Conversando sobre Portugal

Conversando sobre PortugalTodo mundo sabe que no momento o núcleo europeu da KBR encontra-se fisicamente em Portugal. Somos duas cronistas: uma ao norte, a Ângela Dutra de Menezes, e eu ao sul. São bem diferentes as duas áreas, e deixo à Ângela a tarefa de descrever o norte, coisa que ela faz com muita competência. Lendo sua crônica sobre os fogos de artifício no Porto durante a festa de São João, por pouco não corri para rever essa cidade, onde residi há muitos anos por um par de meses, por razões profissionais. Voltei lá depois disso, e quase não reconheci os caminhos por onde costumava passar. Mais por culpa da fraca memória do que das alterações da cidade. Morei e trabalhei no centro, e naquela zona as coisas não devem ter mudado tanto, já que as cidades europeias antigas preservam muito de seu passado arquitetônico. O Porto é anterior à fundação de Portugal no século XII. Na época romana chamava-se Portus Cale, e foi daí que se originou o nome do país.

Estou em Faro, Algarve, extremo sul de Portugal. O Algarve e a vizinha Andaluzia, na Espanha, são banhados pelo Atlântico, mas logo depois está o estreito de Gibraltar, que conduz ao Mediterrâneo. No Algarve há vestígios fenícios que remontam ao século VII a.C. Vários povos andaram pela península ibérica, com destaque para os romanos e para os árabes, que aqui são chamados de mouros, e que permaneceram nesta região por mais de quinhentos anos.

O nome Algarve vem da expressão árabe al gharb que significa “o ocidente”. Muitos nomes de lugares algarvios começam por al: Almancil, Albufeira, Alportel, Alcoutim. Entre as coisas que os mouros legaram ao Algarve está a cor da pele, não tão clara quanto a dos portugueses do norte.

O nome Faro, ao que parece, também tem origem árabe. Viria de Harun, “Aarão”, que em português arcaico era Fárão. No entanto, antes de se chamar Faro a cidade teve outros nomes, e o primeiro deles foi Ossónoba, que até hoje é lembrado por aqui.

Não sei quantos residentes um povoado em Portugal precisa atingir para ser considerado uma cidade. Talvez meus leitores saibam e me ajudem. Apesar de habitada desde muito antes, Faro só foi reconhecida como cidade em 7 de setembro de 1540.

Nos séculos XIV e XV a colônia judaica foi próspera em Faro, mas em 1496 um decreto do rei D. Manuel I expulsando de Portugal os judeus que não se convertessem ao catolicismo, fez com que, apenas em teoria, essa colônia desaparecesse. Falando de novo na Ângela: ela é autora de um excelente livro, O português que nos pariu, que aborda, entre outras coisas, a importância que esse decreto teve para a colonização do Brasil.

Uma curiosidade: as pessoas costumam saber da existência das judiarias, que eram bairros destinados aos judeus, mas em Lisboa havia uma mouraria, destinada aos muçulmanos. Isso lá pelos idos do século XII. O bairro lisboeta conserva até hoje o nome de Mouraria, e é um dos mais tradicionais redutos do fado.

Como sou leiga, a prudência me aconselha a parar com as observações históricas. A trajetória de qualquer lugar da Europa, onde tudo é uma grande mistura, e ao mesmo tempo há tão grandes diferenças, é complicada e, não raras vezes, cheia de lacunas e contradições.

Para não ficar apenas no passado, vou dar uma dica para quem visitar o Algarve e quiser levar para casa um artigo algarvio: compre flor de sal. A extração de sal é, há séculos, uma atividade econômica importante nesta região e o produto é de excelente qualidade. O resto aproveite por aqui mesmo e leve na memória. E, como a comida em Portugal é deliciosa, provavelmente também nos quilos a mais…

Legado

California delegates react during the second day session of the Republican National Convention in Cleveland, Tuesday, July 19, 2016. (AP Photo/Carolyn Kaster)
Convenção Nacional Republicana em Cleveland, 19 de julho. (Photo AP/ Carolyn Kaster)

Eu estava cortando um dobrado para aceitar todas as análises da mídia afirmando que o assassino de Nice não era jihadista: pareciam tão falsas quanto a descoberta de que eram igualmente falsas as armas e granadas encontradas em seu caminhão — “O caminhão ‘de sorvete’ de Mohamed” que já virou lenda: 84 mortos, ceifados, esmagados pelo matador desalmado.

Agora me digam, que diferença faz? Com seu ato indiscutivelmente criminoso o sujeito fortaleceu a jihad de qualquer maneira, e atos como este seguem inspirando os mentalmente perturbados no mundo inteiro. Será que alguém, em algum lugar, ainda tem dúvidas de que este estado de coisas cada vez mais violento com que temos sido confrontados nos últimos dois anos, depois do estabelecimento do assim chamado “califado” no Oriente Médio, é a motivação básica por trás desses atos tenebrosos?

