Começando pelo Final Feliz

Quando aprendi a ler, minha primeira leitura foi Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, livro que tenho até hoje. Na sequência, devo ter lido uns tantos livros, mas o real prazer da leitura veio com os protagonizados por Dr. Watson e Sherlock Holmes. Era delicioso me deixar levar pelo encantamento de Dr. Watson diante da fantástica capacidade de pensar de Sherlock, além de poder conhecer detalhes interessantes da Londres da rainha Vitória. O tempo foi passando e eu me tornando uma addict em literatura policial, em enigmas bem montados. Verdadeiras equações matemáticas!

Como em todos os gêneros, no policial também há livros ótimos, maus, bons e regulares. Há também os que a gente gosta ou não, independente do que diz a crítica. É preciso ir lendo e formando uma biblioteca dos que valem uma releitura. Nas “crises de abstinência”, é importantíssimo ter algo de boa qualidade bem à mão!

A literatura policial não trabalha com grandes questões filosóficas, mas com a vida no seu dia a dia, a morte como parte da vida. A característica marcante dos detetives é sua capacidade de observação das minúcias, despercebidas aos olhos das pessoas comuns. É através dessas pequenas pistas perdidas no cotidiano que o detetive chega ao criminoso e aponta o culpado, fazendo com que o bem vença o mal. Ou seja, que o livro tenha um final feliz!

Da mesma forma que nos romances de amor o mocinho tem que acabar se casando com a mocinha, no romance policial o leitor precisa saber quem matou, de alguma forma ver que houve uma punição. Coisa que não acontece na vida real, especialmente na nossa política. Na ficção, o leitor de romances policiais exige um final feliz!

Quando criei o detetive Alyrio Cobra, busquei a origem desse gênero literário. Se pensarmos em crime e mistério, podemos afirmar que são dos enredos usados desde sempre, tanto na vida real como na literatura. No Gênesis e nas tragédias gregas encontramos muitos crimes. Segundo a Bíblia, a vida na terra, fora do Paraíso, começa com Caim matando Abel! Ou seja, com um crime! No caso, não foi necessário um detetive. Deus tudo via, não precisou de nenhuma artimanha para apontar o assassino.

Desde o registro desse primeiro crime, foram necessários muitos séculos de História e Civilização para se criar o primeiro detetive! E o primeiro homem genial, capaz de detectar as marcas deixadas por um criminoso foi o detetive Auguste Dupin, criação de Edgar Allan Poe. Na árvore genealógica da literatura policial, Allan Poe é o tronco principal, o grande precursor. Quando publicou Os Crimes da Rua Morgue, e em seguida O Mistério de Marie Roget e A Carta Roubada, deu início a uma das mais fantásticas fórmulas literárias de todos os tempos — crime, investigação e solução, que vem se repetindo até nossos dias com estrondoso sucesso.

O detetive é uma máquina de pensar que a partir de vestígios, pistas e indícios, consegue, através de uma dedução lógica rigorosa, reconstruir toda a história da criatura que praticou o crime. Para engendrar essa figura, Allan Poe teve que incorporar muito bem o espírito da época em que viveu.

Vamos dar uma olhada por lá! Em meados do século XVIII, quando o detetive Auguste Dupin estava sendo elaborado, a revolução industrial, com seus motores movidos a vapor e suas locomotivas, trazia mudanças bastante significativas ao mundo civilizado. Uma delas foi o surgimento das grandes cidades. Também foi uma época em que os ricos ficaram mais ricos; e nas cidades, se juntavam os pobres que ficavam mais pobres. Surgia a miséria. Na literatura, o gênero era o gótico — que se alimentava do cenário arquitetônico das cidades, especialmente os becos sujos, povoados de pessoas miseráveis, vivendo de restos de lixo. O gótico alimentava-se também do sobrenatural nos monastérios e igrejas, com sua arquitetura fantástica que incitava aparições. Era nessa atmosfera que se ambientavam as histórias de horror, de crimes misteriosos, onde muitas vezes intervinham forças misteriosas. Foi a partir desses cenários que se criaram a novela de terror, a de ficção científica e a policial.

Com o surgimento das grandes cidades, e da consequente concentração de população, apareceu a ideia de anonimato — situação muito propícia ao crime e ao criminoso, que já não era um elemento conhecido em sua comunidade, mas um anônimo. Acreditava poder cometer o delito e facilmente se perder na multidão. Por outro lado, o aparecimento desse homem que praticava delitos fez com que a polícia começasse a se organizar de forma sistemática.

O romance policial, com seu detetive, precisou de mais alguns truques! Por estar escrevendo uma crônica, não vou me alongar. Se você ficou curioso, leia na próxima semana a continuação!

 

 

Um comentário em “Começando pelo Final Feliz

  • 26/07/2011 em 15:21
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    Oi Vera.
    Como pude constatar temos um montão de coisas em comum. Começamos na literatura e seguimos os mesmos caminhos. Monteiro Lobato foi o começo, depois Sherlock Holmes, sem falar em Ágatha Christie. Eu lia a coleção de cabo a rabo. Minha mãe começou e eu terminei com todos os livros de O mundo da Criança.
    Sua crônica me deixou curiosa, vou ler a da semana que vem. Não perca a minha, também vai se identificar.

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