Bumbuns

rosifotoÉ quase Carnaval. Muita gente já está com bolhas nos pés de tanto pular em blocos por toda a cidade, muita gente está virando noite nos barracões das Escolas de Samba, muita gente está comendo só batatas e claras de ovos, aperfeiçoando a musculatura a ser exibida na Sapucaí. Outros tantos estão trabalhando dobrado pra sair mais cedo na sexta, outros se adiantaram e, a essa hora, estão arrumando as malas dos carros para partir na madrugada da quinta. De todo jeito é uma folia.

É impossível escapar de todo à influência desses dias. Mesmo quem despreza a farra momesca e se interna em casa, num bairro tranquilo, afastado do turbilhão, pode ser surpreendido por uma nova banda, organizada de súbito, tocando bem alto velhas marchinhas, enquanto desfila desengonçadamente sob sua janela. E isso é bom. Pelo menos é melhor do que ouvir um carro passante com aparelhagem de som capaz de emitir graves em volume assustador, fazendo lembrar o começo de um terremoto.

Aconteceu comigo uma tarde dessas, as vidraças estremeciam, custei a entender o que ocorria. Esses pancadões são muito desagradáveis. Fico com pena dos moradores de regiões onde acontecem bailes funks. A uns quatro quilômetros de minha casa fica uma comunidade onde ocorrem esses eventos. Dependendo da direção do vento, posso ouvir a barulheira (me recuso a chamar aquilo de música). Baixinho, é claro, porém com nitidez suficiente para permitir o entendimento das letras, melhor, os dizeres (a lírica funqueira). Depois de muito imaginar o sofrimento dos trabalhadores residentes por lá, de ouvir muita coisa de mau gosto e muitas más notícias a respeito desse tipo de festa, passei a odiar o funk. Ao contrário do samba, que continuo amando.

Sempre renovado, swingado, com a pressa de São Paulo, com o molejo dos baianos, com os encantos maranhenses ou com a malícia carioca, ele tem história, nomes, sobrenomes, luta e glória, cadência, malemolência e poesia. Quem não conhece ao menos um samba-enredo grandioso em verso e melodia? O samba é muito bom.

Entretanto, o Carnaval não se prende a ele. Tem frevo, marchinha, axé, tanto riso (quanta alegria!), mascarados coloridos, piratas desarmados, clóvis batendo um bolão, melindrosas, havaianas, palhaços. Um ritual catártico, uma trégua na censura, um momento para dançar e cantar nas ruas. Momento para, assumidamente, ver e ser visto.

Reparem que os olhares vão, com igual volúpia, das saias girantes das baianas ao fio dental da cabrocha, das mãos do ritmista sangrando sobre o surdo aos requebros da Madrinha da Bateria, das pernas torneadas da passista de frevo aos pés quase alados do Mestre-Sala, da pesadíssima fantasia de luxo ao corpo (só) pintado da moça dançando na televisão. Tudo ganha um realce sensualíssimo, esbarrando no erotismo aqui e ali, tocando as fronteiras do reino e Baco, e voltando a ser só balé, brincadeira, folia.

A exceção desse banho bacante fica nos bailes e desfiles infantis. Alguém aí já assistiu a passagem das escolas-mirins? Os mais crescidinhos treinando para passista, ou mestre-sala, ou porta-bandeira, e os pequeninos aprendendo os passos básicos, às vezes de mãos dadas com os pais, às vezes de chupeta e dizendo no pé, muitas vezes exibindo bumbunzões resultantes do enchimento das fraldas. Que tal? Pampers sassaricando na Sapucaí. Adoro. Ei, não vá pensando que adoro qualquer bumbum. O do funk, como disse, em geral é encavalado, repetitivo, agressivo, um convite à baixeza, um pulso bestial. O do samba, quase sem exceções, é separado, sincopado, floreado com meneios e gentilezas, um convite ao apogeu, um pulso cadenciado. Com paradinha. É bum e bum, depois paticumbum, prugurundum. Uma riqueza.

Sim, o Carnaval e sua beleza têm todo tipo de bumbum. Cada um escolha o de seu agrado, lembrando que é tudo brincadeira. Quem tentar a sério pode se dar mal. Eu fico com o do samba, sou tiete. Tenham todos um bom descanso, ou bom cansaço, com serpentina e confete. Até quarta, digo, quinta-feira.

 

 

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4 Resultados

  1. Rôsi Moura disse:

    Eu também não sei. Você é do meu bloco. Obrigada.

  2. mannachado disse:

    Para mim o carnaval foi sempre “impossivel”, mas ate hoje, quando todos dormem na casa eu fico la, na TV assistindo tudo e adorando…..nao sei porque tem gente que nao gosta ….

  3. Muito bom, Rosimere, tenho um colega de trabalho, o Otavio Avancini , filho do Avancini ja falecido da Globo, que vem trabalhando duro com a criançada para desfilar no Sambodromo – Os Pimpolhos – quem puder não deixe de assistir.

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