Computação em nuvens com requeijão de rapa

Luzmarina é adventista e crê nas pragas que Deus mandou para o Egito, espera as nuvens de gafanhotos que flagelarão os pecados deliciosos da humanidade. Clodoaldo, porteiro nos Jardins, xinga as nuvens de poeira que infestam os DVDs do Calipso em seu cafofo na periferia sul. O deputado Arnaldo Macaxeira despreza as imagens do satélite que antecipam para uma só tarde as aguaceiras de um mês inteiro e que despencarão em sua querida Perobas: só interessam ao congressista as nuvens de gostosura da apresentadora da previsão do tempo. Cada um se vira com seus cúmulos-nimbos. E todos queremos viver nas nuvens.

As nuvens sibilam para os humanos a fofura da vastidão, algodoam o desejo de pairar sobre todas as correntezas — o sonho insidioso de mudar de forma ao sabor dos ventos. Quando as nuvens ficam gris, esperamos o carinho de uma garoazinha; quando ameaçam negrumes, tememos tempestades que engarrafarão o happy hour; mas há algo estranho nas nuvens do agora. Na TV, a moça aponta o dedo para nuvens que não chovem água: elas chovem informação.

Enquanto comia bolo de fubá com requeijão de rapa, fui apresentado à Cloud Computing, a computação em nuvem, armazenamento de dados fora do computador pessoal. Já não é necessário guardar informações em seu HD: gente como a gente e empresas transnacionais podem estocar zilhões de dados em um “provedor de nuvem”, também chamado “datacenter”. Empresas desse tipo já operam no Brasil; ficam em prédios mais protegidos que Camp David e ocupam andares com filas de computadores do tamanho de geladeiras.

Assim, se o Dr. Karl Heinz colher rãs escarlates com cuspe alucinógeno num igarapé amazônico, poderá sacar de seu notebook para dar uma conferida no catálogo de répteis garimpados ao longo da carreira. Se o computador do nosso cientista cair e for engolido por um peixe-boi, sem problema: toda a ciência do doutor estará aninhada dentro da nuvem.

Com segurança? Já aconteceu de um datacenter sofrer apagão: o provedor de uma gigante da internet ficou fora do ar por oito horas, milhares de usuários tiveram seus dados evaporados. Ouvi falar que as nuvens mais responsáveis fazem cópias de segurança dos arquivos dos clientes e nunca se esquecem de fazer atualizações nos antivírus. Há nuvens com equipes especializadas em salvaguardas para hackers e algumas que interagem com outras, a chamada “computação no céu” — uma benção, mas diversas empresas enxergam a segurança do sistema como um cofre de porquinho. Só os deslumbrados não perceberiam o perigo do roubo de dados.

Pois é, meu Deus. Se eu conseguir esvaziar meu depósito de pecados, vou topar com um computador no céu. De lascar. Aqui na Terra, a tecnologia não para de trazer facilidades, maravilhas que já não causam deslumbramentos ao digitalizar milagres entre o café e o aviso para não fumar.

A virtualidade vai contaminar todo o planeta. Os computadores serão vendidos a preços populares, pois tudo o que pesa e encarece a máquina ficará a cargo da nuvem. E as brigas de foice já conflagraram: Microsoft e Google disputam quem vai dominar os softwares de virtualização da máquina.

E vamos continuar gerando filhos trágicos que não se conduzem por aspirações coletivas, crias solitárias que não suportam a escola e cujo narcisismo mora no Facebook, atores tristes que nunca lerão Guimarães Rosa — porque a vida é um computador em nuvem que pode ser sacaneado por um hacker com cabelinho Neymar e camiseta da Miley Cyrus.

Me pego a limpar as unhas com canivete, preocupado com o motor do meu Fusca amarelo; e ando morrendo de vontade de comprar uma Vespa. Eu passearia nela pelas manhãs de sábado. Olhando as nuvens.

 

 

 

3 comentários em “Computação em nuvens com requeijão de rapa

  • 27/04/2012 em 00:52
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    Já que tanto se falou sobre nuvens, porque não Nuvem de Pó meu tão amado ( por mim mesma) livro. Ele também já está na Nuvem.

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    • 27/04/2012 em 09:42
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      Sucesso ao seu livro, Priscila! Que ele chova sobre muita gente!

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