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O consciente coletivo

Se tem uma coisa que me interessou, e está me interessando, nessa biografia autorizada de Steve Jobs que estou lendo, não é, certamente, a bipolaridade mais amplamente festejada das várias últimas gerações — pois é, imaginem, com toda a propagada prepotência, o guru da era conectada permitiu a uma terceira parte interessada mostrar ao mundo quem realmente era a mente por trás da pecaminosa mordida do conhecimento, isto é, da maçã, já sem a carga do pecado —, um merda ou um gênio? E a que preço?

A gente descobre, depois de algumas poucas páginas tediosas recheadas de detalhes para geeks que parecem não terminar nunca — merda, mais um travessão: Jobs não era exatamente um versado em tecnologia, mas um gênio da mercadologia, marketing, para os íntimos, ao contrário de Bill Gates, um nerd típico cujo maior defeito é nunca ter se drogado realmente, digo, nunca ter deixado a consciência esvair-se num patamar mais elevado do que normalmente (é o que eles dizem) —, que se trata na verdade da história empolgante de como uma mente delirante, ao decidir apagar do entorno de si qualquer detalhe prejudicial ao seu projeto mirabolante, por mais concreto que este impasse seja, consegue mesmo materializar o que antes existia somente em seu mundo imaginário, é isso aí.

Todos vocês, nós, de acordo com Jobs, ao incorporar nosso cotidiano à tecnologia que ele nos impôs (e não o contrário) — merda, mais um travessão: impôs porque a gente quis, claro, e viu que era bom — passamos a participar, com vontade ou sem, sabendo ou não, da consciência ampliada antes só franqueada aos tomadores de LSD.

Jobs, pasmem, não criou seu projeto enfurnado numa sala qualquer de uma faculdade, sequer, faculdade mental, merda, mais um travessão — se a gente for por aí, acaba descobrindo que em pelo menos um detalhe os gênios por trás de nossa era conectada concordaram, em gênero, número e (colação de) grau: deixaram pelo meio a universidade, um tédio para sua capacidade, instituição ancestral em pleno processo de demolição social que eles mesmos se encarregaram de tornar mais ultrapassada ainda, imaginem se isso chega à garotada, adeus, Enem —, nem mesmo numa garagem entulhada — fase bem divulgada, mas que durou bem pouco —, mas em ashrams de meditação, no Oregon ou na Índia, pouco importa aonde, que na verdade não passavam de corrupta empulhação: Steve vivia mesmo em sua própria criação, e não deveríamos todos?

O que me fascinou de verdade foi Jobs ter se colocado na fronteira entre a tecnologia e a humanidade: um artista, segundo ele mesmo, quase como meu marido Alan, merda, outro travessão — como vocês já sabem um escritor que não escreve, um cartunista que não desenha, um escultor que não esculpe, um mímico que não gesticula, e, pior, um empresário magnata que não faz nenhum dinheiro, bem, vamos combinar que neste último quesito a comparação com Jobs tende a fracassar —, americano como ele e como ele um “free spirit” difícil de se aturar, com a diferença que Jobs soube muito bem se fazer acreditar e, com isso, amealhou capital suficiente para se estabelecer. Cada qual com seu carma, fazer o quê, como diz uma amiga minha a gente é que escolhe com que grau de sofrimento se dispõe a viver, isso, claro, numa esfera divina à qual um dia se pretende ascender.

Já se fosse eu a me comparar ao Steve, vocês me entendem, a gente só gosta mesmo de um livro se conseguir comparar-se ao personagem crucial, merda, mais um — fora eu também pretender me posicionar nesta dúbia transição entre arte e tecnologia, no meu caso, como vocês sabem, entre o suporte (ebook x livro) e seu conteúdo (literatura x qualquer outra porcaria) —, o que temos em comum seria pouco mais do que o intrigante tom laranja da pele que eu exibia quando Alan me conheceu, proporcionado por dietas malucas e um desproporcional teor de betacaroteno, além, é claro, da férrea vontade adolescente de encontrar para esta vida um desígnio superior, que para mim acabou em nada, mas, para Jobs, em incorporar-se como o próprio Criador.

