Cão e gato

Este fim de semana recebi a visita do Zé. “Quem é o gajo?”, deve estar se perguntando você. Explico: Zé é o cachorro da minha cunhada Nancy — ou do meu cunhado Elmo, existe uma mal resolvida discussão entre eles sobre esta titularidade. Mas não importa. O Zé tem amor suficiente para os dois. Aliás, é disso que se trata esta crônica: o amor incondicional que o cão nos dá e que, com sorte, retribuímos na mesma moeda.

Para aqueles que duvidam desta verdade, um teste: coloque a esposa ou o marido, se for o caso, preso no porta-malas de um carro junto com um cão. Passado um tempo, abra-o e veja a reação dos dois. O cão provavelmente o lamberá feliz e satisfeito, acreditando que existe um motivo justo para estar ali; já o cônjuge…

Bom, o certo é que minha cunhada viajou e deixou o amigo fiel com minha filha e minha neta Ayla. Mariana é louca por cães e a pequena também os adora. Assim, devidamente acompanhado, Zé veio me fazer uma visita no domingo. Enquanto mãe e filha adentravam o recinto, nosso amigo canino não se fez de rogado, e rapidamente saltou sobre o sofá no qual eu assistia a um filme displicentemente. Deitou-se ao meu lado, virou os olhos para mim e me lambeu a mão, como se dissesse: “E aí, tudo bem?”

Fala sério! Vai dizer que não é bom receber um carinho gratuitamente?

Cocei sua orelha em retribuição e lá foi ele explorar o território. Por ser um poodle, ele tem uma agilidade impressionante e, se alguém duvida que cachorro fala, é só conversar com um. Na verdade, todos os que já tiveram e têm um cão me juram de pés juntos que, mais do que falar, eles compreendem tudo. Sabem inclusive quando não sentimos vontade de falar nada, só queremos companhia. Se isso ocorre, nosso amigo percebe, se aproxima sem alarde e por ali fica, ao nosso lado, perto ou um pouco distante. Poucas pessoas compreendem a nossa necessidade de espaço ou recolhimento como um cão sabe fazer.

Vocês podem se perguntar: como ele sabe tanto de cães?

Meu conhecimento advém dos inúmeros animais que já julguei possuir, sendo que até hoje existe uma discussão sobre quem possui quem. Diferentemente dos gatos, dos quais falarei mais à frente, a posse, ou melhor, a entrega do cão a seu dono é indiscutível.

Vendo o Zé correndo pela sala, depois voltando e, com um salto circense, se acomodando ao meu lado, me lembrei de um amigo que partiu há pouco tempo. Seu nome era Calvin e ficou com a minha família por 17 anos. Quando se foi, deixou um vazio enorme, que até hoje eu e Valéria, minha esposa, não conseguimos preencher.
Ainda me lembro de quando voltava tarde para casa depois da labuta diária e ele vinha me receber na porta. Eu, às vezes de mau humor ou nervoso com algo ou alguém, não lhe dava a atenção pedida. Ele não se amolava; desaparecia e daí a pouco trazia sua bola vermelha predileta à boca. Aproximava-se sutilmente e a soltava junto a meus pés. Um latido me dizia o que fazer; eu a tomava nas mãos e a lançava no corredor do apartamento.
Meu amigo disparava incontinenti atrás da pelota, como se disso dependesse sua vida. Só essa corrida já divertia o olhar.

Em breve, lá vinha ele abanando o rabo e trazendo sua presa entre os dentes. E ali, os dois, no pega-e-trás, nessa brincadeira inocente, nos divertíamos. Cada vez que a bolinha era lançada, ia junto um pouco da minha preocupação. Depois de certo tempo, como se tivéssemos combinado, nos sentávamos um ao lado do outro no sofá da sala. Eu ligava a TV e ali permanecíamos, felizes, na companhia um do outro. O Zé trouxe com ele as lembranças desse tempo.

Mas, divagando sobre esse amor canino, me vejo pensando nos gatos. O mundo praticamente se divide em duas espécies: os “ cachorreiros” e aqueles que amam os bichanos. Eu me alio aos que amam os cães, mas confesso que mudei minha opinião sobre os gatos ao visitar minhas sobrinhas em São Paulo.

