Os malefícios da fumacinha

"Jardim das delícias", tríptico de Hieronymus Bosch (detalhe). (1503-1515)
“Jardim das delícias”, tríptico de Hieronymus Bosch (detalhe). (1503-1515)

A não ser pelo fato de possuir um crematório, a cidade não era diferente de qualquer outra de igual porte.

Grande, quadrado, de cor escura, sóbria, o crematório se constituiu até em atração turística, para gáudio geral dos moradores.

Contudo, depois de um mês, após a azáfama da inauguração, tanto o lúgubre edifício quanto os forasteiros passaram a ser encarados com serena indiferença, incorporados à paisagem como se a ela sempre tivessem pertencido.

E todos voltaram às suas vidas normais, com a serenidade e a confiança de que nada mais se alteraria, entregues a seus fazeres, iguais, imutáveis.

Foi quando começaram a correr à boca pequena rumores que, no início, não mais que hilaridade provocaram. Como surgiram, logo desapareceriam, caso não tivessem chegado, em letras garrafais, à primeira página do mais lido jornal da cidade. Sob o título “O ultimato”, afirmava: as almas dos corpos incinerados tinham aparecido nos terrenos do antigo cemitério. Revoltadas, diziam-se vítimas de inaceitável injustiça. A fumacinha das incinerações era sempre igual, branca, o que causava a ilusão de que no além todas as almas eram também assim, brancas, iguais. Nada mais falso, pois do lado de lá continuavam a ostentar as mesmas diferenças ostentadas do lado de cá. Urgia, portanto, dar fim a tão revoltante igualdade, mantendo-se fixa apenas a fumacinha branca, identificadora dos ricos e poderosos. Davam o prazo de vinte e quatro horas para as mudanças. Caso não fossem feitas, a cidade sofreria castigo indizível.

A rádio local também deu destaque ao assunto, entrevistando os que juravam de pés juntos ter visto e ouvido as almas, assim como os representantes dos vários grupos divergentes que a partir daí se formaram. Ninguém se preocupou sequer em especular sobre qual o castigo prometido.

A primeira querela se fez em torno das cores. Como, à exceção da branca, as outras não tinham sido definidas, os esquerdistas resolveram apossar-se do vermelho. Pretendiam substituir a cor branca, insuportável ostentação dos ricos e poderosos. Divergências, porém, surgiram quanto à tonalidade. Os estalinistas preferiam vermelho rubro, com o que não concordaram os trotskistas, enquanto os leninistas levantaram a suspeição de que as almas não passavam de agentes do imperialismo ianque-judaico-internacional, enviados para desorientar e enfraquecer o operariado. Acalorou-se a arenga a tal ponto que preferiram deixar a vontade histórica perfazer-se através das forças dialéticas, o que significava darem-se aos pescoções. E as ruas e ruelas se tingiram com o fogoso sangue dos fogosos filhos de Marx.

Outra polêmica se pôs no campo religioso. O padre julgou de todo descabida a afirmativa da desigualdade das almas. Eram seres sem consistência, portanto, gasosos. Ora, ipso facto, tal estado lhes conferia absoluta igualdade. Isso, quanto ao aspecto físico. Quanto ao moral, a desigualdade se dava porque as almas estavam ainda em estado probatório, à espera do devido encaminhamento para o purgatório. Nisso divergiu o pastor. Citou Lutero, segundo o qual o purgatório não passava de pecaminoso ardil há muito criado pela Igreja a fim de angariar fundos para o término da construção da Igreja de São Pedro, em Roma.

O padre se descabelou, e os ânimos estavam a ponto de se porem irremediavelmente azedos quando Pai Nhonhô cafungou três vezes e afirmou ter incorporado o Caboclo Sete Fechas, que lhe garantiu: as almas do crematório estavam possuídas por espíritos inferiores. Através delas, se manifestavam infernando a cidade. Era preciso exorcizá-los. Mas quem na cidade teria atraído espíritos tão malignos? Sem dúvida, os judeus, carregadores eternos da culpa por terem morto Nosso Senhor Jesus Cristo, garantiu o padre. Então, com ele, o pastor e o pai de santo à frente, organizou-se sem delongas um pogrom. E a turba malta enfurecida lançou-se à cata da meia dúzia de judeus da cidade. Iam corrê-los a pau e saquear-lhes as casas, o que, no dizer do padre, seria butim muito bem-vindo à Santa Madre. Chegasse intacto à paróquia, todos teriam seus pecados perdoados, que o bom Deus, desde o primeiro momento a acompanhá-los naquela cruzada santa, com divina bondade assim obraria.

