A dama de vermelho

HEMPSTEAD, NY - SEPTEMBER 26: Democratic presidential nominee Hillary Clinton smiles during the Presidential Debate at Hofstra University on September 26, 2016 in Hempstead, New York. The first of four debates for the 2016 Election, three Presidential and one Vice Presidential, is moderated by NBC's Lester Holt. (Photo by Drew Angerer/Getty Images)
(Foto Drew Angerer/ Getty Images)

Logo em seguida ao primeiro (mas não único) debate presidencial entre Donald Trump e Hillary Clinton, perguntei ao Alan, meu brilhante e autoritário marido americano:

— E aí, depois de todos esses documentários e debates na TV, você continua firme no seu apoio a Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos?

Alan ficou quieto por alguns minutos. Depois falou qualquer coisa, tentando escapar pela tangente:

— Bem. Hum. Eu nunca disse que o apoiava. Apenas disse que ele iria vencer. E ele vai.

Como tem sido a regra ultimamente, esta não é exatamente a “verdade verdadeira”. A verdadeira verdade — com certeza distorcida pela minha memória evanescente, ou pelo menos é nisso que meus inimigos preferem acreditar — é que o Alan escolheu Donald Trump como seu “candidato” (as aspas são devidas ao fato de que, embora seja cidadão americano, Alan nunca votou e garante que nunca pretende votar) desde o início, quando existiam 18 candidatos republicanos entre os quais poderia escolher, como fiz questão de lembrar a ele.

Já comigo foi diferente. Ainda bastante traumatizada por ter escolhido Barack Obama em 2008, desta vez decidi optar por alguém mais “conservador”, e comecei pelo “desenergizado” Jeb Bush. Mas logo ficou bastante claro que a candidatura de “Jeb” (que não é um nome, mas uma abreviatura) não iria decolar, e quando enfim me deparei com a dobradinha Trump x Cruz, não tive outra alternativa a não ser escolher… Donald Trump.

Tenho feito o que posso para manter meu voto desde então, mas, francamente, sempre mantendo a mente aberta e observando o tempo todo, analisando cada passo de Trump em sua acidentada trajetória em direção à Casa Branca. Quem sabe.

A princípio, acreditei firmemente que Trump e eu nada tínhamos em comum. Afinal de contas, sempre batalhei com a questão do dinheiro, e além disso fiz sempre a maior questão — coisa que não faz o menor sentido, reconheço, menos ainda agora que estou morando na América supercapitalista — de manter trabalho e dinheiro em compartimentos separados, nem de longe relacionados. Deve ser por conta de algum tipo de culpa cristã, sei lá, somado à total rejeição do mui popular e preconceituoso mito que afirma que “todos os judeus nascem financistas”.

Não demorei a deixar para trás essa primeira impressão. Descobri rapidinho que Donald e eu compartilhávamos não somente a generosa mania de oferecer às pessoas um nome que as descreva mais fielmente (chamado por alguns de “apelido”, ou até de “xingamento”), mas também o vício de enfiar alguns cacos em todas as falas, como, por exemplo, “acredite”, ou “podem acreditar”. No meu caso, nem precisarei mencionar a mal-humorada resposta de Hillary — “eu não acredito” —, pois sempre que escrevo “podem acreditar” numa crônica quero afirmar (ou aconselhar) exatamente o contrário.

Com tudo isso, mesmo depois do tal primeiro debate desta semana continuo trumpista. Deplorável. Podem acreditar.

Hillary tinha tido uma semana difícil, tossindo, caindo, e ainda enfrentando aquela maldita pneumonia. Pobre velha senhora… mal posso imaginar a dureza que ela vem sendo forçada a enfrentar durante essa impiedosa campanha presidencial… que, por outro lado, não passa de um teste simplificado. Por mais difíceis que sejam tais desafios, não passam de uma “amostra grátis”, não chegam nem perto daquilo com que os candidatos deverão se defrontar, caso não apenas atinjam seu objetivo de “agir como presidentes”, mas de realmente serem eleitos para o mais alto cargo do país e permanecerem como presidentes, entra dia, sai dia, pelos próximos quatro anos, que tremenda aporrinhação, nossa mãe.

