Cansou?

Moro numa metrópole. Vejo as pessoas na rua, ansiosas, apressadas (me incluo nesse conjunto), correndo desesperadamente atrás de alguma coisa. Neste mundo globalizado em que vivemos, ofertas de todo tipo de produto são esfregadas, todos os dias e várias vezes, na nossa cara. Parece que precisamos mesmo correr, senão não seremos gente de respeito, seremos gentinha — que tem que comprar o mais barato, enfrentar as maiores filas, esperar meses pela consulta no médico, enfrentar os transportes, e, atualmente, remédios, muitos remédios, caríssimos! Para nos acalmar, mitigar a nossa dor da alma. Que atire a primeira pedra quem não sente essa dor.  Agudamente, disfarçadamente, galhardamente, resignadamente ou qualquer outro que mente.

Não posso deixar de me referir ao início da crônica da Rosane Chonchol sobre a morte da psicanálise. Ela começa com a clássica questão do Freud, “o que quer uma mulher?” E, se entendi bem, termina concluindo que todos precisamos ser amados. Acrescento que queremos ser amados. Por isso, essa corrida toda.

Mas o que vem a ser este amor que tanto desejamos? Saiu de moda!

Depois de várias tentativas válidas, embora canhestras, de escaparmos ao domínio do patriarcado, quero dizer, dos valores masculinos que existem nos homens, mulheres — e outros sexos, deixo claro —, nós o fortalecemos. Ou seja, competição, disputa, racionalidade e o ápice, o principal elemento: a devoção imbatível ao pensamento. Ainda vige o “penso, logo existo”.

A emoção ficou para depois, depois das conquistas mundanas. No sentido do bem-estar emocional, da calma no peito, estamos pior do que nossos antepassados recentes. Eles usavam a racionalidade, sim, claro, mas temperavam com um tal de bom senso que vinha justamente da atividade dos valores femininos, como, por exemplo, senso gregário, proteção da e na família, aconchego de mãe, carinho físico, conforto, descanso, paciência. E por que não dizer, fé no que não se vê. Até onde eu sei, toda mãe reza.

Outro dia vi um desenho animado em que de repente ocorre uma terrível situação de perigo. Um bichinho fofíssimo de olhos enormes, um pequeno lêmure, fica com medo e começa a chorar, aquele choro que dá dor nos tímpanos. Ninguém aguenta esse barulho. Os outros animais tentaram ponderar, pedir silêncio, mas o lemurezinho berrava cada vez mais alto. Até que um hipopótamo fêmea (?) se abaixou naturalmente e aconchegou o pequeno no colo. Deu uma balançadinha e o lindinho ficou em paz.

Foi aí que – clic! – percebi que o que faltava à racionalidade era apenas a companhia da emoção e seus outros parentes, como o sonho e a fantasia.

O disputar tem que andar de braço dado com o compartilhar. Pensar, sim, mas sempre bom senso. E enfrentar a vida, que é dura mesmo, com muito amor, carinho e abraços de verdade; deixar a magia da imaginação e da fantasia transformar  a depressão em simples tristeza; a raiva, a frustração,a irritação, a inveja ou a impaciência em com-muita-paixão, lembrando o quanto se ama e se é amado. Ah, e não deixar jamais o pensamento sozinho…

 

3 comentários em “Cansou?

  • 10/09/2011 em 13:04
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    Amar e ser amado, eis a questão.
    “O essencial é invisível para os olhos…” Já dizia Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe.
    Muito bom!
    abraço,
    Raul Augusto

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  • 10/09/2011 em 10:09
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    Eu não creio em coincidências, pero que las hay, las hay. Rosangela: algumas coisas na sua crônica repetem ipsis litteris o q escrevi na minha que vai ao ar amanhã… não será plágio, hein?? Deve estar no ar, no céu, no astral, sei lá… Bjs

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