Com o pé na Chapada II

Cada tempo tem sua viagem, cada viagem seu instrumento. Se o Homem de Nazaré pregou pelos desertos calçando sandálias de couro, e Kerouac cruzou a Rota 66 com o pé na tábua, em se tratando de Chapada Diamantina a melhor maneira de conhecê-la é através da Viação Canela, usando de preferência um bom par de tênis. Já dizia Lao Tsé: uma longa caminhada começa com o primeiro passo.

20 de setembro de 2011, terça-feira.  Às 10:50 da manhã partimos de Belo Horizonte com destino a Salvador, ao final de uma hora e meia de voo. De Salvador até Lençóis, 400 km de distância, gastamos seis horas de ônibus. Aproximava-se a marca das vinte e três horas quando eu e meus dois irmãos, Nilson e Elias, arriamos as bagagens na Pousada Casa de Hélia, em Lençóis, portal da Chapada Diamantina.

21 de setembro de 2011, quarta-feira. Depois de um farto café da manhã, rodamos pelo miolo da simpática e sonolenta cidade. Com cerca de dez mil habitantes, ruas encantadoras e limpas, reconhecida como Patrimônio Histórico Nacional desde 1973, Lençóis possui belos casarões erguidos no auge da exploração de diamantes. Após a proibição do garimpo, em fins da década de 1980, o turismo salvou a cidade da decadência. Em uma ruazinha transversal, conhecemos Luiz Barba, jornalista aposentado, sessentão, originário de São José do Rio Preto, São Paulo — um sujeito simpático, dono de longa barba, semelhante a um dos integrantes do ZZ TOP.

De olheiras profundas e com o bigode amarelado pela nicotina, Luiz Barba fumava um cigarro de filtro e tomava uma dose de pinga às nove da matina. O som do rock clássico rolava, com as músicas sendo capturadas de um pendrive acoplado a uma grande caixa. Batemos aquela prosa.

Andamos pelo centro da cidade, subimos e descemos a Rua das Pedras. Interessados em conhecer o Vale do Paty, considerado a terceira melhor pista de trekking do mundo, visitamos três agências de turismo. A opção mais em conta, cinco dias de caminhada pelo Vale do Paty, ficava por R$180 a diária, por pessoa, sendo que cada um de nós teria que levar a própria comida, a ser preparada pelo guia nos pontos de apoio. Muito caro.

Depois de algumas pesquisas e confabulações, optamos pelo guia indicado por Hélia, dona da pousada. Sinho era o apelido do cabra, ou Leão da Montanha, como ele se intitulava. Nascido em Lençóis, cara de jagunço, magrelo feito uma cana, Sinho nos ofereceu o trekking no Vale do Paty, 70 Km em cinco dias de caminhada, ao preço de R$ 110 por pessoa a diária, incluindo equipamento de camping e comida. Eram 19h30 quando fechamos negócio e adiantamos uma grana para Sinho comprar mantimentos para cinco dias.

22 de setembro de 2011, quinta-feira, 8:15 da manhã. Com as mochilas carregadas de comida, roupas e acessórios, deixamos a Casa de Hélia. Pagamos duzentas pratas para um taxista nos levar de Lençóis até Guiné, distrito de Mucugê, onde iniciaríamos a subida para o Vale do Paty.

Caminhar pela Chapada é como voltar ao passado geológico da Terra, quando o bicho-homem ainda era poeira de átomos, filho das pedras, irmão do sol e dos ventos. Muito antes do desaparecimento dos dinossauros, há cerca de 1,8 bilhões de anos, o sertão da Chapada estava encoberto pelo mar. Com o choque das placas tectônicas liberando a força de milhões de kilotons de bombas atômicas, enormes fendas se abriram no fundo do oceano, drenando as águas para as profundezas e formando o que hoje é conhecido como Chapada Diamantina, com 38 mil Km² de extensão.