Pior, acredito que a violência no mundo, jihadista ou não, está próxima de atingir uma massa crítica; e aí, meus amigos, será muito mais difícil encontrar uma solução. Para nem mencionar os terríveis assassinatos de policiais nos Estados Unidos nestas duas semanas, nossa “última tendência” em território nacional (já estou falando como uma americana, não é?).

Comecei esta crônica com a firme intenção de culpar o Nobel-da-paz-precoce Barack Obama por todo o mal existente no mundo, recente ou não, incluindo a crescente divisão racial nos Estados Unidos. Mas alguma coisa na declaração dele a respeito das mortes de Baton Rouge, Louisiana, me fez mudar de ideia, devo confessar. Parafraseando o grande Luís de Camões: “um valor mais alto se alevanta”.

Então, citando o Presidente Obama (vamos combinar, se fosse para levar a sério todas as belas palavras que ele profere regularmente, teríamos que reconhecê-lo como o maior político da terra, de todos os tempos, homem ou mulher): “Essa retórica inflamada não nos ajuda em nada. Nem muito menos acusações infundadas jogadas a esmo para amealhar vantagem política ou reafirmar determinado programa. Precisamos medir nossas palavras e abrir os nossos corações. Todos nós”.

Bacana. De verdade. É isso mesmo.

Mas não é o que tenho visto. Esta semana tivemos a Convenção Nacional Republicana, e a retórica inflamada concentrada em destruir Donald Trump andou tão violenta que fui obrigada a deixar o Twitter de lado por uns dias. Não que o Twitter se incomode, ou se preocupe de fato e de direito com o que lá se publica: o “ativista supremacista branco gay” Milo Yiannopoulos (nem sei se nesta ordem, mas é tanta qualificação sem sentido que achei melhor colocar tudo entre aspas para me proteger de qualquer objetivo escondido) acaba de ser banido do Twitter para sempre, por exemplo. É isso mesmo: para sempre. Isso, apesar de tanta violência e preconceito e racismo e antissemitismo e ataques à força policial e etc. e tal, tuitados e retuitados à vontade todos os dias. Para nem mencionar, é claro, o anti e o nuncatrumpismo generalizado. Fico pensando se na semana que vem, quando teremos a super aguardada Convenção Nacional Democrata, veremos estas mesmas mentes brilhantes antitrumpistas se revelarem como justas, equilibradas, imparciais e maravilhosas cabeças pro-clintonianas. De qualquer maneira, provavelmente não estarei por lá para conferir.

Essa tal “campanha” tem sido tão bem-sucedida que, apesar de nos EUA ainda existir um lugar (democrático) para pessoas que apoiam o Partido Republicano, o mesmo não se pode dizer do restante do mundo, o Brasil incluído, onde Trump é rejeitado tão radicalmente como Obama foi aceito em 2008, e com base nas mesmas premissas: coisa nenhuma. Deve ser tudo por conta dos cabelos diferentes, como se diz por aí.

Acho engraçado que toda esta acachapante fúria contra Trump (tem que chame de “assassinato de caráter”) — que, por sinal agora inclui os filhos, netos, bisnetos e demais futuros descendentes da família Trump para todo o sempre —, além de fazer questão de negar a realidade, se ocupe primordialmente de insignificâncias, como a questão da “tendência dos Trump a plagiar discursos”.

Eu vi. Ninguém me contou.

Bastava ligar a TV na transmissão ao vivo da Convenção para ver o entusiasmo, a torcida empolgada, a oratória eloquente exibida pela antigamente-considerada-estranha Tiffany Trump, filha mais nova do candidato, ou pela atraente previamente-considerada-burra Melania Trump (a droga do corretor xenófobo do Word corrigiu automaticamente para Melanie e eu custei a perceber), ou o articulado e inteligente, antes-visto-como-mimado Donald Jr. (que por sinal, agora ficamos sabendo, dirige um trator tão bem quanto seus carros de luxo) — tá bem, peço desculpas por ficar parecendo uma fã incondicional do Clã Trump, coisa que não sou. Para nem mencionar outros competidores espertos na arena política americana, como Chris Christie, governador de New Jersey, que em seu discurso encenou um julgamento de Hillary ao vivo, abordando os seus “malfeitos” antes de jogá-la aos leões famintos-de-palavras, ou melhor, republicanos raivosos: “Hillary na cadeia! Hillary na cadeia!”

E aí, com um simples toque suave no controle remoto, a gente se conectava numa realidade completamente diferente. Na qual, documentada pelos canais de “oposição”, para a máxima curtição dos democratas, a Convenção era descrita como um fracasso retumbante, tediosa, equivocada, comprovando sem sombra de dúvidas a total incompetência do partido, descrito por eles como “em frangalhos”, uma vergonha irremediável para seus pobres constituintes que tinham agora comprovada a sua burrice e limitação intelectual. Qualquer semelhança com os ataques dos petistas não é mera coincidência.

