Aberrações culturais

Maria Bethânia_caricaturaO Brasil é notavelmente ignorante e inculto. E não é à toa, afinal, trabalha-se duro para manter esse status. Esta semana veio ao nosso conhecimento mais uma frente pela ignorância: a roubalheira envolvendo a Lei Rouanet de incentivo à cultura.

A cultura pode ser entendida como o conjunto de valores intelectuais, tradições e costumes. É, portanto, inerente à espécie humana. A cultura é algo que se passa de uma geração a outra e se transforma ao longo do tempo e nos diversos lugares. Pode-se dizer que a cultura é a marca registrada de um povo.

Pois bem, quando esse povo é composto por mais de 200 milhões de pessoas, que vivem em regiões geográficas diferentes, com histórias distintas, é natural que existam particularidades. A cultura do Norte do Brasil é totalmente distinta da do Sul, por exemplo. E ambas são de uma riqueza incrível. Mas poucos têm o privilégio de conhecer e apreciar as diversas manifestações culturais deste nosso Brasilzão. E essa é uma das razões que me levam a compreender a importância da Lei Rouanet.

A lei, em si, não é ruim. É nobre a intenção com que foi criada: preservar o patrimônio artístico e cultural; divulgar as artes brasileiras; manter museus e monumentos históricos, entre outros. O mecanismo é interessante, pois visa envolver empresas privadas e pessoas físicas no apoio às mais diversas manifestações culturais, compensando-as com benefícios fiscais — precisamente, o desconto no Imposto de Renda.

No entanto, o que vemos são bibliotecas, teatros e museus sendo fechados (só em Brasília, a Biblioteca Demonstrativa e o Teatro Nacional estão fechados há mais de dois anos), casarões históricos caindo aos pedaços, precisando de restauração, enquanto artistas consagrados recebem verbas públicas para fazer shows e cobram ingressos caríssimos.

Isso, sem falar no quase-blog milionário da Maria Betânia, fala sério! Bethânia teve um projeto aprovado pelo Ministério da Cultura em 2011, segundo o qual a artista colocaria um blog no ar, com vídeos em que ela apareceria recitando uma poesia todos os dias. O valor do projeto? Só R$ 1.356.858,00. Agora me respondam: desde quando Maria Bethânia precisa de dinheiro público para fazer isso? Se ela anunciar um projeto desses, certamente aparecerão inúmeros patrocinadores dispostos a pagar para ter um pedacinho na página com propaganda — ela poderia até escolher os de seu agrado.

Outro caso é inesquecível: o livro da Claudia Leitte. De publicação de livro eu entendo um pouco, e posso afirmar categoricamente que para uma pessoa como a Claudia Leitte, publicar um livro nem faz cócegas em seu recheado bolso. Inclusive, é bem provável que editoras pagassem para publicá-lo. Já escrevê-lo é outra história, e não vamos entrar nesse mérito. Não é estranho que o MinC tenha aprovado o benefício para uma artista desse porte? No caso, a módica quantia de R$ 356 mil.

A repercussão do blog de Bethânia e do livro da Claudinha foi péssima, e ambas desistiram de seus projetos. Mas esses não foram os piores: tem penetra demais nessa festa boca-livre. Escândalo dos escândalos foram os dois projetos abortados que somavam mais de R$ 25 milhões e previam concertos do Maestro João Carlos Martins, que sequer sabia que havia sido agraciado pela lei Rouanet, já que nunca havia submetido qualquer projeto. Ao descobrir pela Folha de São Paulo que havia sido contemplado, pediu o cancelamento de ambos os projetos. Soube-se, depois, que a empresa Rannavi Projeto e Marketing Cultural utilizou o nome do maestro sem o seu consentimento. Estelionato puro e simples. Uma vez mais, o MinC “não percebeu” qualquer irregularidade.

Não preciso citar os inúmeros artistas/ celebridades que fizeram uso de milionárias cifras da lei em benefício próprio. A lista é extensa, e envolve shows de cantores que levam multidões dispostas a pagar o preço que for pelo ingresso; peças teatrais de gosto duvidoso; um filme sobre José Dirceu; um painel artístico para difusão cultural, que garantiria entrada grátis para alguns escolhidos da elite paulistana; e o casamento de um filho de magnata, entre diversas outras aberrações. Tudo devidamente aprovado pelo MinC. Parece que a Operação Boca-Livre está esclarecendo a real “necessidade” de se manter um ministério exclusivo para a cultura.