Na Câmara, os edis se puseram indignados ao extremo com o caráter antidemocrático do ultimato, sob seus aspectos intrínseco e extrínseco. Intrinsecamente, atentavam contra a democracia no direito inalienável de o cidadão expelir a fumacinha que bem entendesse. Sob o aspecto extrínseco, o atentatório mais se acentuava. Era inteiramente descabida a exigência da manutenção ou abstenção dessa ou daquela cor, em que tonalidade fosse. As cores, e mister se fazia compreender, não dependiam da qualidade dos materiais incinerados. A cor devia ser à fumacinha acrescida.

Ora, tal acréscimo dependia de recursos técnicos muito além dos recursos atuais disponíveis. Para se obtê-los, imprescindível se fazia contratar empresas capacitadas para tal. Evidente que recursos deviam ser alocados para o fim colimado. O principal consistia na criação de um novo tributo, o Imposto da Fumacinha. Aprovada a matéria, já se preparavam para discutir outra quando gritos, berros de dor e guinchos se ouviram no plenário. Ratazanas enormes como pequenos leitões, olhos injetados, dentuças, a tudo devoravam: homens, mulheres, móveis, lápis, lapiseiras, apontadores. Dezenas no início, logo milhares, mar de ondas enlouquecidas, além das vítimas, caçadas em todos os gabinetes, salas, saletas, vãos de escada, também se entredevoravam, insaciáveis, aos grunhidos, altos, ensandecedores.

Esbaforida, enlouquecida, exangue, uma das vítimas conseguiu arrastar-se para fora. Na rua, viu-se diante do crematório. Pela chaminé, pequena fumacinha subiu pelos ares, foi subindo, subindo até se transformar numa pombinha branca fumacê. Pairou breve instante sobre a cidade, desapareceu por entre as trevas da noite que já se avizinhava.

 

Memórias secretas

RememberEssa é a última história que podemos contar sobre o Holocausto com sobreviventes e perpetradores do genocídio ainda vivos. Daqui a uns cinco anos, quando todos estiverem mortos, Memórias secretas se tornará um filme de época.

Atom Egoyan

 

Passados pouco mais de setenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial, ainda somos surpreendidos com histórias decorrentes daquela terrível fase da humanidade, como no caso do novo longa do diretor armênio-canadense Atom Egoyan, Memórias secretas [Remember]. Estamos diante de um impactante drama ficcional, em que a questão das feridas deixadas pelo nazismo serve, na verdade, como mote para um confronto doloroso de ideologias, numa complexa trama de vingança, enriquecida pelo suspense a la Hitchcock, por conta do criativo e premiado roteiro do estreante Benjamin August.

Atom Egoyan, o diretor de cinema independente de nacionalidade canadense, nascido no Egito de pais armênios, é conhecido por explorar os temas da alienação e do isolamento. Também levou às telas as agruras do genocídio armênio, com o filme Ararat, de 2002. Sua maior projeção no meio cinematográfico, no entanto, ocorreu com O doce amanhã, premiado com o Grande Prêmio do Júri e o da Imprensa, além da indicação à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1997, e considerado um dos dez melhores filmes canadenses de todos os tempos, que ainda lhe rendeu indicações ao Oscar de Melhor Direção e de Melhor Roteiro Adaptado.

Por conta da brutalidade generalizada da Segunda Guerra, é razoável supor que na memória dos sobreviventes, seus familiares e amigos, os personagens e suas histórias tenham se tornado recordações dolorosas e indeléveis. E são essas lembranças que movem os personagens de Memórias Secretas, os sobreviventes de Auschwitz Max Zucker (Martin Landau) e Zev Guttman (Christopher Plummer), moradores de um asilo para idosos em Nova York.