Nina, desde pequena, carregava Naná, a gata, para todo lado. Era de impressionar vê-la com a bichinha nos braços. Pelo modo como carregava o animal, eu vivia temeroso de que ela sofresse algum acidente, mas a gata parecia saber que a dona era uma criança e resistia tranquilamente ao transporte involuntário.

Numa ida dessas a São Paulo para visitar a família, me hospedei na casa dos pais dela. E, como de costume, me dirigi ao sofá da família para ver meu programa favorito. O cansaço me abateu e, com a TV ligada ao fundo, adormeci tranquilamente. Passado algum tempo, naquele intervalo entre o acordar e o sonho, sinto a presença de alguém junto a mim. Acordei e vi, deitada no meu colo, sem a menor cerimônia, a gata!

Naná dormia o sono dos felinos; um leve ronronar acompanhava sua respiração. Eu confesso que, passado o susto e o ímpeto de retirá-la do seu conforto, me atrevi a coçar sua cabeça. Ela abriu um pouco os olhos, me olhou, virou-se para frente e deixou-se ficar. E eu me vi, assim, cativado por uma gata, que se aproximou furtivamente e se deixou ficar.

Não sei quanto tempo se passou até ela se levantar e se afastar, mas, a partir desse dia, apesar de ter entre os cães meus animais preferidos, vi que é possível gostar de gatos, que se aproximam e se fazem presentes de um jeito diferente.

Moral da história: quem tem cão caça com gato também.

 

Nota da editora: o Calvin, se bem me lembro, é personagem de um dos contos do delicioso livro do Gustavo publicado pela KBR, Um tanto de prosa. E se não for, vale a pena assim mesmo, diga aí, Gustavo!

 

 

14 comentários em “Cão e gato

  • 22/03/2012 em 16:17
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    Linda crônica, você escreve muito bem, não conhecia nada seu, adorei! Vou compartilhar para uma amiga que adora cães e gatos! Parabéns! Bjs

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    • 22/03/2012 em 16:26
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      Lourdinha.
      escrevo toda quarta neste blog.
      Será um prazer ter sua companhia1
      Bjos.

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  • 22/03/2012 em 15:15
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    Também me identifico mais com os cães, até hoje em meus anos de vida, já tive 8 dessas pessoinhas do meu lado…rsrs…(Jucelino, Zéca, Lup e Duck estiveram ao meu lado durante 16 anos, mas de tão velhos se foram). Agora tenho a Pretinha e Mel que encontrei na rua e levei pra casa… Pituka (filha da pretinha) e Nina a ciumenta….rsrs… Todas que fazem minha alegria durante o fim de um dia de labura…..

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    • 22/03/2012 em 15:51
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      Fala sério Josie!
      Antes eram só rapazes,agora só moças?
      Mas todos inesquecíveis!

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  • 22/03/2012 em 14:22
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    Drº Gustavo,

    linda crônica. Só quem possui cachorrinhos lindos como foi o Calvim sabe a realidade crônica. Sou suspeita de falar pois tenho 4 lindas. Amei …. e vou contar para elas.

    Abraços e muito sucesso.
    Vânia

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  • 22/03/2012 em 12:00
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    Estou muito orgulhoso do Zé. Jamais imaginei que um dia meu cão seria personagem de uma linda crônica.
    Parabéns aos dois, autor e personagem.
    Elmo

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  • 22/03/2012 em 11:49
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    Que lindo!!! Mas pra esclarecer a história, o Zé é meu!!! Está sobre a guarda dos “avós”. Mss quem tem coragem de tirar essa guarda? Ele é a alegria dos meus pais… e o amor é recíproco…

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    • 22/03/2012 em 11:58
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      Esta titularidade é discutível!
      Segundo seu pai o Zé é dele,segundo sua mãe é dela.
      Segundo o Zé,na verdade vocês são dele!
      Tudo é amor!

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  • 22/03/2012 em 10:54
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    Também sabemos a dor que é a perda destes bichinhos, Big também viveu conosco 16 anos ( amigo do Calvim ) rsrs. Foram muito momentos como estes… Agora a alegria da vez é o sapeca Luck ( poodle ) e o temperamental Nino que fazem a alegria da casa. Muito lindo….adorei !

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  • 21/03/2012 em 21:21
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    SAUDADE DO NOSSO AMADO CACHORRINHO!!!
    BJO

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