Enquanto isso, talentos das artes plásticas, cênicas, literatura, cinema, arquitetura e música nunca serão conhecidos do grande público, porque não conseguem viver de sua arte. Enquanto isso, o Museu do Ipiranga, o Teatro Nacional de Brasília, o Museu Mariano Procópio, igrejas barrocas, bibliotecas públicas, casarões centenários, obras de Aleijadinho etc. estão fechados ou sofrendo a ação do tempo e se deteriorando. É assim que o Ministério da Cultura cuida de nosso patrimônio artístico e cultural?

Bom fim de semana procês!

Conselho: venham assistir

s_joao[1]Como é pública e notória a minha paixão por Portugal — em particular, pela cidade do Porto —, se fosse eu a fazer tal afirmação, os leitores não levariam a sério. Afinal, o amor é lindo, mas cego. E gente apaixonada vê borboletas em excesso.

Acontece que quem afirmou que a festa de São João daqui é mais bonita do que o réveillon do Rio de Janeiro foi a minha neta, que, além de carioca da gema, é artista plástica. Nós duas assistimos, da Ribeira de Gaia, ao sensacional espetáculo. Como sabem todos os que moram nestas bandas, a Ribeira de Gaia tem uma vantagem: a lindíssima vista do Porto. Apreciada do outro lado do Rio Douro, a cidade parece uma pintura.

E é exatamente este cenário — acolhedor, pequenino e belíssimo — que torna a festa para lá de especial. Os vinte minutos de fogos de artificio que explodem à meia-noite, de 23 para 24 de junho, concentram-se em um espaço limitado, que fica iluminado como se, subitamente, o dia tornasse a nascer. A luz se espalha multicolorida no casario medieval e a gente perde o ar de tanta emoção.

O exagero na pirotecnia é o mesmo do Rio. Fogos, muitos fogos. Surpreendentes, lindos, explodindo em prata, em ouro e em vermelho e verde, as cores da Terrinha. De repente, a ponte Dom Luís I vira uma cascata, igual à do Hotel Méridien. Mas o espetáculo no céu é tão fantástico que esnobei a cascata. Preferi continuar namorando a Idade Média travestida de arco-íris. Inacreditavelmente lindo.

O pano de fundo do show são centenas e centenas de balões muito pequeninos, que os “tripeiros” soltam. Delicados e brilhantes, eles tornam a noite multiestrelada. É impossível parar de admirá-los e de se alegrar com “mais um, mais um, mais vários, meu Deus, que coisa bonita”, que a gente escuta sem parar.

Como sou uma exausta senhora de 32 anos — costurar cansa, meu povo, estão pensando o quê? — a festa tem um plus, também observado por minha neta que, apesar de jovem, já traz as cicatrizes do meigo cotidiano carioca. Passava de uma da madrugada quando encerramos a nossa festa, que, aliás, se prolongou em espetáculos diversos pela cidade. Entre o teleférico — que nos ofereceu a vista aérea das ribeiras lotadas —, o metrô e o conforto doméstico não se passaram mais que 10 minutos de absoluta tranquilidade.

Já prontas para dormir, tomando um chá na cozinha, a neta comentou a facilidade com que tínhamos chegado em casa:

— Como foi possível voltarmos tão rápido? Havia uma multidão à nossa volta.

Vovó foi rápida no gatilho. Não podia perder a chance de elogiar a minha cidade do coração:

— Você está no Porto, minha querida, as coisas aqui são mágicas…

 

Na pressão

messiEm todos os lugares, em todas as profissões, todos querem um lugar ao sol. Muitos sonham com o sucesso e suas benesses. Mas atrás de cada história há um preço a ser pago.

Às vezes são anos de estudo e esforço para um atleta alcançar seus objetivos, muito tempo de trabalho físico, e ficar fora de atividades que para muitos jovens seriam típicas e corriqueiras.

Anos mais tarde, se tudo correr bem, o sucesso baterá à sua porta. Fruto de dedicação e luta, seu esforço finalmente trará os frutos da fama e da fortuna.