Mesmo com tantos fatos e versões do conflito mundial contados e recontados pelos cineastas desde então, o roteiro de Benjamin August inova, sai do lugar comum, nos apresenta uma espécie de “thriller”, bem diferente dos conhecidos filmes de guerra. Para começo de conversa, não mostra nem a frente de batalha, muito menos os campos de concentração. Também não exibe o sofrimento imposto aos prisioneiros antes, durante ou depois da guerra, nem as manhas e artimanhas dos espiões ou dos heróis no front.

Quando Max acredita que descobriu a identidade do comandante nazista que torturou e matou as famílias de ambos, um pacto surge entre os idosos, e Zev é transformado em justiceiro de um plano para localizar e eliminar o tal comandante, que vive sob um nome falso em algum lugar dos EUA.

O fato de ambos serem idosos, na verdade bem idosos, por si só seria motivo suficiente para questionarmos a viabilidade do tal plano. E é esta questão, a vulnerabilidade do protagonista, que cria uma grande empatia com o público. Ocorre que, além disso, Zev sofre de demência, acabou de perder a esposa, tem lapsos de memória e precisa rever, volta e meia, uma carta escrita por Max com as instruções do tal plano. De Max, nem se fale. Está numa cadeira de rodas e precisa, todo o tempo, de um tubo de oxigênio por perto. Pronto! Temos um conflito e tanto. Mãos à obra, ou, luz, câmera, ação!

Com esses ingredientes, há quem imagine tratar-se de uma farsa, quiça uma total impossibilidade real. Como seria possível unir um paraplégico, um demente e um plano de vingança? Pois é, ele funciona, e fica a cada cena mais interessante. O melhor do roteiro se esconde em cada nova descoberta, não só de Zev, como nas nossas próprias, movidos pela angústia de perceber como a falta de memória pode impactar a vida das pessoas. E ali, sob os acordes de Mendelssohn e Wagner ou da trilha sonora do compositor canadense Mychael Danna, parceiro constante de Atom Egoyan, há um confronto de identidades, de valores, de utopias e ideologias.

O destaque do longa é sem dúvida Christopher Plummer, ator canadense de 86 anos, premiado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2012 por Beginners (Toda forma de Amor), além de vários outros prêmios, entre os quais dois Emmys, dois Tonys, um Globo de Ouro e um BAFTA. Sua atuação em Memórias secretas confere verossimilhança ao personagem, tornando crível, na verdade incrível, um nonagenário que busca vingança, que aparenta ser às vezes frágil, outras agressivo, incrédulo, inseguro. Em suma, perfeitamente humano, consideradas as condições atuais e as pregressas do personagem.

O passado e as memórias, ou a falta delas, são mais fortes que o presente e a realidade que se impõe? O roteiro tem muitas surpresas, algumas reviravoltas e dois grandes trunfos: a dualidade dos personagens e um final ao estilo Shakespeariano, sem heróis. Todos se equiparam na hora da vingança.

O título no original, Remember — “lembre-se”, numa tradução literal , serve tanto para Zev, seus familiares, amigos e companheiros do asilo, como para qualquer um que se identifique com as memórias daquele período sombrio. Somente um alienado teria possibilidade de confrontar e ser confrontado numa situação limite, trazendo à tona questões ultrapassadas, mas não esquecidas.

Terminamos com Fernando Pessoa: “A memória é a consciência inserida no tempo”.

O país da piada

O país da piadaCom essa avalanche de fatos políticos inusitados acontecendo, os humoristas não podem se queixar de falta de assunto.

Alguns episódios, se descritos numa obra de ficção, seriam inverossímeis. Nessas circunstâncias, é compreensível que estejamos sendo bombardeados por charges, textos, frases jocosas, trocadilhos, que se multiplicam na mídia e se espalham como um rastilho de pólvora. A cada novo capítulo da novela política, as redes sociais se enchem de coisas que nos fazem rir. No entanto, as pessoas só estão achando graça em piadas que atacam o vizinho, e a divulgação acaba restrita aos grupos que compartilham da mesma opinião.

A diferença entre humor e piada é óbvia. O humor critica, faz pensar, expõe mazelas, questiona, por vezes faz rir. A piada só faz rir.

O humor inteligente tem a capacidade de rir não apenas dos outros, mas também de si mesmo. A maioria das coisas engraçadas que circula atualmente são piadas que só servem para exacerbar as diferenças e, de certa forma, dificultar um diálogo muito necessário. Democracia envolve conviver com opiniões contrárias e ainda é, de longe, a melhor opção.

