Caso de urgência

O telefone toca!

É verdade, ainda sou desses que tem telefone fixo em casa, mas nem por isso gosto do som ou do aparelho. Na verdade, não gosto de telefones, mas isso é outra história; estendo o braço e com certa relutância me vejo falando:

— Alô!

— Paulo? Sou eu, Antônio!

Nem precisava identificação. Além do tom de voz de desespero, quem mais poderia me ligar às 8h00 da manhã de um domingo?

— Antonio! Você sabe que horas são?

— Desculpe, meu amigo, mas é caso de vida ou morte!

Todos os casos de Antônio tem essa prerrogativa, e com o tempo, me acostumei ao seu desespero. Desde crianças somos amigos e desde essa época ele sempre acha que vive uma situação trágica.

— O que foi que aconteceu? — perguntei, já com medo da resposta.

— Preciso de sua ajuda! Você tem o telefone do Conselho Regional de Medicina?

— Pra que você quer esse telefone? E por que agora?

— Preciso denunciar o Dr. Rogério, por omissão de socorro!

— Dr. Rogério? Mas ele não é seu médico?

— Ex-médico!

— Como assim? Ele te atende há mais de 15 anos, sábado, domingo, feriado! Você me falou da competência dele, de sua disponibilidade!

— É verdade! Mas a vida é assim, mais cedo ou mais tarde a pessoa nos mostra sua verdadeira face.

— Mas o que aconteceu?

— Bom, a história é longa e triste, mas vou te contar. Você sabe que peguei uma gripe há duas semanas… Ela veio tão forte que vi logo que não era a suína, era a “javali”: febre alta, tremores, suor constante! Como sempre me monitoro, fui acompanhando a evolução, e quando a tosse veio de forma constante liguei para o Dr. Rogério! Apesar de não ter horário e ser sexta-feira à tarde, ele conseguiu me atender. Auscultou meu pulmão, examinou minha garganta; o eletroencefalograma não foi necessário, pois como adquiri um aparelho portátil, tenho o costume de auto submeter-me a dois exames diários. A pressão também é rastreada por mim com meu próprio instrumento. Depois de me examinar, ele me disse que era uma gripe forte, e receitou um antibiótico de boa estirpe, com uma dosagem razoável. Apesar de nossa discordância, aceitei a dosagem proposta; ele ainda acrescentou um antitérmico.

— Então! Você não está vendo o cuidado que teve com você?

— É verdade esta foi minha primeira impressão. Mas o futuro revelou a verdadeira face do vilão!

— Quando cheguei em casa, iniciei imediatamente a medicação. Abri meu livro de controle e meu caderno de campo e aguardei. A febre se mostrou reticente, e foi debelada, os suores desapareceram.

— Então! O que você queria mais? O homem te atende, dá a medicação correta e você quer processá-lo!

— Mas você esqueceu um pequeno detalhe, amigo.

— O quê?

— A tosse!

— A maldita não retrocedeu, ao contrário: molestada, voltou com força e disposição.

— Imediatamente liguei para o celular do Dr. Rogério! Depois de muita insistência, ele me atendeu. Expliquei-lhe a gravidade da situação e pedi um atendimento em casa, uma vez que se me movesse poderia agravar meu caso e me levar eventualmente ao óbito. Ele me ouviu, mas me disse ser impossível atender-me, pois estava em Ouro Preto comemorando 25 anos de casado. Me passou um nome de um xarope, que conheço, e, claro, não se aplicava ao caso… e desligou.

— Então, rapaz, ele fez tudo que podia!

— Tudo! Você não está entendendo! Eu estava com meu aparelho de pressão à mão, e esta, de onze por sete, foi para doze por oito logo após essa ligação.

— Então ela estava normal!

— Normal? Normal para você, cara pálida! Tenho vários estudos demonstrando que uma variação de pressão súbita pode ocasionar um AVC de graves proporções.

— Bom, e daí?

— Daí, que liguei de novo para o Dr. Rogério. Ele não atendeu. Consegui localizar seu hotel pelo sinal do telefone, e parti para lá!

— Você foi para Ouro Preto?

— Lógico! Era um caso de urgência! Tentei com o Samu, mas recusaram me levar. Assim, correndo o risco de agravar minha condição, peguei o carro e fui atrás de socorro.

— Você é louco!

— Louco é o Dr. Rogério, que ao invés de me atender ficou possesso quando invadi o restaurante e exigi que me examinasse. Além de não fazê-lo, exigiu que eu fosse retirado dali pelos seguranças.

— Antônio, dessa vez você ultrapassou todas as medidas!

— Verdade, meu amigo, minhas medidas estão todas alteradas. Minha pulsação está disparada, minha tosse aumentou, e me sinto febril. Ainda bem que você me compreende. Estou indo para sua casa! Afinal, para que servem os amigos, não é mesmo?

 

 

Um comentário em “Caso de urgência

  • 09/08/2012 em 19:46
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    Ja ja ja ja…
    Conheço alguns neste “Perfil”….
    Por isso não estude Medicina… mataria todos eles!

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