Será?

O olhar do outro persegue o crack da bola. Se ele é artilheiro, dele se espera o gol decisivo; se é goleiro, a defesa que garante o título. No futebol, talvez mais do que qualquer outro esporte, esta paixão adquire ares de paixão e muitas vezes de tragédia.

No Brasil, ouvíamos falar na final de 1950 da Copa do Mundo, mas não tínhamos a dimensão de seu impacto. Isso, até perdermos de 7 x 1 para a Alemanha na Copa de 2014.

Há poucos dias uma nova tragédia aconteceu, dessa vez com nossos “hermanos” argentinos. Disputando a final da Copa América nos EUA contra a seleção do Chile, a seleção portenha enfim esperava triunfar.

Na última edição da mesma competição, o selecionado argentino perdeu para o mesmo adversário. Um gosto amargo da derrota se manteve presente. Apesar de ter em suas fileiras o maior jogador do mundo, Messi, o sucesso mais uma vez lhes disse não.

Dessa vez tudo parecia diferente: com uma campanha invicta, e de novo favorita, os argentinos chegaram à grande final. Esgotado o tempo regulamentar e a prorrogação, o campeonato será decidido nos pênaltis.

O melhor jogador chileno, Vidal, erra sua cobrança. A taça esta mais próxima da Argentina, finalmente. E então a bola vai para as mãos de Messi.

Messi a coloca na marca de cal, corre, chuta, e… isola a pelota!

O estádio, tomado por seus compatriotas, urra de desespero. No gramado, o grande jogador argentino não acredita em seu feito. Há outras cobranças, mais um jogador portenho erra. O Chile é o grande campeão.

Enquanto seus atletas comemoram, as câmaras de televisão acompanham a desolação de Messi e sua dor infinita. Ele se isola dos outros jogadores e sofre.

Passada a premiação, ele declara: “Acabou para mim a seleção, não é para mim”.

Apesar de todo o seu preparo, o grande atleta, o melhor do mundo, sucumbiu à pressão. Mais do que a cobrança de todos, a sua própria se tornou de tal forma insuportável que, no momento decisivo, ele falhou. O erro cometido se materializou na frente de todos, e o desespero de quem o fez se tornou maior ainda. Em razão disso, ele declarou que não jogará mais por sua seleção nacional.

De seu país e de todo mundo vieram mensagens de apoio e compreensão. Todos, ou pelo menos a grande maioria de seu povo, pediram que ele reconsiderasse sua decisão.

Muitos, com certeza, já sentiram alguma vez na vida uma pressão enorme diante de uma decisão ou atitude crucial que afetasse o seu destino e daqueles que lhes são caros. Quando nos deparamos com nosso fracasso, uma cobrança quase insustentável nos arrasa e nos tira o chão.

Naquela noite, Messi nos mostrou a extensão desse dano em uma pessoa, mas nos fez ver com mais clareza que o erro faz parte da condição humana.

Espero que o grande jogador argentino consiga superar sua dor e volte a vestir a camisa azul e branca de seu selecionado nacional. Se não o fizer, compreenderei suas razões, e estarei na torcida para que o amor de tantos aqueça seu coração, tornando menos fria a dor de sua desilusão.

 

Generosidade

daisyjun29Há muitos anos (às vezes me parece até que tive outra vida nesta mesma vida), morei no interior. Criei meus filhos com muita luz e muito espaço, sua infância foi viva, repleta de experiências que jamais teriam se tivéssemos vivido em apartamento. Viram animais se reproduzindo, plantas crescendo, cultivaram horta, subiram em árvores. Eu, ainda estudando, fui buscar novos interesses. Criei animais, plantei, colhi, fiz de tudo um pouco.

Voltei para o Rio de Janeiro, minha vida deu muitas voltas, passei novamente a morar em apartamento, o que demandou uma boa dose de vontade para readaptação. Entretanto, a “camponesa” nunca me abandonou e continuei a cultivar minhas flores e mini-hortas nas minhas varandas.

Numa manhã do mês passado, percebi um pássaro que, insistente, corria de um lado a outro na varanda do meu quarto, onde tenho uma planta dessas que chamam de trepadeira, com flores.

Na semana passada, no meio das flores, me apareceu um tomateiro. Lindo, carregadinho de pequenos frutos amarelos.