A boa notícia é constatar que existe plena liberdade de expressão; a má notícia é que existe muita gente dando mais importância à construção de piadas do que à discussão dos problemas que nos afligem.

Rir é bom, mas é preciso avaliar se não se está desperdiçando tempo e energia demais com bobagens, quando deveríamos estar ocupados em discutir projetos para o futuro do país.

Jogando com as Olimpíadas

2016_Summer_Olympics_logo.svgMeu sobrinho de 27 anos, um brilhante engenheiro que estudou na França e mora há alguns anos na Alemanha, vai voltar para casa em agosto, durante as Olimpíadas, já que se registrou como voluntário e foi aceito para trabalhar como motorista: um profissional de alto nível, com experiência internacional, estará à disposição de alguns atletas sortudos para levá-los a circular por uma das mais belas cidades do mundo.

Assim como ele, milhares de jovens brasileiros se registraram como voluntários, um sonho que começaram a alimentar quando, em 2009, o Brasil foi escolhido para abrigar os Jogos Olímpicos.

Era uma época de muito otimismo no Brasil. O PT estava no governo desde 2002, navegando numa onda (herdada) de estabilidade. Lula era assim, digamos, um tipo de ícone: um homem simples, vindo da classe trabalhadora, que, depois de uma vida de lutas, atingira o mais alto posto público no Brasil — um indiscutível herói da esquerda, reconhecido mundialmente. Obama o adorava, dizia que ele era “o cara”. Uma vitória das boas para um país de terceiro mundo que há pouco tempo estava sendo esmagado pelo peso de uma inflação descontrolada.

Parêntese: este texto foi escrito para a “galera internacional”. Se assim não fosse, estaria cheio de aspas irônicas, mas, como vocês sabem, se a gente quiser ser levada a sério no mundo precisa se comportar. Fim do parêntese.

Tínhamos levado também a Copa do Mundo de 2014, que deu até bem certo, por sinal, apesar dos muitos rumores e da crise política que na época já cobrava seu preço.

Desde então, essa crise piorou substancialmente, e atingiu seu ápice com a aprovação pelo Senado, na semana passada, do processo de impeachment contra Dilma Roussef, atualmente em seu segundo mandato depois de ter sido apontada por Lula para sucedê-lo em 2010, uma escolha desastrosa. Incapaz de governar após sua reeleição em 2014, com sérias suspeitas de contribuições ilegais para sua campanha, Dilma estava há meses praticamente ausente da cena pública, com exceção de seus discursos patéticos e sem sentido, que acabaram por transformá-la em objeto de piadas, algo que a imprensa internacional talvez ignore. Lula, por sua vez, está enfrentando sérias acusações de tráfico de influência, ocultação de patrimônio e falsidade ideológica.

É interessante lembrar que a solução para a nossa galopante inflação veio justamente depois que outro presidente foi impedido, em 1992, pela primeira vez na história brasileira. O impeachment, dizem os especialistas, é um instrumento para garantir a democracia num regime presidencialista, onde não há um primeiro-ministro para ser substituído. Sem isso, afirmam, a democracia poderia facilmente descambar para uma ditadura.

Pessoalmente, já enfrentei inúmeras crises econômicas no Brasil, e penei de verdade. Nos anos 1980, eu era uma empresária e designer bem conhecida, lutando contra uma inflação de 10 por cento. Por semana. Em 1990, logo depois da posse de Collor — o presidente que mais tarde foi impedido —, eu estava trabalhando como curadora de artes na Fundição Progresso, para quem não conhece um importante centro cultural no Rio de Janeiro que, na época, era totalmente dependente de verbas oficiais. E todos os programas culturais foram cancelados, literalmente, da noite para o dia.

Também “naveguei” na onda de estabilidade e progresso que se seguiu ao bem-sucedido “Plano Real”, quando uma moeda estável resolveu finalmente os nossos problemas. Mas apenas temporariamente, já que hoje em dia o Brasil está enfrentando uma forte recessão. Desta vez, devido à corrupção e má administração, pois é, o Brasil não facilita. Então, nesse novo momento, eu tinha decidido me dedicar a escrever e trabalhar como editora. Para quem ainda não sabe, fui a pioneira do livro digital no Brasil, a primeira editora brasileira a publicar um ebook em português na Amazon, muito antes de outras editoras ou outras livrarias online decidirem se arriscar no novo mercado, muito antes de a Amazon decidir abrir sua própria loja no país. Com uma ajudinha da minha parte, gosto de acreditar.

