Com um pé na Chapada

Ernest Hemingway, antes de partir a cabeça com um tiro de espingarda, escreveu, em O Sol também se levanta: “Não importa o lugar para onde viajamos. Não podemos sair de dentro de nós mesmos.”

Então, só conseguimos enxergar no lado de fora o que trazemos em nossa bagagem interior. De certa forma, contrariando Hemingway, a paisagem é importante; o casario, os povos e os locais diferentes funcionariam como ganchos para a memória, interruptores mentais.

Viajar é recordar, resgatar conexões, lembranças soterradas no inconsciente coletivo, posto que a mente seria incapaz de reconhecer lugares onde nunca estivemos em espírito.

Dez dias na Chapada Diamantina, tendo como base a cidade de Lençóis, na Bahia, serviram-me para revisitar antigas sensações: a liberdade dos amplos espaços (acima
da cabeça somente o sol e o verde das montanhas); o deleite visual que é mirar o horizonte sem travas nos olhos; o contentar-se com pouco (diante da necessidade de termos que carregar a própria comida em longas caminhadas); o cheiro de mato; o prazer de beber água da fonte, o gostoso que é refrescar o corpo nu em riachos e cachoeiras, o gesto lúdico de abrir porteiras; e, à noite, sem o incômodo das luzes da cidade, longe do barulho da tevê, poder admirar as estrelas brilhando na imensidão, sentindo-se o mais pequenino dos homens — sensações esquecidas na infância, quando eu e meus irmãos subíamos serras, leves e livres, em direção à casa de nossos avós maternos.

Se a mão foi feita para pecar, os pés foram feitos para andar. A Bíblia não teria sido escrita se Jesus e seus discípulos tivessem percorrido a Galileia de ônibus ou de carro. Não fosse o automóvel, esse monstro de aço, poluidor da atmosfera, expressão máxima do egoísmo em matéria de transporte, Jack Kerouac jamais teria escrito On The Road. É incrível quão longe podemos ir dando um passo atrás do outro.

Continua…

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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