Mas quando ela adentrou o palco na noite de segunda-feira, qualquer um poderia perceber que ali estava uma vencedora. O terninho vermelho, embora escondesse cuidadosamente braços e pernas — como tem sido o “estilo” da candidata há alguns anos, provavelmente devido a uma lamentável celulite tão aparente quanto a minha —, caía-lhe como uma luva, e Hillary estava radiante, desafiadora, esbanjando autoconfiança por todos os lados. O cabelo parecia macio, revigorado, iluminado por mechas brilhantes, reflexos “solares” recém-aplicados, em franco contraste com a aparência cansada e algo descuidada de alguns dias atrás. A maquiagem também estava perfeita, escondendo a idade sem exageros por detrás de uma máscara suave, criada com engenho e arte, à qual sempre que possível ela adicionava sua luminosa risada, mais aquele charmoso “dar de ombros” que se tornou num instante a marca registrada do evento. Uma verdadeira estrela.

Quem poderia derrotá-la? Certamente, não aquele Trump de sempre, com seu cabelo esquisito, velho milionário nojento, truculento e machista. Que, por sinal, revelou-se incapaz de ficar calado e assim evitar se vangloriar de sua desprezível “esperteza empresarial”. Totalmente inaceitável, vamos combinar.

“Francamente” (outro famoso “caco” frequentemente usado por Donald Trump), com tanto teatro e tantas técnicas avançadas da mídia especialmente criadas para fazer vocês pensarem exatamente aquilo que “eles” querem que vocês pensem, não me surpreende nem um pouco que uma (mínima) maioria dos americanos e a vasta maioria do resto do mundo já tenham escolhido Hillary sem pestanejar. E essa gente sabe o que diz, tenho absoluta certeza. São todos doutores em política americana, principalmente se levarmos em conta os perigos e complexidades do mundo atual, não é mesmo?

Já eu, por exemplo, 40 dias antes das eleições devo confessar que não faço ideia de qual opção seria a melhor, mas Hillary eu sei que não é. Especialmente depois que meu amado Obama provou, sem sombra de dúvida, que estava mesmo preocupado era com seu “legado” desde o primeiro dia, apesar de suas palavras bonitas, que poderiam ou não se transformar em fatos. E via de regra não se transformaram, como o tempo veio a demonstrar.

Como um obrigatório parêntese, já que também sou “do ramo”, eu não poderia deixar de apontar a suspeita semelhança entre o festejado logotipo da campanha de Hillary e aquele outro de uma conhecida agência governamental americana. Mais ainda, trata-se da derradeira tentativa de se materializar uma antiga profecia política: “Oito anos de Bill, oito anos de Hill”. Fim do parêntese.

Principalmente esta semana, dá uma tristeza danada se constatar a real postura dos políticos hoje em dia, mentirosos e desonestos em sua maioria, além de desdenhosos das verdadeiras necessidades e dificuldades do povo sob sua gestão. Isso, porque acaba de deixar este mundo um político às antigas, um típico exemplo de bondade e retidão (ou pelo menos é o que espero, ou gosto de acreditar), o último líder fundador do Estado de Israel, Shimon Peres, enterrado nesta sexta-feira. A história virou uma página.

Honestamente, não faço ideia da direção que este mundo está tomando, mas depois de tantos meandros e voltas do destino, e dos perturbadores resultados das bandeiras revolucionárias que a nossa empenhada geração fez questão de levantar (na versão em inglês fiz um trocadilho intraduzível, infelizmente, já que a geração nascida nos anos 1950 é chamada aqui de “baby boomers”, isto é, nascidos no boom de bebês do pós-guerra, aos quais chamei na crônica de “baby-bummers” ou “avacalhadores de bebês”, em tradução livre, e sei que vocês me entendem), é meio revigorante poder-se ao menos manter a ilusão de que alguém lá em cima pratica o bom senso “pé no chão” do nosso cotidiano mediano. E esta pessoa não é Hillary, mas Donald Trump. Para nem mencionar o fato de que espero, sinceramente, que ele se cerque de gente capaz e experiente, “pé no chão”, mas com muita informação, uma equipe competente que passe a defender e buscar um progresso atingível e alguns objetivos úteis e realistas.

