Calçadas do Rio de Janeiro

Andar pelas calçadas do Rio de Janeiro é um dilema: se a pessoa caminha olhando para o chão, evita os obstáculos, mas se caminha olhando em redor está atenta ao mundo que a cerca e, quiçá, evitará algum problema maior.

O pedestre se distrai com uma bela vitrine e, pimba!, pisa no último serviço de um totó cujo dono não cumpriu o protocolo de levar para o local adequado o produto final do seu bichinho de estimação.  Infelizmente, graças aos pombos, esse tipo de perigo vem do céu também, já aconteceu comigo em plena Avenida Copacabana.  Dizem que dá sorte. Sorte?!  Tive que voltar para casa correndo.

Quando apareceram os primeiros pombos no Rio de Janeiro, ficamos deslumbrados.  Enquanto a população não se deu conta de que comer carne de pombo requer alguns cuidados, e de que são causadores de doenças, eram muito ariscos. Agora, estão na topo da lista dos bichos mais desavergonhados que conheço.  Sem cerimônia, sujam igualmente monumentos, ruas e, eventualmente, sua roupa nova.  Com frequência, nem se dão mais ao trabalho de levantar voo: ciscam pelo chão, mal se desviam de você, tal é o nível de autoconfiança que ostentam, uma praga.  Pelo menos no caso dos cães podemos tentar educar os donos.

Os desníveis de nossas calçadas são um convite a acidentes, que vão desde pequenas topadas até quedas sérias, e o uso de cadeiras de rodas exige força hercúlea.  Observe que boa parte desses desníveis é causada por raízes de árvores inadequadas para o plantio urbano.  Se você tentar arrancar uma dessas e plantar outra no lugar, a prefeitura vai tratá-lo como inimigo público, enredá-lo numa via crucis de burocracia, sem falar nos eventuais abaixo-assinados. Eu adoro as árvores do Rio, seria bom preservá-las todas e ainda plantar mais algumas, mas existe alguma coisa errada quando elas levantam o piso e você não pode se defender.  Talvez exista algum plano para substituir essas espécies, mas, por enquanto, e por longo tempo ainda, haverá muito pé torcido e o uso de cadeira de rodas nas calçadas do Rio continuará exigindo força hercúlea.

Além dos desníveis, há os buracos propriamente ditos.  Cada prédio é responsável pela calçada em frente; aí vem a companhia de gás, esburaca toda a rua, usa a sua calçada como canteiro de obras e tapa o buraco mal e porcamente.  A prefeitura dá prazo para o condomínio refazer a calçada, sob ameaça de multa pesada.  O condomínio refaz a calçada.  Não demora muito, a Light esburaca tudo de novo, ou a empresa de banda larga, ou a de águas, ou a de telefonia… Os “serviços” vão se alternando numa sequência infindável, e a calçada remendada vira um patchwork.  A última novidade nesse setor é a explosão de bueiros.

Não podemos nos esquecer dos carros tentando estacionar em cima das calçadas, danificando-as, principalmente as de pedra portuguesa. Escolha entre ser multado pelo fradinho ou pela calçada em mau estado de conservação: a prefeitura multa os carros e os prédios, multar no município é um esporte popular.

E os camelôs?  Tudo bem, o sistema social injusto em que vivemos empurra os cidadãos, ou candidatos a cidadão, para a clandestinidade, epa!, informalidade. Mas quanto à madame que compra dez canetas por um real e se justifica dizendo que está ajudando um trabalhador a sobreviver: é hipocrisia ou ignorância?  Faça a sua parte: não seja receptador.  Pelo menos isso.  Você pode comprar canetas pelo preço justo.

Já perdi amigos porque, além de ser distraída, fico olhando para o chão. Os não muito próximos interpretam mal o fato de eu não os reconhecer de imediato (às vezes nem os reconhecer de todo); um ou outro ainda se joga na minha frente, mas a maioria acha que sou mesmo metida a besta.  Nem adianta desmentir.

Já ganhei unhas e dedos roxos por desviar os olhos do chão: os desníveis das calçadas são cúmplices da minha capacidade de autodestruição e da minha forma rasante de andar. Definitivamente, não consigo decidir para onde olhar quando caminho nas calçadas do Rio de Janeiro. Se a dúvida persistir, vou acabar não saindo mais de casa.

 

 

Um comentário em “Calçadas do Rio de Janeiro

  • 29/04/2012 em 12:12
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    Sair andando nas calçadas do Rio é um desafio nada engraçado, concordo totalmente. Essa cronica tem de ser levada muito a serio. Obrigada!

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