O tempo e o vento se encarregaram de embelezar a região, elevando serras, rolando pedras, aplainando montes e rasgando cânions. Em refluxo, a água doce brotou da terra como artérias, pequenos vasos, formando cascatas e cachoeiras como a da Fumaça, do Mixila e a  do Buracão, e também aos borbotões, jorrando em leitos caudalosos, a exemplo dos rios de Contas e Paraguaçu, que deságuam direto no Atlântico.

Eram 11:15 da manhã quando o carro nos deixou no início da trilha, na subida do Morro do Beco, no povoado de Guiné. Duas horas de caminhada em trilha pesada e havíamos evoluído 5 km, quando paramos às margens de um pequeno rio. Descemos as mochilas, refrescamo-nos vestidos à moda de Adão nas águas frias do Rio Preto; lanchamos sanduíche de atum com legumes e bebemos suco de maracujá preparado com a água do córrego. Um grupo passou por nós, dois espanhóis e um gaúcho, guiados por um cara muito bacana, negro, apelidado de Flor e cozinheiro de mão cheia. Quem quiser mais detalhes, clique no link à esquerda.

Por volta de 14:30, alcançamos o Mirante do Paty, a 1350 metros de altitude, paisagem deslumbrante: dali avista-se o Morro do Castelo, Sobradinho e outras elevações distantes. Juntamente com o grupo trazido pelo guia Flor, ficamos cerca de quarenta minutos descansando e admirando a paisagem. A vista não se cansa de olhar, inocente diante de tanta beleza, como meninos bobos que descobrem o sexo. Refeitos, rumamos para a Toca do Gavião.

Uma hora depois, chegávamos à caverna onde passaríamos a noite, à maneira dos homens de Neandertal — sem luz elétrica, fogão a gás, e tampouco geladeira pra sacar  de dentro uma cerveja gelada e um pedaço de carne. Enquanto o guia Sinho recolhia lenha e gravetos secos para cozinhar o nosso jantar, nós três, os irmãos, enchíamos as vasilhas de água. Em seguida, tomamos banho no filete de água do córrego, utilizando a caneca de fazer café como chuveiro. Água gelada, fria pra caralho! Para aquecer, eu e o mano Criolo tomamos duas talagadas de pinga Abaíra.

Com o fogo aceso debaixo da Toca, a caverna se encheu de fumaça. Até que o rango estivesse preparado em um fogareiro de pedra, ficamos defumados como linguiça para churrasco. Jantamos macarrão. O guia nos contou causos da região, rimos pra caramba. Antes de deitar, penduramos as sacolas de mantimentos em galhos, acima da caverna, pra evitar atrair os animais.

Satisfeitos, enrolados em nossos sacos de dormir, ficamos por algum tempo admirando a noite. Estrelas riscavam a escuridão do céu. Antes de tirar os óculos, já que sou míope, contei duas estrelas cadentes, mas não fiz nenhum pedido; não acredito nessas bobagens. Passei um frio da porra. Durante a noite, fui atacado por mal-estar: o estômago roncava, as tripas ardiam como fogo, um vento frio e cortante serpenteava através do saco de dormir, cujo zíper não fechava até o pescoço. Quase não dormi, mas estava tão feliz quanto um homem das cavernas que caminhara vinte quilômetros para chegar em casa antes do alvorecer.

continua…

 

 

Um comentário em “Com o pé na Chapada II

  • 15/11/2011 em 23:46
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    Gato, bela recontagem do nosso encontro de irmaos na Chapada. Gostei da linguagem idilica (serah que esta palavra existe no Portugues? ou jah eh transliteracao do meu “Inglez” para o meu ensarobado Portugues…?) no qual vc. retrata o nosso encontro com o mato, o ceu, as montanhas e as trilhas acidentadas do Vale do Paty. Nao sei se vai ficar na saudade este passeio, pois hah certas horas ainda me encontra lah nos meus pensamentos. O seu retratar isto neste blog eleva mais ainda este tipo de lembranca.

    For(c)a mano, (ta faltando cedilha aih naturalmente)
    Criolo

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