Eu tinha planejado terminar minhas ruminações de hoje citando uma frase brilhante que escutei na TV no outro dia, comparando alguns gigantes da história americana, como Harry Truman, que reconstruiu uma Europa arrasada depois da Segunda Guerra, ou mesmo Ronald Reagan, conhecido por ter derrubado o mito do “bom comunista”, com Barack Obama, cujo verdadeiro legado a longo prazo deverá se limitar a ter concedido aos transgêneros o direito de usar o banheiro de sua preferência. Mas, infelizmente, não anotei na hora, e agora não consigo mais encontrar, um pecado imperdoável para qualquer cronista digno da profissão. E por este mau passo, aí sim, peço aos leitores as minhas mais sinceras desculpas.

Multidão

_91302785_familyA gente descobre que está realmente velho quando demora a entender a história do casal transgênero que teve um filho. De ambos, fabricados nos moldes tradicionais e nascido num feliz parto normal. Fernando, o pãe — pai e mãe, tomei esta liberdade linguística — passa bem, e o bebê, nascido em 20 de maio de 2016, mama satisfatoriamente.

Longe de mim exercitar algum tipo de preconceito, meu caso é burrice mesmo. Vou tentar explicar. Fernando nasceu menina e recebeu o nome de Maria. Diane veio ao mundo na pele de um menino e foi batizado como Luiz. Os dois tiveram dificuldades de se identificar com os respectivos gêneros e, no transcorrer da vida, enfrentaram a dolorosa experiência de assumir as suas verdades. Luiz virou Diane e Maria, Fernando.

Nenhum dos dois optou pela cirurgia de mudança de sexo. Os apetrechos de cada um continuam nos seus devidos lugares e funcionando alegremente. Fernando, inclusive, menstrua. Não comme il faut, claro. Às vezes, tomar hormônio masculino atrapalha um pouco.

Um belo dia, eles se conheceram através do Facebook. As experiências parecidas, os preconceitos sofridos e a solidão os aproximaram. Embora Diane more na Venezuela e Fernando no Equador, a distância não impediu o amor de acontecer. Fernando — como sabemos, os homens são sempre ansiosos e apressadinhos — viajou ao encontro de Diane.

Três semanas depois de estarem juntos pela primeira vez, Fernando engravidou. O que me faz supor que se relacionaram da maneira mais tradicional possível. Ou Fernando não engravidaria. Engravidar é o tipo da situação resistente a modismos ou avanços filosóficos.  Só acontece ali, no pão-pão, queijo-queijo. Ou com inseminação artificial. Como Fernando e Diane optaram pelo método antigo, não há outra explicação. Durante o amor, os dois tiveram uma recaída. Fernando voltou a ser Maria e Diane, Luiz.

Li duas ou três vezes a história e confesso que não a entendi completamente. Achei estranho ver, na foto, a mãe social e verdadeiro pai do neném, a Diane, muito enfeitada e sorridente, amparando a mãe verdadeira e pai de figuração em trabalho de parto ou amamentando.

Peço perdão aos ideólogos da igualdade de gêneros. Mas alguma coisa não se encaixa nesta história.

Desejo que os cinco — pais, mães e filho — sejam felizes, muito felizes.

Mas que é demais para minha cabeça, é.

Realmente, envelheci.

 

Partejando

daisyset28Andei parindo esses dias, e foi um parto cruel, difícil, demorado, cheio de dúvidas até que chegasse a certeza. E nasceu De nomes e sobre os nomes.

Depois que o livro acabou, fiquei, mais uma vez, com aquele sentimento estranho de ter a certeza de que estou, novamente e para sempre, sozinha.

Escrever me traz a sensação de ter companhia; meus personagens estão agora e vão estar sempre ao meu lado, às vezes gemendo baixinho como criança que quer colo, às vezes gritando tão alto que me ferem os ouvidos.