Foi nesse ponto que essa nova crise me apanhou. Eu tinha uma empresa que ia de vento em popa, totalmente operada através da internet; um catálogo com mais de 200 títulos publicados; e a linda casa que Alan e eu projetamos e construímos num paraíso no meio da Mata Atlântica, em Petrópolis. Estava muito preocupada. Nem a Copa do Mundo conseguiu me animar em nada. Tudo que eu queria era vender a nossa casa com algum lucro e me mudar para os Estados Unidos o mais rápido possível. Não conseguia me imaginar tendo que começar tudo de novo mais uma vez, mais uma vez por conta da incompetência e desonestidade do governo.

Agora que a presidente Dilma já foi impedida, a mídia internacional decidiu comprar a versão dela para os últimos acontecimentos, dando força ao argumento de que foi vítima de um “golpe”. Pois é. Pode até não haver uma acusação direta de corrupção contra ela, ou uma prova indiscutível de que cometeu algum crime. Mas, curiosamente, ao longo dos últimos anos Dona Dilma esteve em posições de poder que coincidiram em tempo e lugar com crimes sendo cometidos, como, por exemplo, em 2007, quando o escândalo de Pasadena transformou a escala de corrupção dentro da Petrobras. Dona Dilma, embora insistindo na teoria de que nada há para manchar sua “impoluta reputação”, era na época a chefe do Conselho da Petrobras, e como tal deveria aprovar qualquer investimento de monta da companhia estatal.

Enfim, não tenho a intenção nesta crônica de fazer uma lista das inúmeras razões pelas quais o Brasil estava certo ao impedi-la, ou enfatizar que todo o processo ocorreu 100% de acordo com as regras e respeitando não só a democracia, como as nossas instituições e a separação de poderes. Para nem mencionar que refletiu a vontade da grande maioria do povo brasileiro, aí incluídos muitos daqueles que votaram nela em 2014.

Devo confessar que não foi surpresa nenhuma para mim ler esta semana no New York Times uma discussão sugerindo que o Brasil deveria no mínimo adiar, provavelmente cancelar os iminentes Jogos Olímpicos. Por razões que não consigo entender, uma campanha contra nossos interesses foi lançada há alguns meses pelo próprio governo, durante a crise de Zika. Uma crise que, por falar nisso, foi em boa parte provocada pela incompetência desse mesmo governo no sentido de eliminar os focos do mosquito com medidas simples, mas efetivas, coisa que já fazemos há anos, desde que surgiram as sazonais epidemias de dengue, que, como todos sabemos, é transmitida pelo mesmo Aedes. A reação foi ruidosa e imediata. Todo  mundo começou a cogitar cancelar os Jogos, sem prestar atenção ao fato de que, no inverno do Rio, os mosquitos diminuem consideravelmente. Dificultando, portanto, a contaminação pelo vírus.

Na série de artigos do NYT o Brasil foi acusado, entre outras coisas, de ser bom em “ocultar os danos e mostrar sua face artificial”, o que, vamos combinar, é no mínimo injusto. Embora a nossa proposta para as Olimpíadas tenha sido ambiciosa, as obras estão sendo executadas, mesmo com toda a dificuldade e agitação política. A crise ainda persiste, mas estamos otimistas. Já estamos do “outro lado” de um dos maiores desafios que o país enfrentou durante a minha vida, e há uma firme disposição de fazer o melhor e dar tudo de nós. Restam ainda incontáveis problemas a serem resolvidos, mas pelo menos não temos mais a sensação de ter uma “gangue” no poder fazendo o que pode para manter seus privilégios, custe o que custar, com o dedicado apoio de um forte esquema de corrupção. Que, por sinal, está sendo desbaratado pela Polícia Federal (não se preocupem: na versão em inglês não chamei o PT de “gangue”, mas sim de “pity party”, um “partido que dá pena”).

