Confesso: sou “Livro-Traficante”

Dia de sol, perfeito. Acordei feliz: minha novela “Gangue” está no final do processo de publicação. Fiquei pensando como fazer uma boa promoção inicial. Pesquisei no diretório de amigos pelo mundo: Portugal, Espanha, Itália, Colômbia, Estados Unidos da America e por aí vai. Mandei uma mala direta para eles falando sobre o livro e pedindo que me ajudassem na publicidade, amigos são para essas coisas.

Uma amiga que mora em El Paso, Texas, me escreveu um email num tom alarmante. Vejam uma parte dele, a menos íntima (fz uma tradução).

Dear Manuel: Que bom saber de teu livro “Gang”, deve ser uma leitura interessante, porém acredito que por estas terras, com este nome e sendo escrito por um ‘latino’, entrarias na lista negra. Aqui está feia a situação, tiraram os livros de escritores que falem alguma coisa sobre nossa raça, política, artes, historia e até religião. Sinto muito. Abraços.

Fiquei passado. Olhei meu calendário: 2012. Não estamos em 1933, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, na queima de livros do Terceiro Reich. Deve ser uma piada dela, respondo, com dúvida e sátira.

Apreciada Paty: Não tem problema, vou enviá-los de forma secreta, e distribuir, tipo cocaína, para alienar as mentes das massas. A propósito, conhece alguém que possa ajudar?

Após algum tempo, ela responde.

Sempre gostei de você por ser rebelde e lutar pelas causas justas. Sim, conheço alguém: Tony Dias, ele está traficando livros por todo Arizona…

Nessa parte da historia fiquei preocupado mesmo. De duas, uma: ou ela está drogada ou eu. Ela não mora Alemanha na década de 1930, e sim no país mais democrático do planeta: Estados Unidos da America do Norte. Lá fica Hollywood, que por anos tem produzido os melhores filmes e documentários sobre liberdade de expressão. Decidi terminar com a brincadeira.

Querida Paty: Você venceu! Quase me convenceu que estão passando por uma censura cultural nas terras do norte. Vou te mandar uma cópia da novela para você fazer teu comercial, abraço, Mano.”

Em poucos minutos chegou uma bomba.

“Mano. É tudo verdade! Estamos, sim, sendo censurados. Anexo link com um artigo e vídeos sobre o estado das coisas aqui. Abraço, Paty.”

Caracoles, Batman!

Ao ler alguns trechos, fiquei com um frio na espinha.

Oficiamente, los administradores anunciaron que siete libros habían sido quitados durante la jornada escolar, empaquetados y puestos en un depósito por un período indefinido. Libros como la Pedagogía del Oprimido de Paulo Freire y Critical Race Theory de Richard Delgado fueron “confiscados”. Sin embargo, con la eliminación del programa, más de cincuenta libros de éste fueron prohibidos a maestros y estudiantes. Entre ellos, títulos de escritores latinos y chicanos como Sandra Cisneros, Junot Díaz y Carmen Tafolla. Incluso textos de escritores no latinos, como Shakespeare, Thoreau y Howard Zinn no podían ser enseñados o referidos en el contexto racial o de la historia mexicano-americana.
Los estudiantes contaron que los libros les fueron quitados de las manos durante la clase y relacionaron la experiencia con la Alemania nazi. Algunos dijeron haber tenido pesadillas, otros no podían dormir. En la Chaolla High School, más de un centenar realizaron una marcha hasta la sede de TUSD, a cinco millas, en reclamo e respuestas. El supervisor de los Estudios Étnicos, Dra. Lupita Garcia, replicó: “Este país es Norteamérica. Si vivieran en México… estudiarían historia mexicana”.*

Quase caí de costas ao ler esse comentário. Postei no grupo de escritores latinos (tirei o nome do autor por motivos óbvios):

Este tipo de cosas ocurren también en Puerto Rico, al intentar imitar ciertos aspecto de los estados republicanos de EEUU por ejemplo sacaron de las escuelas novelas que pudieran tener algún contenido sexual. Han intentado sacar novelas como La Guaracha del Macho Camacho de Luis Rafael Sanchez (recomiendo a este autor a todo el mundo) por contenidos similares. Esto a mi parecer es el intento por mantener una sociedad moldeada al ideal del estado y no al aprendizaje. Solo hay que leer los libros de historia estadounidenses de autores conservadores para ver lo corto de mente que son, ya que ellos se atribuyen rasgos casi milagrosos en los eventos.

Uma política de censura a nível global! Caracoles, Batman! PQP!

Well, I’ll end here. I’m afraid the censors will knock on my door, they may discover that I am a Livro-Traficante!

 

*Fonte: ARIZONA_USA _ CENSURA_LIVROS _LATINOS

 

 

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