Esquisita sensação esta, a de saber que em algum lugar do meu tempo, da minha mente, da minha emoção, existem entes que estão à minha espera, aguardando que eu lhes estenda as mãos para chegarem-se a mim, e, num movimento generoso, permitirem que eu os crie, ou os recrie, que eu os faça bons, maus, bonitos, feios, esdrúxulos, engraçados, desgraçados, solitários, honestos, desonestos e tudo o mais que a minha bondade ou a minha crueldade possa fazer deles.

Eu os amo… Até os que ainda não chegaram, como acontece ao filho que está no ventre, mas que ainda não tomamos nos braços.

Eu os amo, porque revelam desejos, dúvidas, anseios, concordância ou discordância às coisas do mundo.

Eu os amo, porque me acompanham como o cão fiel faz a seu dono: estão sempre aqui, comigo, mesmo quando finjo que não os quero por perto.

Eu os amo, porque sabem me trazer alguma pouca alegria, em dias de tristeza.

Eu os amo, porque sempre estiveram comigo e, pacientemente, esperaram o momento em que pude, enfim, trazê-los à vida…

Quer dizer, eu penso que lhes dou a vida, quando eles fazem muito mais por mim: eles me doam a vida. A deles e a minha.

Significam hoje, para mim, a possibilidade de amar, de me expressar sinceramente, me oferecem a oportunidade de ser amorosa, ou alegre, ou brincalhona. Enfim: posso, com meus personagens, ser quem já fui um dia. Posso, com meus personagens, ser quem eu sou hoje. Posso, com meus personagens, ser quem eu gosto de ser.

Transgressão

Young woman drinking coffee in urban cafePaulo caminhava pela rua algo desalentado. Seu olhar se dirigia para o chão, não por medo de algum obstáculo no caminho, mas por temer olhar para frente.

A empresa passava por dificuldades; em casa, a filha na adolescência não o respeitava nem o ouvia a contento.

Lembrou-se dela… Julia fizera uma tatuagem, e ele, entristecido com a visão da figura de uma borboleta nas costas da garota de 14 anos, perguntara:

— Como você conseguiu fazer isso sem autorização?

Assustado, ouviu sua resposta:

— Mamãe foi comigo!

Ele se voltou para a mulher, e esta sorriu para a filha numa cumplicidade sem limite.

Pensava nisso ao entrar no café ao lado do escritório. Pediu um expresso e um pão de queijo, e comeu sem gosto aquilo que era um dos maiores prazeres do dia.

— Posso sentar com você?

Ele ouviu a voz, e levantou os olhos da xicara à sua frente. Cristina sorria, como se o mundo fosse bom e belo.

Era a trainee da empresa, tinha vinte e seis anos. Seus cabelos curtos realçavam sua beleza e juventude. Sem receio, ela explicou:

— Está muito cheio aqui!

Ele olhou ao redor e viu que era verdade; as pessoas pareciam ter buscado refúgio de suas dificuldades no mesmo lugar.

— Por favor! — ele conseguiu dizer, estendendo a mão e lhe ofertando a cadeira à sua frente.

Ela se sentou sem cerimônia, e seu sorriso de agradecimento a deixou ainda mais bela.

— Nossa! Adoro este expresso daqui e você! — ela disse, levando por sua vez à boca a xícara do café que já havia pedido.

Dessa vez quem sorriu foi ele. Começaram a conversar como se fossem velhos amigos, e pela primeira vez depois de muito tempo ele se sentiu bem.

Ela tinha uma voz mais grave, que a deixava ainda mais atraente. Seu jeito jovial demonstrava prazer de estar ali, vivendo mais um dia e feliz por isso.

O tempo passou e ele não viu. Falou de si, da empresa, do país, da vida. Ela parecia interessada no que ele lhe dizia, e ele, por sua vez, lhe mostrava seu ponto de vista. Somente saiu de seu devaneio quando o celular tocou e ele ouviu a voz de seu chefe:

— Onde você está? A reunião começou há cinco minutos!

Ele se desculpou, e chamou Cris para irem embora. Sim, ela tinha insistido para chamá-la assim, afinal já eram amigos.

Sua vida tomou um novo colorido. Não se importava mais com as rabugices da mulher, com a falta de respeito da filha. Todos os dias tomava seu expresso com a nova amiga, e a vida parecia-lhe mais leve e bela.

