Chinaworld

Um dia desses saí para comprar um violão. Não que eu seja um músico, na verdade toco só um pouco este lindo instrumento. O certo é, que depois de anos de aula e uma grande paciência de meu professor, consigo tocar algumas canções, e essa possibilidade alegra meu coração. Assim como sempre faço, num dia em que me sinto um pouco triste, fui a uma boa loja de instrumentos em minha cidade e olhei os violões, não necessariamente para comprá-los, mas mais feliz só com esta perspectiva.

Vocês devem estar se perguntado aonde afinal esta história nos leva. Um pouco mais de paciência, leitor amigo, que chegaremos lá. Bom, lá estava eu, experimentando os danados, sim, existe test-drive para violão. Você escolhe o instrumento, o afina e tira algumas notas ou toca algum trecho de uma melodia. Neste momento, você sente o som produzido (verdade, a escolha é no nível do sentimento), a distância das cordas, do braço, a sensação dele junto ao corpo. São pequenos detalhes, mas que fazem toda a diferença.

Nesse dia eu experimentei três, e, infelizmente para mim, o que mais me agradou foi um belo violão Yamaha. Sim, amigos, o grupo industrial japonês produz instrumentos musicais, e muito bons por sinal. Não são só motocicletas, e além destas, uma série de itens inimagináveis, de motores de barco a flautas… passando pelos violões.

Já apaixonado pelo som e querendo levar meu amigo para casa, me deparei com seu preço. Apesar de não ser exorbitante, fazia justiça à sua qualidade. Logo percebi que entre meu sonho e a realidade estava a minha carteira. Agradeci e já ia devolvê-lo ao vendedor, quando, admirando seu interior, vi inserido em seu bojo, no selo da marca, a inscrição: “Made in China“.

Surpreendido, perguntei ao rapaz:

— Mas como? Ele foi produzido na China?

Este, sorrindo da minha ignorância, decretou:

— Na verdade, meu senhor todos estes são produzidos lá! Sai muito mais barato! — disse isso apontando para uma parede repleta de instrumentos de todas as marcas mais conhecidas no mundo.

E era verdade! Takamines, Fenders e Yamahas e outros tantos estavam ali testemunhando isso. Percorrendo os olhos pelo interior deles, conferi a expressão que tudo definia: “Made in China”.

Assustado, e ainda surpreendido, ouvi suas explicações:

— Todas as principais fábricas de instrumentos musicais do mundo estão na China. Ali elas produzem, pois a mão de obra é barata e de excelente qualidade.

Ainda perplexo, agradeci as informações. Entre assustado e admirado, disse a ele que iria pensar sobre minha aquisição. Saí da loja refletindo sobre o mundo, a vida e a China. Ela nunca esteve tão presente na minha vida. Os chineses e seus produtos estão em todo lugar, mas nunca os tinha visto tão perto, daquilo que me é muito “caro”. Senti certa tristeza e percebi que realmente o mundo mudou. Se uma grande organização japonesa entrega sua tecnologia a um grupo de chineses para produzir seus instrumentos, tudo é possível. Pois todos nós sabemos que China e Japão não têm uma história de amizades, mas o dinheiro fala mais alto! No nosso mundo capitalista, que se explodam as diferenças, ódios ou sentimentos. Eu quero é que você me mostre o dinheiro, “Show me the money!”

Ainda triste com a perda das raízes culturais das coisas, fui caminhando pela rua em direção ao meu carro. E pensei comigo mesmo: Estou em Chinaworld e não sabia! Abri a porta do carro, e agradeci por ele ser ainda um Volkswagen.

Sorri, algo melancólico, liguei o carro e parti.

 

Um comentário em “Chinaworld

  • 05/12/2012 em 11:26
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    li com atenção e gostei muito, pena que a reciproca nao é verdadeira, na minha cronica tinha ate a foto da cadela Nina
    bjssssssssssssssssssssss

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