumaça pelas narinas.

— Tô fora!

— Nós só precisamos da escala, quem entra, quem sai, a que horas chegam os malotes, como se desativam os alarmes, essas coisas. O resto é com a gente.

— Já disse que não! — e deu as costas para o sujeito, pondo-se em movimento. Mas o outro o agarrou pelo braço, e com um solavanco jogou a marmita do trabalhador no
chão.

Abaixou-se para pegar a sacola, e ao voltar o rosto deu de cara com o “três oitão”. As
pernas lhe faltaram, olhos congelados no cano frio da arma que lhe roçava a face direita. Sem reação (ele sabia o estrago que o ferro podia fazer em sua cara), levantou-se devagar, com as mãos para cima, atento, sentindo-se mais vivo do que nunca, ainda que estivesse se movendo em câmara lenta.

— Ou você tá dentro, ou morre.

Cinco segundos de indecisão, às vezes, é a fronteira entre a vida e a morte.

Quem morre não escuta a própria morte, escuta a sinfonia do mundo. O corpo, como num labirinto negro, em espiral, suga para dentro da mente o estampido do cão do revólver batendo na espoleta, o choro de uma criança, o esfregar das pernas de um grilo, buzinas, palmas, apitos, um palavrão proferido na casa mais próxima, pneus derrapando na avenida, sirene de ambulância, o marulho do esgoto na manilha, tudo é tragado para dentro, até o último batimento cardíaco. No momento em que a vida se esvai, nunca se esteve tão vivo.

Na madrugada fria de domingo, ninguém ouviu dois estampidos, seguidos de um breve grito abafado pelo vento que batia no colonião.

No outro dia, nos jornais matutinos, não se leu única linha acerca de um homem, altura 1,72m, uniforme com logotipo da empresa SETA Vigilância, trajando camisa creme, calça marrom, calçado com botinas, de pele morena, cabelos crespos, nariz largo, lábios grossos, olhos castanhos, provavelmente vítima de assalto, já que não portava carteira, documentos, tampouco dinheiro, a cabeça estourada por duas perfurações de bala, sendo que um dos projéteis vazou o olho direito e o outro resvalou na têmpora, cujo corpo, encontrado no Morro do Cachorro Sentado, aguarda há cinco dias no IML o reconhecimento da parte de algum parente. Caso contrário, o cadáver será sepultado como indigente.

Nota: Segundo estudos feitos pelo economista Daniel Cerqueira, do IPEA, mais de 3 mil mortes não teriam sido registradas pelo Instituto de Segurança Pública do RJ entre 2006 e 2009. Fica a pergunta: seria a nossa polícia incompetente, burra ou manipuladora?

 

 

2 comentários em “Conto da meia-noite

  • 21/11/2011 em 19:23
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    Caetano, faltam-me recursos para ir mais longe, conheço muito pouco ou quase nada do submundo carioca, e acredito que o que passa nos telejornais não atinja 10% do mundo cão. É bom lembrar que temos um país com alta concentração de renda, a Rocinha foi libertada, mas não modificou-se uma vírgula em nossa estrutura social, ainda temos 10% dos mais ricos com 80% da grana…

    Não conheço o cara que matou o trabalhador, aliás, não conheço sequer o anônimo que morreu e não entrou na estatística…

    Finalmente, quem tem talento pra vender esse tipo de história é o Ruben Fonseca. Mas o final está em aberto…

    Salve,

    Carlos

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  • 21/11/2011 em 13:44
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    muito bom carlos! desenvolve isso! como o trabalhador já morreu mesmo, conta a história do assassino… como vive, de onde vem, como chegou ali, o que rolou depois… temos de perguntar a noga se isso vende, quem sabe? eu gostei!

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