Numa dessas manhãs, entusiasmado com a própria narrativa, colocou sem querer sua mão sobre a dela. Ela olhou para ele com um novo brilho nos olhos e entrelaçou seus dedos nos dele.

Ele sentiu um calor subindo pelo seu corpo, apesar do ar condicionado do lugar. E ficaram ali, de mãos dadas conversando, como se isso fosse o comum.

Ele pediu a conta e saíram, de mãos dadas, como já parecia ser comum.

Andaram um pouco mais. Ele parou e chamou:

— Cris!

Ela se virou para ele e ele a beijou nos lábios carnudos, que se abriram para ele. Naquele dia, ele chegou bem mais tarde em casa e a mulher perguntou, mal-humorada:

— Não podia avisar que ia se atrasar?

Ele respondeu, sem raiva:

— Muito trabalho! — e saiu para tomar um banho.

Ela olhou para o marido e não entendeu por que este lhe sorria. Afinal, ele nunca gostara do emprego! E sem esquentar a cabeça, voltou a assistir a novela.

 

Em tempos de WhatsApp eu ligo é para telefone fixo

phoneHá uns dez dias, me enchi de coragem e reconectei meu antiquíssimo aparelho de telefone fixo na tomada da sala. Fiz cara de paisagem, me fingi de desentendida e não levei em conta os olhares perplexos e as piadinhas dos meus filhos, que insinuaram que eu estava em idade avançada, meia gagá, senil etc., pois na era do WhatsApp ninguém em sã consciência usa mais esse aparelho jurássico.

Ok, cara pálida, sei que nem a minha avó usa mais o telefone fixo. Mas eu uso. E muito. Ligo para a farmácia, para meu assessor de TI, que me ouve por uns cinco minutos e depois pede para eu resumir a conversa e mandar via email ou WhatsApp, para a manicure, que me despacha rápido, pedindo para eu conferir meu horário no WhatsApp e para a quitanda do seu Manuel — ops, descobri esta manhã que seu Manoel agora só atende no WhatsApp, que lástima.

Enfim, não dou trela para essa gente que não usa mais a boca para articular as palavras, pois o negócio agora é teclar com apenas dois dedos e abreviar as palavras —você por vc, obrigada por obg e eu te amo e te adoro por carinhas alegres e polegares positivos — e liguei para o número do telefone fixo do consultório de uma velha amiga e analista que eu guardava em umas das minhas velhas agendas de papel.

Aliás, foi arrumando os meus livros e folheando as velhas agendas que eu estava guardando nas prateleiras da minha nova estante que encontrei um livro maravilhoso, que me trouxe uma das maiores e melhores lembranças da minha vida. A frase “Quando o discípulo está pronto o mestre aparece”, que está escrita na dedicatória do livro de Dulcinéa da Mata[1] — uma analista junguiana que trata de espiritualidade e finitude, temas que aprecio há anos —, me fez relembrar um momento especial do passado, quando eu refletia, ansiava por entendimento e lançava perguntas a esmo sobre alguns questionamentos que me afligiam desde muito cedo, sendo o mais premente deles o questionamento sobre o sentido da vida.

E foram essas reflexões que me impulsionaram a rever alguns conceitos antigos e buscar me autoconhecer, com o objetivo de pôr em prática algumas teorias com as quais me identificava e efetivar algumas mudanças significativas que eu vinha tentando promover ao longo de mais de três décadas, e que culminaram na realização de um sonho antigo: tornar-me de fato quem eu sou. Uma nova mulher, em todos os sentidos. Principalmente no campo profissional. Lembro-me até hoje de como eu almejava me entregar de corpo e alma ao fantástico mundo da imaginação através da escrita. E não foi sem luta que, de profissional de sucesso do segmento de beleza, me lancei de olhos fechados no mundo da literatura.

Muita gente sabe que guardei este sonho a sete chaves durantes décadas, até que um dia comecei a escrever meu primeiro livro, Contos & Batom, lançado no mercado apenas com a cara e a coragem, e entrei de vez no mundo mágico dos contos, crônicas e poesias. Mas o que pouca gente sabe é que neste interim conheci a escritora e analista que mencionei acima, e de cujas magnificas obras me orgulho de ser leitora e também de ser sua amiga. Foi com a alma desarmada que, naquela época, abri a minha caixa de Pandora e derramei no ouvido dela e no seu divã de analista, em forma de palavras e lágrimas, todas as minhas dores, sonhos, frustrações. E, sobretudo, meu desejo de vencer permeado pelo medo de perder.