Hoje, o Brasil e os brasileiros deveriam, isso sim, ter a seu dispor um amplo e generoso apoio internacional no sentido de fazer tudo o que estiver ao alcance de todos para fazer dessa Olimpíada um sucesso total. Muitos de nossos jovens, como o meu sobrinho, estão a postos. O Rio de Janeiro, que apesar dos pesares continua lindo, está se aprontando para o evento, que, no momento, é nossa melhor e mais imediata aposta para elevar um pouco a nossa moral, tão combalida nos últimos tempos, coitada. E uma campanha da mídia no sentido de prejudicar um projeto tão importante nos faria muito mal.

O fato é que nós, brasileiros, estamos orgulhosos demais da conta da maneira civilizada com que recuperamos o controle do nosso país, deixando intacta sua estrutura democrática. Esperamos que em agosto vocês venham compartilhar com a gente essa satisfação.

Análise preliminar de um governo que mal começou

singles112Acusado de usurpar o “trono” petista, Michel Temer recebeu uma herança maldita de proporções homéricas e, preso às amarras do presidencialismo de coalisão que ainda impera na pátria canarinha, montou um ministério estranho, digamos assim.

Ainda não é possível criticar um governo que começou há uma semana. Pelo menos me parece melhor esperar para ter elementos e fazer uma crítica mais embasada. No entanto, alguns sinais foram dados e valem uma análise. Por exemplo, a composição do Ministério: dos 23 ministros já nomeados pelo interino, pelo menos um terço teve papel de destaque nos governos petistas, e em alguns casos, foram de uma fidelidade canina a Dilma, no processo do impeachment ainda em andamento. Além disso, alguns ministros estão envolvidos na Operação Lava-Jato. Não houve, portanto, uma mudança realmente drástica, como a voz das ruas requeria. De qualquer forma, vamos dar ao presidente interino a chance de mostrar a que veio. Seu estilo de governar parece diferente, talvez não seja centralizador e nem faça dos ministros meros objetos decorativos — para usar uma expressão cara ao Temer —, úteis para cumprir formalidades, enquanto uma pequena cúpula governa. Mas disso só saberemos em alguns meses.

Outro sinal é a maneira como o interino enfrenta as dificuldades. Michel Temer está prestes a ceder à pressão dos “artistas” e ao “pedido” do presidente do Senado: talvez desista de fundir o Ministério da Cultura com o Ministério da Educação. Aliás, cultura e educação, vamos combinar, são irmãs siamesas. Francamente, não vi problema algum na fusão, tendo em vista que os instrumentos de financiamento, que realmente é o que interessa, não foram e não serão extintos.  O status de ministério pode dar a impressão de que a área é importante e valorizada. Isso é duvidoso, principalmente nesse momento de catarse política, em que a população clama pelo fim do aparelhamento da máquina pública, pelo corte do excesso de cargos de livre provimento e das “boquinhas” famintas na teta do Estado.

Falando em “boquinha”, a manifestação dos artistas brasileiros em Cannes, denunciando um suposto golpe em curso, trouxe à tona algo que, se investigado a fundo, poderá levar à comprovação de situações extravagantes durante os 14 anos de lulopetismo. O diretor do filme “Aquarius” tem um cargo público comissionado: é coordenador de cinema da Fundação Joaquim Nabuco. O filme que ele dirigiu teve financiamento público. Bom, vamos ver se entendemos: Kleber de Mendonça Filho é diretor de cinema em uma fundação do governo e recebeu financiamento público para seu filme, certo? É um flagrante e inaceitável conflito de interesses, em que o hipócrita se beneficia de sua atuação pública para favorecer seus interesses pessoais — uma conduta antirrepublicana, que foi aprofundada nos governos petistas, em todas as áreas.

Em entrevista à Folha de São Paulo, o diretor disse não temer retaliação por sua manifestação, pois vive numa democracia. Nisso ele está certo, mas parece bastante confuso. Se ele acredita na nossa democracia, como pode dizer que há um golpe em curso? Outra incoerência é o cineasta querer continuar trabalhando para um governo que ele considera golpista; uma pessoa coerente teria se demitido tão logo Dilma deixou o Planalto. Ele também se esqueceu de que não é servidor concursado e que, portanto, esse cargo pode ser destinado a outra pessoa que seja da confiança do atual governo, que pode optar, inclusive, por um servidor de carreira.

