Cantada


— Te conheço de algum lugar…

— Essa é a cantada mais antiga do mundo!

— Sério. Só não me lembro do seu nome.

— Parece que a falta de memória é geral. Em pouco tempo ninguém se lembrará mais nem do próprio nome.

— Concordo. Aliás, outro dia fui a um restaurante com um casal de amigos. Acredita que passei mais da metade do jantar tentando me lembrar o nome da esposa?

— Quando é mulher ou marido de amigo, a coisa fica ainda mais complicada.

— Mas não era o caso! Eu os conheço há séculos, mais de vinte anos.

— Olha, eu tenho dificuldade de lembrar até o que almocei ontem. Imagine o resto. Pior que está acontecendo com todo mundo. É uma epidemia.

— Ah, mas eu ainda tenho um amigo que tem memória de elefante. Às vezes ligo pra ele e pergunto sobre alguma coisa da minha própria vida. Ele sabe os detalhes melhor do que eu.

— E você confia no que ele diz? O cara pode inventar qualquer coisa, você não lembra mesmo.

— E o que importa isso? Melhor algum passado que nenhum. Mas do que é que a gente estava falando antes?

— Não me lembro. Como é mesmo o seu nome?

— Henrique. Desculpe, também esqueci o seu.

— Flora.

— Ah, Flora, eu estava te perguntando o que você vai fazer na sexta-feira.

— E eu respondi o quê?

— Que topava um drinque depois do trabalho, se fosse no Centro, aí pelas sete horas da noite.

— Então me espera no… Onde foi mesmo que a gente combinou?

— No Amarelinho. Te aguardo lá.

— Se eu me lembrar…

 

 

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