Nos primeiros anos da minha dolorida e deliciosa aventura, eu me sentia como uma viajante inexperiente e solitária que teimava atravessar um grande abismo cruzando uma velha ponte de madeira carcomida pelo tempo, sem ajuda, sem plateia, sem técnica, sem lenço e sem documento, balançando no ar as minhas inseguranças e sentindo os ventos da angústia e aflição agitarem fortemente as finas e frágeis cordas que me mantinham agarrada ao objetivo com um fio de esperança. E foi com o auxílio luxuoso dessa mestra terapeuta que fui avançando devagar, e pé ante pé me joguei inteira no novo desafio, sem atentar para o monstro devorador do medo que me consumia.

Hoje, sou prova viva de que vale a pena insistir nos nossos sonhos, porque um dia eles poderão se tornar realidade. O tempo passou, eu e a analista nos perdemos de vista por um bom par de anos, mas foi com uma surpresa e alegria ímpar que na semana passada a reencontrei e revivi as antigas emoções.

Não foi um encontro convencional, pois nos encontramos nesta casa da mãe Joana chamada internet, depois que através de amigos em comum eu soube que ela mantinha uma página em uma rede social. Localizei-a, e por mais de três meses ela não me respondeu, nem retornou meus insistentes recados.

Confesso: fiquei frustrada. Mas como sei que a vida nos surpreende de vez em quando, decidi apelar para o velho e bom telefone fixo, e não pude me conter de tanta alegria quando ela mesma atendeu e, entre risos e palavras efusivas de saudades mútuas, relembramos os momentos do passado e me emocionei com as palavras gentis e o conforto que mais uma vez recebi da minha querida amiga, ao descobrir que ela, como eu, tampouco é uma apreciadora das redes sociais e mantém sua página apenas por manter, pois gosta mesmo é de uma boa conversa cara a cara, olho no olho; ou, como neste caso, uma conversa ao pé do ouvido.

A conversa se estendeu por mais de quarenta minutos, e ao seu término eu estava de novo me sentindo revigorada. Sei que a vida é feita de instantes breves, que os amores modernos são fugazes e que as amizades em redes são efêmeras e descartáveis. Porém, continuo me permitindo acreditar nas boas e velhas amizade; e que as pessoas podem até ficar um pouco afastadas por alguns anos, mas nunca serão esquecidas. Já nosso amigo virtual, que nem sempre sabemos quem é, e nos atualiza com lembranças, frases e fotos quase a cada minuto, ou nos curte, tecla conosco o tempo todo e nos envia mensagens, é raramente capaz de disponibilizar um reles minuto de seu tempo para ouvir nossas queixas e se interessar de fato por problemas reais que nos afligem.

Sei que projetar bondade nos outros não resolve nosso desamparo interno, não cura nossas feridas ocultas nem nossa solidão, camuflada por sorrisos e selfies que insistimos em publicar diariamente nas redes, e tampouco ilumina partes obscuras de nós mesmos. Mas sei também que em meio ao caos da superficialidade dominante, coisa rara hoje em dia é um ser humano se dispor a conversar com outro, ainda mais por telefone. E principalmente por telefone fixo.

 

 

[1] Dulcinéa da Mata Ribeiro Monteiro é analista, membro da Sociedade Junguiana do Rio de Janeiro e autora de vários livros, entre eles Espiritualidade e Finitude.

Cães de guerra

war-dogs-posterO que governos, burocracia e guerras podem ter em comum? Aparentemente muitas coisas, entre elas, certamente, negociatas, falcatruas e negócios escusos. E nem adianta dizer que há regras, regulamentos e punições para quem ousa burlar a lei. Nada disso impede a criatividade de quem pensa em ganhar dinheiro fácil.

