Carvãozinho

Este fato real se passou quando Ipanema ainda não tinha sido destruída. As ruas eram ocupadas por carros, bondes e lotações: sabiam que a luz verde os autorizava a seguir, a luz vermelha lhes dizia que deveriam parar, e, dando um tempo para tudo se organizar, entre a mudança de uma cor para outra, piscava sempre uma luz amarela.

Estando os veículos nas ruas, os pedestres tinham direito às calçadas, onde babás podiam passear com carros de crianças. Todos se conheciam, ou assim parecia acontecer, se respeitavam, nada era roubado e camelô não era comerciante protegido pela policia. Havia um ceguinho que na Praça General Osório vendia giletes, balas e pentes da marca Flamengo. As praças não eram dormitório de mendigos, eram limpas, sem buracos, com plantas e árvores. Os bares eram o Zepellin, o Jangadeiros, o Gardênia — do nortista porreta chamado Walter —, o Veloso, frequentado por Vinícius e pelo Tom, e o melhor deles para mim, o Mau Cheiro. Ficava na Vieira Souto, onde depois se instalou o Jazzmania.

Estávamos bebendo, falando um pouco de tudo, quando alguém do nosso grupo, vendo passar uma linda criança, comentou que uma criança é sempre mais bela que uma rosa amando uma borboleta. Ouvindo esse poeta-filósofo de botequim, comecei a divagar.

Uma criança é perfeita no seu mundo de imperfeições. A criança é eterna e nem os homens conseguem destruí-la. Os seres humanos têm às vezes a capacidade de amar. Podem amar e ser amados, ou, simplesmente, amar sem eco. Mas só as pessoas que trazem escondidas debaixo do peito a criança que foram outrora conseguem amar com uma beleza de sol em manhã de praia. A criança não pode abandonar o homem. O homem tem que crescer na criança. A criança tem a graça do pedir. A criança sorri com as mãos e pede com os olhos, saudade do tempo em que também eu pedia com os olhos. Agora, tudo mudou. Agora a criança tenta me abandonar. Não deixo! Quero viver eterno menino, mãos nos bolsos, bolsos vazios, olhar de felicidade, falta de preocupação, falta de metafísica, falta de você, falta de calças compridas. Saudades do tempo em que nada era mais lindo do que um sorvete de chocolate com creme chantilly. Como é bonita a sujeira que faz a criança vivendo sorvete! O sorvete nasce, agiganta-se, torna-se amigo, e como tudo que é bom, acaba.

Assim eu meditava quando vi um pretinho triste que andava na beira da calçada. Seus olhos fixavam o mar de Ipanema quebrando na areia. Era um sábado sem muita razão de ser. O dia era cinza, um sábado sem véspera de domingo. O pretinho atravessou a rua e se aproximou, olhando com o medo característico das crianças sem infância para a mesa onde comíamos. O pretinho foi visto e foi sofrido. O pretinho pedia sem coragem de dizer. O pretinho se achegou. O pretinho se sentou e o pretinho comeu. Amou a eternidade passageira de um refrigerante e venceu a árdua batalha que travou com um cachorro quente maior que seus olhos.

Quando acabou, nada foi dito; humilde como sua existência foi sua partida. Não nos falou, não nos olhou nos olhos, com medo do agradecimento. Partiu sem esperar o nosso obrigado, não quis pagar o bem que nos fizera. E a nós restou somente a vontade de lhe dizer:

— Obrigado, garoto pobre, obrigado, garoto sem amanhã, obrigado, pedaço de noite, obrigado por nos ter feito crianças de mesa de bar.

 

5 comentários em “Carvãozinho

  • 25/09/2012 em 12:25
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    Otimo texto, tocante , humano. Para todos nós , crianças ….com sorte , eternas crianças …

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  • 24/09/2012 em 13:40
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    Olá Paulo Pinho (meu ex-primo) c/o vai vc? Nestas opções tb deveria ter a opção curtir, é uma maneira de dizermos: gostei, lembro sempre de uma das suas muitas histórias onde ocorreu um desentendimento dos seguranças do presidente Nixon qdo vieram ao Brasil e os garçons de uma boate, acho q se vc escrever outro livro contando as histórias da nossa noite carioca, da sua amiga atrapalhada q abraçou um homem sem querer na fila do Bruni Ipanema, e outras será muito divertido. Qdo sair o seu livro “Paris p/ principiantes” eu vou comprar. Um gde abraço, Lila

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  • 23/09/2012 em 17:45
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    Ipanema não é mais a mesma, o Tom e Vini… já estão fazendo arte em outros lugares… Porém a injustiça social com os “Pretinhos e outros não tão pretinhos” permanece. Uma coisa triste!

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  • 22/09/2012 em 18:54
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    Lindo Paulo!! Solidário..e humano.

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  • 22/09/2012 em 15:20
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    Sua crônica tem lindos trechos, Paulo, como o fragmento de suas (poéticas) divagações nostálgicas no recinto amistoso de uma mesa de bar. Também a descrição do seu sorvete de menino remete a uma semântica própria de sentimentos de infância, no resgate de uma temporalidade feliz propiciada pela literatura.
    Além de tudo, sua crônica expõe – com leveza e verdade fluente – os eventos cotidianos felizes de uma Ipanema que não existe mais. Uma concepção doce de passado evocado por um sábado nublado, mas também delatora de desníveis e mudanças que não acompanharam a boa nivelação do progresso cosmopolita.
    Quanto ao menino, você foi feliz ao acolher na lembrança descrita os sentimentos de solidariedade e denúncia, evocando – com o personagem real – justas delações de uma sociedade que ainda mantém a desesperança de tantas crianças de olhar triste e infelicidade anônima.
    Belo texto!

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