mordida

O lado perverso da maçã

“Aniceto, para alguns o maior partideiro de todos os tempos, tinha por hábito esboçar o refrão e algumas rimas essenciais do tema a ser desenvolvido de improviso (o nome da dama a ser homenageada, por exemplo) no lado branco do papel do maço de cigarros da marca que ele fumava, ‘Hollywood’”, conta Spirito Santo no instigante samba, ops, livro sobre o samba, que estou editando. O que me remete à estratificação social engendrada (ui! contaminada!) pela marca de cigarro que a gente fumava, é, fumei sim, mas, peraí: naquela época todo mundo fumava, a não ser quem não se importava com a imagem divulgada.

Eu fumava Charm, branco e fino, pacote dourado, alternado em ocasiões mais marcantes com o More, marronzinho, pacote vermelho, picante e fino também, um charuto de “lady” numa época saudosa em que damas educadas não arriscavam seu charuto em público, sabem como é. Enturmada. Finória. Sempre odiei os mentolados, favoritos da minha melhor amiga (em nome de um hálito de fumante disfarçado?), mas já não lembro o nome deles. Quanto ao Hollywood, se não me falha a memória (sim, ela falha), era o cigarro das pessoas mais intrigantes, vanguardistas, dadas a atitudes e emoções mais fortes e afirmativas, dentre elas a maioria dos artistas, com certeza aí incluído o partido alto dos sambistas.

Pois é. Para estar por dentro, naqueles idos dolentes de 1980, a gente tinha essa ampla gama de vícios bacanas querendo emitir sinais de fumaça para a tribo, se é que vocês me entendem. O que a gente não sabia, porque no tema então pouco se tocava, é que estava na realidade ficando doente por dentro. No outro dia, por exemplo, o cardiologista do Alan (sim, ele agora tem um…) afirmou que ele tem um “eletro” de ex-fumante — e olhem que Alan nunca fumou, pelo menos é o que ele me contou (com exceção dos poucos cigarros comprados a um real cada do porteiro do nosso prédio no Alto Leblon, quando a falta de comunicação generalizada se tornava ainda mais braba) —, mas quem, na nossa geração, não tem?

Hoje em dia só fuma quem passa por cima da própria consciência de suas condições de saúde, e acabou-se a história, mas por que falar sobre isso agora?

É que, de certa maneira — percebi faz pouco —, a eterna vontade de ser parte de alguma tribo — e cultuar as mesmas marcas, isto é, ser como todo mundo — continua a mesma, mas os sinais de fumaça, quanta diferença! Nossas caixinhas da hora incluem voz, contato e movimento; e ainda permitem ao feliz usuário anotar com presteza (e sem precisar de caneta) o que lhe vier à cabeça, espalhando na mesma hora entre todos os amigos, que maço de cigarro que nada. Afinal de contas, com o dinheiro poupado do que deixamos de fumar diariamente dá até pra comprar um bom smartphone, embora eu hoje não faça a menor ideia do preço dos cigarros, vamos combinar. Mas me lembro de ter parado de comprá-los, definitivamente, na Londres de 1987, onde fumar custava um bocado caro: ou eu comprava cigarros ou ia ao cinema, sabem como é. Fui. Me safei.

Já com os smartphones, não tive a mesma sorte. Pensei, pensei, hesitei… mas acabei passando por cima deles pra me entregar mais in-te-gra-da-men-te ao vício da mobilidade crescente: em vez de um caro celular inteligente, comprei logo um tablet com câmera, computador, telefone e leitor de livros numa única embalagem fina e atraente, embora ainda não saiba muito bem o que fazer com ela nesta vida empolgante, tela brilhante, intoxicada de tecnologia dispersante, digo. Mais ou menos como fumar sem tragar como eu fazia antes, cá entre nós que (d)isso ninguém (dá) conta.

Pois hoje em dia, o sinal mais impactante de que a gente é alguém na vida é a marca do tablet na mesa do restaurante, é ou não é? E neste ponto, confesso, tentei escapar ao assédio da maioria pensante e não comprei um iPad, mas um Galaxy tab. Mais ou menos como a escolha do cigarro na minha época de adolescente, meio às cegas, tentando adotar a tendência do que vem mais à frente.

O que me leva afinal e já não era sem tempo, francamente, ao assunto que escolhi meio inconsciente, bem lá no fundinho adormecido da minha mente, para a crônica deste domingo, o primeiro de nossas vidas sem Steve Jobs onipresente. Pois embora eu não seja applemaníaca, definitivamente (nunca nada foi tão definitivo, muito menos ultimamente), reconheço com toda a certeza o indispensável papel de Mr. Trabalhos na criação dos produtos — completamente diferentes — que deram formato à vida moderna da gente, meu aplicativo de ebooks inclusive, porque, cá entre nós, ainda que eu seja uma kindlerista de carteirinha, ler um digital touch screen num tablet novinho desses, e no formato epub ainda por cima (à venda em todas as demais livrarias, descontada a Amazon) vem me parecendo uma sensação como… ah. Melhor deixar pra lá.

Só me resta desejar ao querido Steve uma prolífica sobrevivência sem tanto trabalho para atrapalhar, porque quando se vislumbra o que mais importa nesta vida é de lei não restar muita vida para se vislumbrar, não é mesmo? Ops. Desculpem aí. E pra terminar, devo lembrar que nunca, mas nunca mesmo valeu tanto a pena aquela mordida, apaixonada e proibida, no fruto apaixonante de nosso cérebro inteligente: seria o paraíso do pleno conhecimento este ponto que conseguimos alcançar?

E um bom domingo procês, na cama, na rede, em qualquer lugar, no éden contagiante onde a gente puder se conectar, consumidos até o caroço, com casca e tudo. Falei.

 

3 comentários sobre “O lado perverso da maçã

  1. Noga
    Eu fumava Hollywood,e era muito bom!Junto com um copo de cerveja em copo lagoinha,decidindo o futuro do país nos bares da vida.Gostei muito!
    Bjo,
    Gustavo.

  2. Eu fui de Continental sem filtro e Luis XV (aos 12, 13 anos) até Carlton e Minister, passando pelo inevitável Hollywood (com filtro). Mas parei com essa onda fumaçenta há mais de vinte anos, pra conservar minha bela voz…. Não sei se fui feliz, mas tentei.

Os comentários estão encerrados.