A propósito, burocracia e governo são duas palavrinhas que parecem nascidas para viver eternamente juntas. Por conta dessa perfeita união, muitos se valem da lei para burlar a própria lei. Pois é, e ainda fazem tudo pela internet. Para o bem e para o mal, a internet chegou e não há como impedir ou limitar a facilidade que trouxe aos que a utilizam para encontrar oportunidades de negócios pelo mundo.

De vez em quando a gente fica sabendo de histórias que parecem saídas da imaginação de bons roteiristas. Mas a realidade, por incrível que pareça, supera muitas vezes a imaginação! Se não houvesse provas, fatos e fotos, ninguém acreditaria na história contada no filme norte-americano “Cães de Guerra” [War Dogs].

Baseado em uma reportagem do jornalista canadense Guy Lawson, publicada em março de 2015 na revista Rolling Stones e, posteriormente, transformada no livro Arms and The Dudes, o diretor e roteirista americano Todd Phillips (de “Se beber, não case”) lançou um misto de drama, comédia, ação e filme de guerra.

A história gira em torno de dois ex-colegas de colégio na casa dos 20 anos, Efraim Diveroli (Jonah Hill) e David Packouz (Milles Teller), moradores de Miami durante a Guerra do Iraque, que descobrem como participar de licitações para intermediar a compra e venda de armamentos e uniformes militares para o governo americano.

Partindo quase do zero, eles fazem muito dinheiro e passam a viver uma vida de luxo. Mas a dupla enfrenta alguns problemas, quando consegue um contrato de US$ 300 milhões para armar o exército afegão, o que os coloca em contato com pessoas suspeitas, perigosas e aparentemente conhecidas do próprio governo.

Na verdade, tudo o que aconteceu com essa dupla tem muito a ver com a personalidade dos dois rapazes. David e Efraim eram colegas, mas não exatamente amigos. E também muito diferentes. Enquanto David não tinha grandes ambições, nem talento para ganhar dinheiro, Efraim era um negociador nato, incrivelmente criativo e manipulador. O roteiro fornece algumas dicas de que David seria pessoa de boa índole, em um relacionamento estável com Iz (Ana de Armas), enquanto Efraim não se relacionava bem com ninguém, nem com a própria família, revelando sérios desvios de caráter e propensão ao vício em drogas.

A partir dessas informações, fica mais fácil entender por que tudo aquilo aconteceu. Parece ter havido uma série de coincidências e oportunidades, incrementadas pelos dramas pessoais e familiares dos ex-colegas, agora sócios. O mais incrível, no entanto, é constatar a facilidade com que os dois, antes perfeitos idiotas, conseguem penetrar na burocracia estatal e não só impressionar os funcionários do governo responsáveis pelas licitações, como também ganhar dinheiro, muito dinheiro, com o comércio de armas de guerra.

O elenco se sai muito bem, perfeitamente ajustado aos personagens, com destaque para Jonah Hill (indicado duas vezes ao Oscar de melhor ator coadjuvante por sua atuação em “O Homem que mudou o jogo”, 2012 e “O Lobo de Wall Street”, 2013), numa versão bem-humorada do sociopata Efraim Diveroli, papel que lhe exigiu certa mudança física, pois para esse papel precisou engordar tudo o que tinha perdido recentemente.

Outra atuação de destaque, que se mostra decisiva no desenrolar e na conclusão da história, apesar da pequena participação, é a de Bradley Cooper (indicado ao Oscar de melhor ator por “O lado bom da vida”, 2013 e por “Sniper Americano”, 2015, além da indicação de melhor ator coadjuvante por “Trapaça”, 2014), que chama a atenção como um importante traficante internacional de armas, o sedutor Henry Girard.

Que a história da dupla é incrível, ninguém duvida. Mas saber como tudo aconteceu, isso sim, é fantástico! E por pouco, muito pouco, tal trama não ficou no ostracismo, surpreendentemente. Não fosse pelo pequeno, mas persistente pecado de Efraim Diveroli de nunca manter a palavra, ser desleal e ambicioso — muito ambicioso —, quem sabe ainda não estariam intermediando e incrementando o nefasto, mas lucrativo comércio de armas? Se tudo isso não tivesse realmente acontecido, quem acreditaria numa história dessas?