Borders* nunca mais

Tudo deu certo. As lojas da Livraria Cultura abrem hoje em São Paulo com um acréscimo absurdo de quase um milhão de produtos, é isso mesmo, 30% a mais do que seu acervo “normal” de títulos, atenção: é a Cultura dando o pulo do gato da era (do livro) digital, gente.

E para isso, não foi necessário alugar nenhum andar adicional, nem sacrificar quase nada de seu espaço tradicional, mas, sim, bem ao jeito do brasileiro quando encontra uma solução excepcional — aquele pessoalzinho que a gente sempre vê em segundo plano quando a questão é alguma invenção genial, mas que, peraí, de vez em quando encontra o caminho simples, mas crucial, para algum problema internacional, o motor a álcool, por exemplo. Sim, é oficial: foi o Brasil que inventou o combustível de cana e depois evoluiu, em 1990, para os bicombustíveis que hoje comandam o mercado global.

A solução era simples, elegante, como dizem os cientistas: tratava-se de um tanquezinho adicional com um pouco de gasolina para a partida a frio, e pronto.

Pois a solução encontrada pela Livraria Cultura para o problema do mercado livreiro tradicional é quase tão simples e elegante quanto. Tanto que, quando a vi pela primeira vez, pensei, mas que bobagem! No entanto, à medida que fui refletindo sobre o assunto duas ou três horas depois, o efeito foi imediato: passei a noite em claro pensando, vislumbrando onde aquilo poderia chegar. E chega hoje.

Porque, meus amigos, tudo bem que a questão final para o desempenho comercial dos ebooks é a existência de um aparelho barato, eficiente e fácil de usar, algo que na verdade ninguém precisa “especular”, pesquisar, sabem como é; tão automático quanto… ler um livro. Mas disso, tem muita gente no mercado querendo se encarregar. São cada vez mais tablets, smartphones e outras invenções, cada vez mais acessíveis, e o software ideal também não deve demorar: depois que a Google engoliu a Motorola sem mastigar, trata-se apenas de uma questão de tempo, pouco tempo. E muito dinheiro, claro, dinheiro deles lá. Devo confessar que embora kindlemaníaca de carteirinha, a experiência de ler um ebook no Galaxy  (Android 2.2) me deu o que pensar, francamente. É muito atraente.

Agora, o que ninguém parou para analisar é que o magnetismo real de uma livraria colorida, sensorial, onde permanece a experiência imperdível de sair de casa, tomar um expresso, encontrar um amigo e explorar as prateleiras entupidas para encontrar algo que nos interesse… ainda enternece a grande maioria das pessoas. Duvida? Vá até a Livraria Cultura do Conjunto Nacional numa prosaica tarde de quarta-feira.

E como juntar esse potencial todo com a maravilhosa revolução digital? Como evitar o desmoronamento da vida real, como ocorreu com a Borders e outras gigantes do mercado internacional?

A Cultura olhou. E viu. E veio com uma solução à altura do tanquezinho de gasolina adicional, o Cultura Ebook Card (ainda nem sei se o nome oficial é este) que deve estar hoje mesmo nas lojas paulistas e na aguardada inauguração da Cultura do Fashion Mall, no Rio de Janeiro (dia importante, hein…), e a partir de setembro em todas as 12 lojas da rede, uma gigante nacional, compare nesta análise de Veja.

E nós, da KBR, com isso? Bem, já dizia o já saudoso Steve Jobs que “criatividade é simplesmente conectar coisas”. Então, a gente foi mais um passo à frente: a Cultura veio com o tanque e a gente foi com o “bicombustível”, se é que vocês me entendem: criamos o primeiro cartão KBR/ Cultura que permite ao leitor não somente encontrar e comprar o ebook nas lojas físicas da rede, como também… folheá-lo, perscrutar seu conteúdo, decidir sobre a compra através de um simples QR Code. Assim, meus amigos, avança o mundo digital, restrito a uns 2% do mercado livreiro nacional, pela riqueza da mídia tradicional. Vamos pegar os outros 98% a unha e cooptá-los no nosso mágico mundo misterioso: o do leitor digital. É ou não é a eliminação de todas as fronteiras*?

Bem, e pra você aí que ainda não entendeu direito, acha que precisa de alguma boa explicação pra fazer uso da novidade, vai um conselho: experimente esta tarde ir pessoalmente à Livraria Cultura, no Rio e em São Paulo, amanhã ou depois aí na sua cidade. É a verdadeira revolução do livro.

* pra quem não domina o idioma inglês, desculpem, mas não consegui evitar o trocadilho: “borders” quer dizer “fronteiras”, e é também o nome, como todo mundo sabe, de uma das maiores redes livreiras dos Estados Unidos, que não soube se adaptar à nova realidade digital e fechou suas portas há pouco mais de um mês, derrubada, quem sabe, pela pujança da Amazon: faltou o jeitinho brasileiro pra eles, não é mesmo?

 

3 comentários em “Borders* nunca mais

  • 02/09/2011 em 08:31
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    Magno, minha proposta não foi comparar a Cultura com o fracasso da Borders, longe disso, mas fazer uma brincadeira com o tema “borders”, fronteiras, para mostrar que nós, no Brasil, estamos eliminando as fronteiras entre o real e o digital quando se trata de comercializar livros. Superaremos os 2% em muito breve!
    Rosângela, obrigada! Prazer em tê-la conosco, viu!

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  • 31/08/2011 em 22:58
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    Noga,

    Prefiro comparar a Livraria Cultura com um exemplo de sucesso: o da Barnes & Noble. Uma livraria tradicional que conseguiu superar a crise que se aproximava com o lançamento do leitor de ebooks próprio, o Nook.

    É verdade que nem tudo foram flores, pois filiais foram fechadas e empregos foram perdidos, mas a empresa superou uma grande crise e consolidou um catálogo invejável de livros eletrônicos.

    Agora, só falta ser comercializado no país um ereader com um preço mais acessível – justo mesmo – para superarmos os 2%.

    Abraços!

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  • 31/08/2011 em 11:11
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    Noga, não posso deixar de falar sobre o incrível trabalho que você está fazendo. Parabéns! Não vejo uma iniciativa desse porte há tempos! Continue, continue! Conte comigo para o que der e vier.

    Beijo,

    Rosângela
    P.S. Talvez eu não possa ir hoje ao Fashion Mall. Mas certamente termos outras oportunidades de nos encontrar ao vivo.

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