Outra clara sinalização das intenções do governo interino veio do novo chanceler, José Serra, a respeito da atuação da nossa diplomacia. A prioridade é que esta volte a refletir os interesses do país, e não de um partido político e de seus aliados externos. Testemunhamos, durante esses longos 14 anos, a desvalorização da diplomacia brasileira, que foi desde a inércia em algumas negociações (resultando nos piores acordos para o país) até o sucateamento das embaixadas brasileiras. Os diplomatas brasileiros têm alto nível de formação, mas sob o comando de um grupo com interesses ideológicos nada patrióticos, o Brasil como um todo perdeu muita força no cenário internacional, além de acordos internacionais que poderiam beneficiar toda a população.

O quadro geral do governo interino (que está apenas começando) não é tão bom, mas também não é tão ruim. Daqui a alguns meses poderemos ter uma visão mais apurada da atuação de Michel Temer e sua equipe. O que se deve levar em conta é que ele encontrou um país completamente falido, com um déficit da ordem de centenas de bilhões, em pleno processo de desindustrialização, com o desemprego crescente, e em meio a graves epidemias. Solucionar tudo isso não será fácil e nem de uma hora para outra.

Bom fim de semana procês!

 

Entrando em recesso

mortadelãoFim da era PT, graças a Deus.

Nunca escondi a minha posição política. Detestava o governo, suas trapalhadas, a sujeira varrida para debaixo do tapete, a imensa corrupção. Odiava a política externa, que me deixava envergonhada e triste. Ficava constrangida com os discursos do Lula e da “cumpanheira” Dilma, duas pessoas grossas, ignorantes e agressivas.

Enfim, o pesadelo, parece, acabou. Mas se não quisermos que volte em 2018, precisamos aposentar as urnas eletrônicas. É necessário começar agora a reorganizar o processo eleitoral. Conheço um adolescente candidato a hacker que diz que até ele manipula essas urnas.

Torço para que o presidente Michel Temer acerte. O que não quer dizer que ficarei cega, aplaudindo tudo. Dou-lhe crédito, pegou um país arrasado. Mas sei que Temer é político antigo, habituado a conchavos e troca de favores, o Picciani e Sarney Filho no Ministério não me deixam mentir. Mas torço para que ele controle os antigos vícios do toma-lá-dá-cá. O Brasil espera que seja assim.

Portanto, presidente Temer, conte com a minha confiança. E com a minha vigilância também.

Acho absolutamente desimportante a conversa fiada de que não há mulheres e negros entre os nomes do primeiro escalão. E daí? Também não tem nenhum índio, nenhum transgênero, nenhum gay, nenhum representante das chamadas minorias. Pode ser que venha a ter. Ou não. Governar não é espaço para a exibição do politicamente correto. Incrível que o tempo passa, os erros se acumulam, o mundo desaba e os adeptos dos discursos bonzinhos não aprendem. Concordo que o Ministério de Temer não é nenhuma Brastemp, tem gente ali meio estranha. Mas mulheres e negros não fariam a menor diferença, nem para melhor, nem para pior. Vamos, ao menos uma vez na vida, tentar ser sérios?

Outra coisa, ó povo democrático, que respeita sinceramente as opções e as opiniões alheias. Se a Marcela Temer quer ser bela, recatada e do lar, problema dela. Não temos nada com isso. A Sra. Temer tem tanto direito a ser “do lar” como outras mulheres têm a não sê-lo. Seria civilizado deixarmos de lado este preconceito provinciano. Cada um vive a própria vida como melhor lhe apetece. Sem cobranças ou patrulhas ideológicas, ok? Que conversinha rançosa…

Finalmente, chegou o tempo de os Mortadelas — respeitosamente, escrevi em maiúscula — baterem panelas, xingarem, protestarem, serem do contra, escreverem o que quiserem na internet. Que usufruam desse direito em paz e em total liberdade. Eu sei o quanto alivia tornarmos pública a nossa decepção. Por experiência própria, garanto que gritar é necessário. Senão, a gente enfarta. Portanto, Mortadelas, entrego-lhes o meu palco. Voltarei a escrever sobre amenidades.

Sobre política, só falarei quando e se o presidente Temer pisar muito na bola.

Entrei em recesso. Estou atenta, mas em recesso.