Resta como conclusão uma bela receita de como vencer na vida, mais uma, com um tremendo esforço e algum reforço, merda, mais — o tremendo esforço daqueles que você convence, caso tenha mesmo a Força, a embarcar contigo na mesma alucinação inovadora, onde apenas a dúvida questionadora tem o poder de atravessar seu impulso irresistível para produzir uma grande coisa, envolvente, óbvia e comovente, tão intuitiva e sem complexidade aparente como parece ser a própria natureza.

Pena que esta simplicidade conivente, pelo que pude tocar e experimentar até o momento presente, ainda esteja um pouco longe de ser incorporada aos nossos neurônios automaticamente, merda — com um dendrito que seja preso aos hábitos analógicos de antigamente. Chegaremos lá.

O que há de genial nisso tudo não foi Jobs quem criou. Fomos nós todos, creiam, cá entre nós que ninguém nos diminua, pois o que seria do fio se não fosse a eletricidade? O que seria da conexão se não fosse o conteúdo propagado? E, pra completar, como o Alan diria… o que seria da nossa geração se não fosse a bateria?

Bem. Uma coisa é certa, isto é, de uma coisa Jung estava certo: existe, sim, uma mente coletiva, um arquétipo que excede hoje em dia a nossa vã tecnologia, embora por ela tenha sido elevado a uma nova categoria — a de seres conscientes deste coletivo imponente, que faz da nossa humanidade um todo integrado, contagiante e infestado de consumo, de um desejo insatisfeito que a todos contamina.

O que não existe, a gente inventa, digo, sempre haverá alguém que o invente pra gente, como diria Deus, ops, Jobs. E um bom domingo procês.

P.S. – depois que terminei a crônica, Alan me lembrou de tantas idiossincrasias de Jobs que não mencionei, pô, merda, mais um, juro que é o último travessão — nada como multiplicar 2547 por 745398 em um segundo e sem calculadora, mas, isso sim, como a mania de andar descalço e de reduzir ao mínimo impossível o hábito de tomar banho, ou de tentar hipnotizar quem atravessasse o seu caminho com um mero olhar —, que acho melhor, francamente, vocês lerem o livro. Está em todas as livrarias, e não se deixem enganar por tanta gente querendo tirar sua casquinha: o legítimo e autorizado foi escrito por Walter Isaacson, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Denise Bottmann, uma fera.

Ah, e só mais uma coisinha, é tanto assunto que já não consigo dar expediente na cozinha, e depois, prometo que libero vocês para os poucos minutinhos de lazer no domingo, afinal de contas, somos todos filhos de Jobs, fazer o quê: Alan me conta que leu em algum lugar que as últimas palavras do homem foram exatamente as mesmas primeiras que nosso filho David — nosso é licença poética, claro, mas o amor é (quase) o mesmo — disse neste mundão de Deus, quando se viu humano na praia de Waikiki, no Havaí: “Oh, uau!”

 

3 comentários sobre “O consciente coletivo

  1. olá, noga: uma das resenhas mais simpáticas que li até agora :-))
    complementando: berilo vargas e pedro maia soares tb participaram da tradução (foi dividida entre nós, fiz dezessete capítulos).
    o interessante é tb que o isaacson esteve escrevendo a bio até setembro. ainda mais depois da saída de jobs da apple, em final de agosto, ele continuou a atualizar o material e a enviar para a editora americana, que remetia imediatamente para a editora aqui. foi um trabalho de tradução acompanhando quase em tempo real a redação de uma biografia cujo final tb foi escrito acompanhando quase em tempo real da vida do biografado.

    abraço,
    denise

    1. Obrigada, Denise! Muito interessante saber sobre o processo da tradução! E parabéns por seu trabalho! Bjs

  2. Gostei. O texto sobre a biografia ficou excelente. Ele apropriou o inconsciente coletivo sim e soube muito bem ganhar dinheiro. Só não soube cuidar da própria vida – demorou muito para se tocar que não era o deus que imaginava – se é que chegou a esta conclusão. Comecei a ler agora.

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