Clubinho do silício

A pergunta está em todo lugar, basta se ligar: “Como o incrível Steve Jobs marcou sua vida?”

Pois é. Steve Jobs faleceu recentemente e eu também gostaria de comentar, de ter uma homenagem sincera para prestar, mas estou perdida, desesperada com dois ou três vídeos gravados ao vivo no meu tablet espetacular, que não consigo de jeito nenhum tirar de lá, burra, eu, enquanto procuro frenética na web um santo driver para baixar… Meu Deus, não consigo fazer essa coisa funcionar!

É, vamos combinar, coisa demais pra me preocupar; chego à conclusão de que, se é pra marcar, Jeff  Bezos, com a complexa simplicidade em tudo que ele nos traz, me marcou muito mais. Steve Jobs mudou o mundo, mas foi a invenção do Kindle que mudou o meu mundo. O resto ficou complicado demais, e se complica cada vez mais.

E foi pensando nisso que percebi que com tantos gênios conectados, empenhados em transformar a nossa consumada rotina, quero dizer, consumida, através de Facebooks, Googles, Amazons e Apples desta vida, mais um tanto de gadgets inúteis acumulados, depois de um período de empolgação fatalmente abandonados, criando tráfego em nosso trôpego cotidiano ultratecnologizado (ui!), pensem bem, não há mulher nenhuma nesse ninho de cobras, cobras no bom sentido, claro. Por que será, hein?

Penso na minha vida em seus últimos dias e vou mais ou menos entendendo a razão. Como vocês sabem, tento todo dia meio na marra e com birra de artista invadir este superprivado clube do Bolinha (ui, gíria chinfrinzinha, do tempo em que sequer um prosaico controle remoto tinha) com minha editora metida entre os gigantes digitais, ufa, única desde a criação e uns dez minutos à frente de suas concorrentes terminais, contradição, sem falsa modéstia de minha parte. Quem me segue, sabe.

Talvez seja mesmo por isso que meus insanos delírios cotidianos, onde me vejo lado a lado com aqueles brilhantes garotos hipercerebrados — eles no vale deles e eu cá no meu — não passem disso: delírios, ah, verdade, eu já ia me esquecendo de contar a razão, não é mesmo? É que de tanto pensar, meu cérebro começa a querer se ausentar: por eu ser mulher e ter que me virar, sem ter quem me pague para especular…

Vou indo vou indo, mas num determinado momento que nunca é bem-vindo, a mente para, se cansa, compara o metálico tédio de todo este silício oculto à majestade orgânica do verdadeiro vale à minha frente enquanto escrevo, um vazio habitado cercado de montanhas por todos os lados — que é o que vale, não custa lembrar.

Pois quando a tempestade eletromagnética tão ampla e catastroficamente anunciada por meu querido e crente marido finalmente se desencadear, só mesmo este nosso Vale, sua imponência de pedra e seu sossego imbatível irão contar. Todo o resto se apagará, incluído o vale deles lá e os trilhões de dólares soltos a flutuar, insolventes, hoje inexistentes, transformados em bits e bytes inconsistentes sem padrão-ouro para os ancorar, em busca de um bolso mais influente por onde se enfiar: é grave a crase!

Alan avisa: o mundo está para se acabar (e não esquentem, 2012 já vai chegar). Foi inaugurada esta semana, no Irã, uma central nuclear — explosiva mistura de tecnologias russa e alemã, ambas obsoletas, pagas em cheque sem fundos desde o tempo do Xá —, perigosamente instalada sobre uma fenda prestes a chacoalhar, pobres de nós, teremos urânio na hora do chá, e eu preocupada em publicar alguns vídeos encalacrados que não consigo compartilhar, nem por um cabo que me parta; é de amargar.

Enquanto isso, o universo político, pelo menos isso, vai se infeccionando de feminilidade, uma possível e um pouco implausível sensibilidade. São presidentes, diplomatas prementes, e entre elas o prêmio Nobel da paz mais recente — dividido por três irmãmente —, uma faxina universal para os males deste mundo, Dilma que o diga.

Quanto a mim, tenho a acrescentar que depois de dois meses duros de roer tenho a vaga e enganosa impressão de estar finalmente do lado de lá, da paz, da calma milenar; só falta eu entender de verdade qual é o meu lugar, e descansar da luta por dois dias ou três.

Um bom domingo procês.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “Clubinho do silício

  • 09/10/2011 em 11:04
    Permalink

    Muito bom, Noga! Gostei principalmente da parte: ” Enquanto isso, o universo político, pelo menos isso, vai se infeccionando de feminilidade, uma possível e um pouco implausível sensibilidade. São presidentes, diplomatas prementes, e entre elas o prêmio Nobel da paz mais recente — dividido por três irmãmente —, uma faxina universal para os males deste mundo, Dilma que o diga.”

    Bjo.

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