Consumindo políticos

— Mas, pai! Como vou saber se está boa? — o filho pergunta, apontando para uma fruta.

— Primeiro, você segura a fruta e dá uma apertadinha de leve. Se estiver muito rígida, é porque está verde, se estiver mole é que está muito madura. Nesses dois casos, não compre, mas se ela estiver no ponto, deve estar docinha e boa para o consumo — respondeu o pai.

Ao observar o pequeno com o rostinho atônito, percebeu que sua explicação seria mais bem apreendida se ele pudesse vê-lo realizar o procedimento. Tomou uma fruta e mostrou ao filho como apalpá-la.

— Viu, filho? Esta aqui está ótima.

A visita ao hipermercado continuou, e não demorou muito o pequeno voltou a perguntar.

— Pai! Posso apertar o sucrilhos?

— Pra quê? — respondeu o pai, sem prestar muita atenção.

— Eu queria uma caixa de sucrilhos, e de preferência, doces.

O pai sorriu e disse:

— Filho! Cada produto tem uma forma adequada para a gente verificar se está bom. Os que vêm em caixas, latas e vidros têm a data de validade anotada do lado de fora para que se possa ver. — e pegou uma caixa de sucrilhos mostrando ao filho onde localizar a data.

O pai seguiu com o garoto e foi informando as mais variadas formas de se verificar se um produto estava bom para o consumo: mostrou os peixes e como observar a coloração; frutas diferentes, que não se apalpava, mas nas quais se observava a cor, o aroma e outras peculiaridades.

Ao saírem do hipermercado o menino estava radiante com o tanto de conhecimento que o pai tinha, quando o viu pegar um folheto que estava no para-brisa do carro. O pai fez cara de descontente e jogou o panfleto no lixo. Nos dias que se seguiram, o menino observava o pai sem que este o percebesse.

No final de semana o pai foi ao colégio que ficava perto de casa e o menino foi junto. O pai estava apreensivo, e chegando ao local entrou numa fila que foi crescendo até que abriram o portão e puderam entrar.

O menino via no rosto do pai a desolação. E durante o tempo que ficaram à espera, numa outra fila que dava acesso a uma sala do colégio, ouviu o pai e outros adultos conversando sobre a desesperança do que iam fazer: resumiam o ato de votar a atirar uma pedra no vazio, pois achavam que não tinha candidato bom.

O menino perguntou ao pai por que então fariam o tal de voto, ao que o pai informou que todos os eleitores eram obrigados a votar. O menino não se deu por vencido e disse que era fácil escolher, bastava ele usar as técnicas que lhe ensinara no hipermercado. O pai olhou o filho e disse:

— Se fosse tão fácil…

O pequeno deu um sorriso e disse:

— Mas é claro que é fácil. O senhor dá uma apertada no tal candidato, se ele estiver muito rígido é que está verde, se estiver muito mole é que está maduro demais, se estiver no ponto certo o senhor o leva. No caso de o tal candidato estar numa caixa e não der para ver a cor do produto, ou o cheiro, é só dar uma olhada na validade, que deve estar gravada nele. Daí, é só ver se vai até o dia que o senhor vai consumi-lo.

O pai deu uma risada gostosa e disse:

— Não se pode consumir um político.

— Aí é que o senhor se engana, papai! — e o sorriso do pequeno passava um ar de satisfação. — Vi os panfletos e percebi que o político só se realiza, ou passa a ser político de verdade, se o eleitor vota nele. E tudo que um político deseja é ser consumido, digo, eleito, por isso é que eles dizem o que vão fazer. Não tema, papai! O senhor me ensinou que se o produto está estragado, é só reclamar e pedir para trocar!

— Obrigado, filho! — o pai deu um abraço forte no menino e o observando, tão pequeno e tão perspicaz, pensou: Realmente… se o produto estiver estragado é só reclamar e pedir para trocar. Reclamar antes da compra não ajuda em nada. Tenho é que escolher bem… vamos à apalpadela!

 

 

Edegerdo Hardt Junior

Edegerdo Hardt Junior nasceu em Jacareí, São Paulo, em 1974. Aos três anos foi morar em Taubaté, cidade onde vive até hoje. Descobriu o maravilhoso mundo da leitura com a mãe; no colégio descobriu a vontade latente de escrever, a que deu vazão por intermédio da poesia. Formado em advocacia, atuou profissionalmente em Taubaté por sete anos. Em 2010, com o falecimento de seu avô materno aos 100 anos de idade, ainda jornalista ativo, voltou a praticar outros gêneros de escrita que não o jurídico. Seu livro de estreia, Algo para pensar: uma aventura diária, será publicado em breve pela KBR.

4 comentários em “Consumindo políticos

  • 04/09/2012 em 20:08
    Permalink

    Pode ser… porém Numa certa “republiqueta” de AL… Um ditador quis se tornar democrático. Para ganhar o povo, diz em cadeia Nacional – Vou Dar a opção de escolher… Como bom democrata que sou… Os prisioneiros… – Sobe no pódio – A escolha é de vocês… Podem morrer afogados, enforcados os fuzilados!
    Não existe democracia, quando não temos escolhas à altura!

    Resposta
    • 05/09/2012 em 09:18
      Permalink

      Mesmo ao morrer há algo a se aprender! Principalmente como e por qual motivo.

      Resposta
  • 04/09/2012 em 10:29
    Permalink

    Ótimo texto Ed. Gostei bastante. Muito oportuno!

    Resposta
    • 04/09/2012 em 14:07
      Permalink

      É um prazer poder tê-lo como leitor. Obrigado.

      Resposta

Deixe você também o seu comentário