Talvez alguém que tenha pensamento mais cartesiano pudesse imaginar “que coincidência”, mas eu, que cometo minhas poesias, logo entendi o corre-corre do pássaro: ele me presenteou com sementes de tomates…

O tipo de tomate? Fui pesquisar…O nome é Yellow Perfection, olhem só que interessante… Realmente, a natureza é perfeita.

E passei a refletir como a natureza é generosa, como compartilha, com que sabedoria sai espalhando sementes e frutos.

E tenho, então, que estabelecer a comparação entre o comportamento humano e o da Mãe Natureza. Enquanto ela concede, os homens subtraem. Compartilhar? Hoje em dia, principalmente fotos glamourosas, de momentos que muitas vezes nem foram tão felizes assim, mas que servem para espalhar nas redes sociais falsas caras e bocas de felicidade.

Mas, na hora da solidariedade, o que se vê? Imigrantes arriscando suas vidas e de seus filhos, porque é a única forma possível de salvação contra a miséria e a tirania; países trancando suas fronteiras para essa gente desesperada que sai numa diáspora insana, andando quilômetros com crianças, velhos, doentes, em busca de um pouso qualquer; políticos corruptos, que nem por um minuto parecem se incomodar com as filas nos hospitais, com os que morrem por falta de atendimento, com os que vendem o almoço para pagar o jantar, ou com os que nem isso podem fazer. E me pergunto: Será tão difícil perceber a generosidade que existe em cada amanhecer, com a oportunidade de revermos nossas atitudes, melhorarmos como seres humanos?

Não sou partidária do conceito de que mudando nossa postura mudaremos a postura do outro, não é isso. O outro muda quando quer e quando pode, mas o que acontece é que nós ficamos melhores, porque aprendemos a lidar com a realidade do outro, simples assim.

E, num momento de tanta discussão, de tanta insegurança, nada melhor do que nos voltarmos a observar a natureza e dela extrair ensinamentos. É o que faço agora, agradecendo ao pássaro que me proporcionou esse momento de muita alegria.

 

Raça

Race_2016_film_posterConsta do noticiário mundial que, certa feita, por conta de uma dessas críticas dos Estados Unidos à situação dos direitos humanos na China, algum porta-voz do governo chinês teria respondido que a questão dos direitos humanos é relativa, lembrando que muitos americanos, até a década de 1960, não podiam frequentar os mesmos locais que outros. Hipocrisias e pragmatismo à parte, o que se viu e se continua a ver, no mundo como um todo, são conflitos raciais que se perpetuam e pouca ou nenhuma intenção de cada país olhar seu próprio umbigo e fazer uma verdadeira e eficiente autocrítica.

Direitos humanos: qual o seu conceito? Ou, quiçá, preconceito, sub-reptício, naturalmente, pois quem admite que os tem? Quem quer que se dê ao trabalho de pesquisar, confirmará que direitos humanos são os direitos básicos de todos os seres humanos. E aí estão compreendidos os direitos civis e políticos, direitos econômicos, sociais e culturais, direitos difusos e coletivos — definição muito vasta e complexa. A Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas afirma que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Perfeito, filosoficamente falando. Na prática, nem tanto, infelizmente.

Apesar de todas as boas intenções dos poderosos ao longo da história da humanidade, as diversas declarações dos direitos do homem e do cidadão sempre deixaram brechas para que alguns fossem mais iguais que outros. Mesmo com a criação da ONU, por conta das atrocidades vividas durante a Segunda Guerra Mundial, a tão desejada paz mundial continua no imaginário, no desejo mais recôndito do ser humano.

Depois de tantas lutas e outras tantas leis, a cinebiografia “Race” [Race], do diretor britânico Stephen Hopkins (“Predador 2”, “Contagem Regressiva”, “A sombra e a escuridão”, “Perdidos no Espaço”, “A vida e a morte de Peter Sellers” e alguns episódios da série “24 Horas”), ainda causa espanto, tristeza e questionamentos. O longa conta a vitoriosa história do esportista americano Jesse Owens, que brilha nas pistas de atletismo dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. Na competição, ele vence as provas dos 100m, 200m, revezamento 4x100m e salto em distância, ganhando quatro medalhas de ouro e desmoralizando o preconceito em pleno território comandado pelo ditador Adolf Hitler, que prega o nazismo e a doutrina da supremacia da raça ariana.