Pô. Peraí. Cada um dos dois partidos abrange mais ou menos 50% do eleitorado americano.

Como uma coroa mal-humorada, antes-sem-filhos-agora-mãe-orgulhosa-de-dois-rapagões, confesso que me comovi com a energia amorosa, a sincera admiração filial exibida por Don Jr., que, como delegado de Nova York, deu ao pai os delegados necessários para ganhar a nomeação, atingindo o “número mágico” que tantos especialistas garantiram por tanto tempo que o desprezível Donald Trump jamais alcançaria. O Júnior estava orgulhoso de verdade, dava para ver, podem acreditar.

No final das contas, o que pude ver foi uma celebração familiar, digo, uma celebração da família como o mais significativo valor americano. Agora, é claro que alguns “programas” não têm o menor interesse em apoiar um campo contemporâneo tão controverso e cheio de preconceitos, com seus “adeptos” tendo despendido tempo e energia demais advogando o exato oposto disso, isto é, a veracidade discutível dessa instituição tão ultrapassada como a família tradicional, antigamente conhecida como uma super simplificada célula doméstica composta de mãe-pai-e-filhos. Dá para entender. Eles têm pavor de perder suas conquistas, que tornaram nosso planeta tão melhor e mais seguro para todo mundo — uma ameaça identificada hoje em dia como “risco de regressão social”.

Agora, falando sério, tenho uma confissão a fazer: estou tão amedrontada com o atual estado de coisas em nossa sociedade, pela perda da nossa segurança e pela lamentável, porém consistente sensação de desesperança com relação ao nosso futuro como espécie, que considero esta a verdadeira razão de estar torcendo por Trump, já que não posso votar. Algo precisa mudar.

Tenho consciência de que esses meus comentários retrógrados poderão surpreender muita gente. Acredito honestamente que muito pouca gente associa esse estado de violência e divisão social aos loucos incentivos na direção da eliminação de qualquer coisa que possa remotamente soar como “tradição”. E isso inclui, certamente, a tendência mundial de recuperação dos valores nacionais, fronteiras, “separação” dos demais. Dito de outra forma: “isolacionismo”.

Preciso ser bem clara quanto a isso: o fato de ver qualquer outra pessoa como diferente de mim — e de ver esta diferença como enriquecedora, e não limitante, apesar de nem sempre estar disposta a abrir meu espaço pessoal para determinada pessoa em determinado momento — não faz de mim uma pessoa horrível, uma xenófoba hidrófoba. O que considero um pesadelo legítimo é a possibilidade de um mundo pasteurizado, no qual, apesar da retórica em favor da diversidade, o que se busca de verdade é a homogeneidade dos humanos: todo mundo tem obrigação de aceitar os mesmos valores e abaixar a cabeça para uma teórica “liderança global”.

A questão é confusa, admito. Eu jamais poderia declarar minha admiração por uma Lei Islâmica radical, ou, para ser bem gráfica, o hábito de “circuncisar” as mulheres extirpando-lhes o clitóris, o que pode até satisfazer certas culturas ao redor do mundo. Mas isso precisa parar. Agora. Já. Além do que, há algo de flagrantemente equivocado no jeito como temos tentado obter essa aceitação, e não está funcionando, simples assim.

É claro que acreditar que a eleição de Trump vá resolver todos esses sérios problemas constitui um óbvio salto de fé que atinge as raias do absurdo. Não acredito em nada disso. Mas de algum jeito, em algum lugar, ainda que muito sutilmente, algo precisa acontecer para dar um basta nessas tendências mundiais na direção de uma contemporaneidade que, francamente, só tem nos prejudicado.

E é isso que eu queria dizer. Nas próximas duas ou três semanas, enquanto a corrida política americana se reorganiza para atingir “o próximo estágio”, vou me dar um tempo. Chegou a vez na minha mesa de edição de um projeto muito pessoal que venho acalentando, e para o qual venho me preparando há mais de seis anos, e espero que o mundo me dê alguma tranquilidade para que eu possa me dedicar a isso. Ninguém está nem aí para o que escrevo mesmo, e um pouco de distância do ciclo frenético da mídia só pode fazer bem a uma pensadora conectada em potencial.

No final das contas, amor e beleza precisam começar dentro de casa. E do coração.

Um novo caso de corrupção institucionalizada

A competição é só civilizadora enquanto estímulo; como pretexto para abater a concorrência, é uma contribuição para a barbárie.
Agustina Bessa-Luís

 

Russia banida das olimpiadasNaturalmente, a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís não disse essa frase no contexto de competições esportivas, mas ela cai como uma luva para o caso do doping russo. Afinal, o objetivo de se aplicar “estimulantes” nos atletas é justamente abater a concorrência.

