Cavernas contemporâneas

caveNuma das idas ao meu ex-dentista, onde lamentavelmente não posso mais ir por que ele ficou muito famoso e seus preços se tornaram exorbitantes para o meu orçamento, conheci um amigo dele muito peculiar. Parece-me que o rapaz foi seu colega de escola. José Maria, inacreditavelmente, vive numa caverna, não tem despesas a não ser com alimentação, e é evidentemente muito magrinho, deve comer somente o essencial para sobreviver, e caminhar muito.

Ele estava com um problema dentário e foi lá se consultar de graça com nosso dentista em comum. Conversei com essa figura medieval contemporânea e fiquei muito impressionada com o desprendimento e desapego dele. José é muito instruído; seus parentes não moram no Rio de Janeiro, ainda bem, porque se aqui estivessem talvez o quisessem enquadrar, o que seria tarefa impossível .

Quantos Josés vivem assim? Ele não se considera um mendigo e não usa drogas; realmente é um viajante no tempo. Perguntei-lhe se não tinha medo de bichos, e ele disse que não tinha sequer baratas no lar que montou para si. Aos quarenta e cinco anos de idade, é solteiro e não tem filhos; se considera uma pessoa feliz, conta com a amizade de boas pessoas que o aceitam como ele é, e sua maior distração, além de ler, é fazer yoga, meditar e também conversar. O que mais me impressionou é a boa saúde que ele aparenta ter.

E nós, que temos conta bancária, boas roupas, televisão, automóvel, plano de saúde, muitos também plano de aposentadoria bancária, que é uma espécie de seguro para se prevenir em relação a um duvidoso futuro?

Com frequência me lembro desse rapaz, que personalidade forte ele tem! A sorte é que sua família está distante, porque senão o levariam a um psiquiatra que acabaria com a sua saúde, entupindo-o com fortes doses de remédios inúteis… e talvez o internassem num manicômio.

E nós, gente comum, que moramos em casas protegidas ou prédios luxuosos, não sabemos se tão sólidos a esta altura dos acontecimentos? Muitas vezes nos sentimos deprimidos, vazios, desprovidos de objetivos, desamados etc… O que somos em relação a uma pessoa como José Maria, que decidiu viver em uma caverna, que ele atapetou e mobiliou, num local lindo, de frente para o mar no caminho de Mangaratiba, pelo que me disse o nosso dentista?

E se muitos resolvessem viver assim? Seria uma revolução total, mas ninguém pensa nem de longe em soltar as amarras do conforto e da segurança que a sociedade nos promete. Não pensem que esse rapaz é um ser inútil, ele é garçom free lancer, já teve um pequeno quiosque de chaveiro e faz outros bicos. José Maria, ironicamente, é formado em Engenharia Civil, não é miserável, nem louco, é um ser livre e desprendido, que simplesmente resolveu viver de forma diferente da maioria; é um cara com uma fala macia, tranquilo, inspira confiança e segurança. Tem um radio e frequenta bibliotecas públicas, nunca sequer cogitou em comprar um celular ou um notebook, como fará para ler e-books se nem cartão de credito possui? Está na hora de incentivarmos os centros culturais a disponibilizá-los para os frequentadores.

Um homem esdrúxulo e encantador, que seja feliz na sua caverna contemporânea.

 

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “Cavernas contemporâneas

Deixe você também o seu comentário