James Cleveland Owens, conhecido como Jesse Owens, por conta de um mal-entendido decorrente de seu sotaque sulista, nasceu (12/9/1913) numa família pobre e numerosa em Oakville, no Alabama, e começou sua vida de esportista em 1930, depois que sua família se mudou para Ohio, competindo no ensino médio, na Fairmount High School em Cleveland. Logo em seguida tentou a seletiva para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1932, mas não conseguiu se classificar. Em 1933 Owens começou a mostrar que era um fenômeno, conquistando 75 vitórias em 79 provas ao longo do ano e, de quebra, bateu o recorde mundial das 100 jardas (9s40). Em 1935, na seletiva dos Jogos Olímpicos de 1936, Owens venceu 4 provas, em um intervalo de 75min.

No longa, Jesse Owens é conduzido brilhantemente pelo ator canadense Stephan James, de 22 anos, que tem oito filmes em seu currículo, entre os quais “Selma: uma luta pela igualdade”, com indicação de melhor ator coadjuvante pela Canadian Screen Award. Participam, também, Jason Sudeikis, como Larry Snyder, o obsessivo e romântico técnico  de Owens e Jeremy Irons, o inescrupuloso empresário Avery Brundage, que se tornou o chefe do Comitê Americano na Olimpíada e lutou para que os EUA não boicotassem os Jogos Olímpicos em Berlim, por conta do crescente nazismo alemão. Completam o elenco William Hurt, como Jeremiah Mahoney, presidente da União Atlética Amadora dos EUA, contrário à participação dos americanos naquela Olimpíada, e  Carice van Houten, como Leni Riefenstahl, a cineasta alemã preferida de Hitler, responsável pelo documentário “Olympia”, de 1938, que serviu como propaganda do nazismo ao mostrar o sucesso dos Jogos Olímpicos em Berlim, considerado o mais grandioso, bem realizado, rico e politicamente explorado dos jogos olímpicos até então, quando a Alemanha ficou em primeiro lugar entre os 49 países, com 3963 atletas em 22 modalidades esportivas, 33 medalhas de ouro, 26 de prata e 30 de bronze, seguida pelos EUA, com 24 medalhas de ouro, 20 de prata e 12 de bronze. O documentário “Olympia”, aliás, utilizando técnicas de realização inéditas para a época, se tornou o padrão na filmagem de eventos desportivos.

Por conta da participação em corridas bizarras (contra carros, motos e animais), logo depois das Olimpíadas de Berlim, e com a justificativa de que um campeão olímpico não poderia passar por essas situações degradantes, Owens foi expulso da Associação Amadora de Atletismo, e perdeu as medalhas de ouro. Mesmo depois de todas as conquistas e da fama mundial, Owens só conseguiu trabalhos medíocres e morreu pobre, de câncer no pulmão, sem reconhecimento em seu país, aos 66 anos, em Tucson, no Arizona (31/03/1980).

O roteiro, de Anna Waterhouse e Joe Shrapnel, faz um bem-sucedido contraponto entre o então racismo americano e o nazismo alemão. Em todas as oportunidades, as teorias de supremacia dos indivíduos são colocadas lado a lado e, tanto nos EUA de então, como na Alemanha Nazista, as dificuldades dos grupos considerados inferiores se equiparam. As atitudes preconceituosas e discriminatórias são exatamente as mesmas, independente das etnias ou dos grupos considerados. Este é, na verdade, o grande trunfo do filme. Descobrir que seriam tratados como iguais na Vila Olímpica, comendo e dormindo lado a lado com os brancos, causou espanto e boas recordações para os atletas negros da equipe americana. Aliás, por conta da segregação então vigente, os negros americanos só puderam competir individualmente. Na mesma Olimpíada, os atletas americanos de religião judaica também foram hostilizados, acabando por não competir, o que garantiu a quarta medalha de ouro para Owens no revezamento 4x100m.

