A burrice de Aécio e a proverbial sabedoria mineira

 

Tancredo Neves e Ulysses Guimarães
Tancredo Neves, ao lado de Dona Risoleta, é empossado presidente por Ulysses Guimarães (1985).

Não estou aqui para defender ninguém. Lugar de corrupto é na cadeia, e com os direitos políticos cassados.

Deixem-me ser mais clara: todos os corruptos, todos os direitos cassados.

Agora voltando um pouco para trás. Meu avô era amigo de Tancredo Neves. Os dois tomavam seu cafezinho do dia juntos, em pé, junto ao balcão do Café Pérola em Belo Horizonte. Tancredo fez um discurso na inauguração das novas instalações da loja do meu avô, a Sibéria Modas, e meu irmão tem até hoje essa gravação. Uma de minhas memórias mais caras vem de quando, certa vez, ainda pequena, embarquei sozinha para o Rio, onde passaria férias com a minha tia, e meu avô pediu a Tancredo, que estava no avião, para tomar conta de mim. Ficou registrado na minha história como uma espécie de “avô honorário”.

Meu avô nunca pagou propina para ninguém. Imigrante, vindo aos 18 anos da Palestina sem nem um tostão, venceu na vida por esforço próprio. Tancredo não sei se jamais recebeu propina, mas tendo morrido antes de assumir o que teria sido a primeira presidência pós-militar, tornou-se um ícone da lisura democrática. Em seguida, como o Brasil é um país onde desgraça pouca é bobagem, a presidência caiu como uma jaca podre no colo de José Sarney. Não foi o começo nem o fim do nosso triste destino, apenas o prosseguimento. Talvez, se Tancredo tivesse vivido, hoje esse destino seria diferente.

Tais história trazem saudades de um Brasil  — e de uma política — mais inocente, onde não sei se haveriam tantas falcatruas, mas, felizmente, se existissem, a gente não saberia. A ignorância pode ser uma bênção.

Tancredo foi o último mineiro a (ser eleito para) presidir o Brasil, que ironia, por eleição indireta, como querem fazer agora. O mineiro de antigamente podia ser um matuto, mas trabalhava em silêncio e nunca perdia o trem. Mas  vendia. Vendia para paulista.

Hoje em dia está tudo mudado, e a atual geração política parece completamente perdida, ou melhor entregue à perdição. Nosso mineiro perdeu a vez, abriu a boca para quem não devia e ainda por cima foi pego com a boca na botija quando pedia dinheiro ao Batista, para que o povo, pensando que escolhia um presidente, juntasse mais um vagão ao danado do trem da corrupção. Hoje, o trem da política descarrilhou de vez.

Não acredito em vida após a morte. Já basta a dor de ter que viver esta vida. Mas Tancredo, onde estiver, estará desolado com os tresloucados atos de seu neto favorito.

Corrupção pode até fazer parte da nossa existência política, mas a burrice, francamente, é indesculpável. Pior: não tem remédio.

E com seus atos mal-ajambrados, grosseiramente praticados num Brasil já sendo reciclado pela Lava-Jato, Aécio provou que até pode não ser mais corrupto, talvez até por falta de oportunidade. Mas é muito, muito mais burro do que Lula. E isso é ainda mais difícil de aceitar.

Hoje é um dia de duplo luto. Tancredo Neves acaba de morrer pela segunda vez.

Foto Celio Azevedo/ Senado Federal

https://oglobo.globo.com/brasil/pf-prende-andrea-neves-irma-do-senador-aecio-neves-21356048

https://oglobo.globo.com/brasil/stf-determina-afastamento-de-aecio-neves-do-senado-21355955

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