O movimento por direitos civis para negros americanos ganhou força no fim da década de 1950 e começo da década de 1960, com manifestações gigantescas forçando a sociedade a encarar o problema. O debate chegou ao Congresso Americano, que aprovou as leis dos direitos civis (1964) e do direito ao voto (1967), encerrando a segregação institucionalizada. A segregação de fato, infelizmente, nunca acabou. Nem lá nem em lugar algum. Diferenças em qualidade de vida, oportunidades, educação, emprego e saúde são recorrentes mundo afora. Uma das cenas mais emblemáticas do longa mostra a mesma platéia hostilizando Jesse Owens, quando ele chega para as provas classificatórias da Olimpíada, e o aclamando vivamente depois das fantásticas vitórias. Também é emblemática a cena em que ele é obrigado a entrar pela porta de serviço do hotel onde seria homenageado com um jantar de gala e um menino branco, que trabalhava no elevador de cargas, lhe pede um autógrafo.

Owens teria declarado que o que mais o magoou não foi a atitude de Hitler de não o cumprimentar nas diversas provas que venceu (fato, aliás, cercado de controvérsias, pois o chanceler teria desistido de descer da tribuna de honra, em razão do tumulto e do atraso acarretado à evolução normal das competições), mas o fato de o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt não lhe ter mandado sequer um telegrama felicitando-o por suas conquistas na Olimpíada. Na verdade, até 2012, não tinha recebido qualquer aceno ou manifestação oficial do governo, quando foi imortalizado no IAAF Hall of Fame, criado no mesmo ano como parte das celebrações pelo centenário da Associação Internacional de Federações de Atletismo – IAAF.

Algumas pessoas são visionárias e servem de estímulo e de esperança. Para mostrar que não foi fácil, apesar do dom que parecia deter, Jesse Owens teria dito: “Nós todos temos sonhos. Mas, para tornar os sonhos realidade, é preciso uma enorme quantidade de determinação, dedicação, autodisciplina e esforço.” Outro mito que se encaixa perfeitamente na questão dos direitos humanos é Nelson Mandela, que certa feita vaticinou: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E, se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

 

 

 

Assalto no Rio

Assalto no RioO episódio que vou contar é verídico, mas ocorreu há mais de duas décadas, quase três. Para resguardar os envolvidos não mencionarei nomes, embora o protagonista da história já não exista mais, e as testemunhas já tenham se perdido por aí. Talvez nem se lembrem mais do acontecido, mas eu duvido. Lacrei este evento na memória e só agora tomei coragem de contá-lo, creio que por medo de prejudicar alguma pessoa. E, mesmo depois de tanto tempo, ainda vou omitir certos detalhes e inventar outros, mas poucos, apenas o suficiente para proteger não sei bem a quem.

O papel principal da história coube a um europeu que adorava o Rio. Veio pela primeira vez por obrigação profissional e encantou-se. Voltava sempre, às vezes a trabalho, às vezes de férias. Não era notívago, gostava da praia, do sol, do estilo de vida carioca ao ar livre. Batia longos papos com os vários amigos que conquistou por aqui. Nunca chegou a falar português, mas contava com um pequeno vocabulário que lhe facilitava o dia a dia. Sabia que a cidade era violenta, porém dizia que andar pela rua sendo obrigado a prestar atenção às pessoas ao redor lhe recordava a infância vivida durante a Segunda Guerra Mundial. Não trazia maiores traumas dessa época. Lembrava-se de brincar com outros meninos, mesmo com os parcos recursos de que dispunham, em meio ao caos provocado pelo conflito. Como criança não conhecia outra realidade, e só muito mais tarde compreendeu que aquele estilo de vida não era normal.

Dizia também que no Brasil as pessoas têm muito mais liberdade, mais oportunidades de escolha, que no país dele a trajetória de vida já estava praticamente pré-determinada quando o indivíduo nascia, e havia pouco espaço para mudanças.

Todo esse encantamento acabou numa manhã de sábado em que estava em casa, trabalhando com um colega num relatório que precisavam entregar com urgência.

Bateram-lhe à porta sem que os porteiros o tivessem avisado, comportamento nada usual. Era um pequeno apartamento de temporada na Zona Sul, próximo à praia, que costumava alugar quando vinha ao Rio. Perguntou do que se tratava, responderam que era a polícia. Como na terra dele a polícia é confiável, abriu imediatamente. Entraram três homens, informando que haviam recebido uma denúncia de tráfico de drogas e, por essa razão, precisavam revistar a casa. O gringo, que nada tinha a temer quanto a isso, não fez objeções. Falavam um pouco de inglês e o colega brasileiro, embora ressabiado, viu-se obrigado a ajudar na tradução.

Como previsto, reviraram tudo sem encontrar droga alguma. Então, afirmando que tinham usado a desculpa da polícia para entrar no prédio, anunciaram o assalto. Os porteiros confirmaram depois que eles sabiam o número exato do apartamento e, identificando-se como policiais, pediram para não ser anunciados porque o elemento surpresa era importante para o que iam fazer.

Não havia muito que roubar ali: um pouco de dinheiro, um cartão de crédito internacional, uma caneta de marca famosa foi tudo que interessou aos ladrões. Pegaram aquelas coisas e amarraram os dois homens à cama. Em seguida pediram um número de telefone de quem pudesse ir libertá-los. O estrangeiro deu o número da senhora que alugava o apartamento, eles amordaçaram as vítimas, saíram, fecharam a porta por fora e desapareceram levando a chave.

Os assaltados ficaram naquela situação por uma ou duas horas, até que o brasileiro logrou soltar uma das mãos. Já estavam quase se desvencilhando quando ouviram abrir a porta. Era a senhora que alugava o apartamento. Os bandidos tinham efetivamente telefonado para ela e, com uma desculpa qualquer, solicitaram seu comparecimento ao local com urgência.

O estrangeiro, tão logo se viu livre das amarras e da mordaça, jogou atabalhoadamente seus poucos pertences dentro da mala. Nervoso, à beira do descontrole, não quis nem saber do reembolso do aluguel que estava pago até o fim da temporada. Disse que nunca mais voltaria ao prédio e tomou um táxi para a casa de um amigo.

Suas primeiras providências foram cancelar o cartão de crédito e tentar mudar a data da passagem de avião para voltar imediatamente ao seu país. A primeira parte foi fácil, mas a segunda foi impossível, porque só existiam voos para o dia seguinte. O amigo ofereceu-lhe hospedagem para aquela noite, mas ele nem considerou a possibilidade. Pediu que lhe emprestasse dinheiro para comprar uma nova passagem, qualquer coisa que o tirasse do Brasil na mesma hora. Conseguiu em outra companhia aérea, para uma cidade diferente da sua, de onde era possível fazer conexão por avião ou trem até o destino final. Para ele só importava partir imediatamente em direção à Europa.

Nunca mais pôs os pés no Brasil. Conscientizou-se de que a guerra urbana que vivemos há muitos anos era bem diferente da lembrança pueril que o Rio lhe despertava.

Ao chegar ao seu país descobriu que poderia acionar o seguro para obter o reembolso do valor pago pela passagem de emergência, comprada a peso de ouro devido às circunstâncias. Foi um custo demovê-lo dessa ideia, porque executá-la obrigaria o colega brasileiro, igualmente vítima, a apresentar-se à polícia para solicitar a abertura de uma investigação. Além disso, seriam também convocados a depor os porteiros e a dona do apartamento.

Não era só a inconveniência burocrática que contava: havia também a hipótese de que os supostos bandidos poderiam de fato ser policiais agindo ilegalmente, sem um mandato de busca, e que, não tendo conseguido o flagrante, houvessem simulado o assalto para não serem denunciados. Nesse caso, o prejuízo financeiro causado pelo assalto não justificava o risco: as testemunhas não se lembravam das identificações mostradas, mas poderiam facilmente reconhecê-los porque os ladrões nunca esconderam os rostos.

Houve muita especulação sobre o que teria realmente motivado a invasão do apartamento, mas a verdade nunca será conhecida. Bandidos se passando por policiais ou vice-versa, não importa: o trauma que causaram foi desproporcional ao lucro que obtiveram. Como assalto não valeu a pena, e se foi uma tentativa de desmascarar tráfico de drogas não obteve êxito.

Apesar de as vítimas terem saído incólumes, e os assaltantes terem sido corretos ao ponto de se preocuparem com a sua libertação, em algum lugar da Europa a imagem do Rio ficou irremediavelmente destruída. Enredos que parecem saídos de ficção só são divertidos enquanto permanecem na ficção.