Por essa razão, pela barbárie constatada por Agustina (e é mesmo), o atletismo olímpico não contará com atletas russos competindo por seu país. É que foi julgado pelas cortes esportivas um processo acusando o próprio governo russo de coordenar um esquema de doping. Vamos combinar, é um tipo de corrupção institucionalizada.

Descobriu-se o esquema pelo atletismo, e já se sabe que o futebol russo também está contaminado por um programa denominado SAVE, capitaneado pelo Ministro dos Esportes russo, que, por sinal, também é o cartola da Federação Russa de Futebol, que impedia que o doping de certos atletas, escolhidos por ele, fosse revelado.

Quem garante que atletas de todas as modalidades também não participaram do esquema? E a vaga nos Jogos Olímpicos? Foi conseguida com suor ou com uma ajudinha do ministro?

Talvez a dúvida seja a principal motivação para banir toda a delegação russa dos Jogos Olímpicos do Rio, decisão que deverá ser tomada no próximo domingo pelo Comitê Olímpico Internacional. É injusto com os atletas russos que comprovadamente não “participaram” do esquema. Mas, por outro lado, como garantir que isso não ocorra novamente? Como garantir que algum atleta da equipe não tem mérito para estar ali, tendo conseguido a vaga dentro de um esquema? E a injustiça com os demais atletas de todo o mundo? E mais, como premiar um país que corrompeu o sistema? Qual o real significado do quadro de medalhas?

Os Jogos Olímpicos são uma oportunidade de vermos os limites do corpo humano. Os atletas de alto rendimento protagonizam um espetáculo de beleza, força e habilidades físicas que nos encantam e emocionam. Desafiam seus corpos ao limite. É preciso talento, mas sem treinamento e disciplina talento não vale muita coisa. Nesse caso, acrescente-se um remedinho também, capaz de diminuir o esforço e melhorar a performance.

Os tribunais esportivos que julgaram o caso foram unânimes em banir o atletismo das Olimpíadas 2016, mas caberá ao COI a decisão final sobre a participação de toda a delegação russa. O presidente do COI declarou que o caso é chocante e sem precedentes.

Talvez o caso da Fifa seja a ponta do iceberg da corrupção no mundo esportivo, onde circulam cifras milionárias e que tem na realização de eventos como os Jogos Olímpicos a oportunidade perfeita para “arrecadar” para si somas significativas.

E eu que pensava que corrupção nas Olimpíadas fosse algo exclusivo do Brasil, com suas obras superfaturadas e malfeitas. A cada episódio como esse, parece mais claro que não há limites para a capacidade humana de roubar ou tirar proveito das situações para abater a concorrência ou simplesmente se dar bem. É a barbárie. É lamentável. E desanimador.

Bom fim de semana procês!

 

Tirando o sofá da sala

oldsofaEssa história de a dona Dilma estar indignada com a revista que publicou as mordomias ilegais de sua filha Paula — e a disposição de processar todo mundo, repórter, editor, fotógrafo, contínuo, o jornaleiro da esquina — lembra a piada do marido que flagrou a mulher traindo-o no sofá da sala e resolveu o problema vendendo o sofá.

O que vai adiantar processar a redação da IstoÉ? Por acaso isso fará que a pouca vergonha de os contribuintes pagarem segurança de chefe de estado para dona Paula se volatize no espaço? Que o crime deixe de ser crime? Que os brasileiros não tenham sido afanados, durante oito anos, de razoável quantia que, com certeza, seria mais bem aplicada em benefício público? Fazendo uma conta boba, baseada nos R$13 mil e lá vai pedrada que a família Roussef, sucursal gaúcha, gastou de combustível no último mês, podemos acreditar que os dois mandatos da primeira filha custaram aos cofres públicos, só de gasolina, cerca de R$15 milhões. É mole?

Isto, sem contar o aluguel dos oito carros “blindados de fábrica”, como afirmou o dono da locadora. Tudo bem que a única filha da presidente da República precisasse de segurança. Mas sem exagero, não é? O príncipe William é herdeiro do trono da Inglaterra e se movimenta com apenas um agente.

Fico constrangida com os nossos delírios terceiro-mundistas, nossa vocação para o exibicionismo. É muita indigência mental, muita lambança para um só pote de melado.

Embora ande com o pé atrás com a Justiça brasileira, gostaria que o juiz que recebesse o processo calculasse bem direitinho quanto custaria uma segurança menos ridícula para dona Paula. E condenasse dona Dilma a devolver a diferença.

Seriam muitos, muitos milhões. As senhoras Dilma e Paula armaram um barraco com os nossos impostos.

Melhor deixar o sofá na sala, madame ex-presidente. Como ensina a sabedoria popular, em merda quanto mais mexe, mais cheira mal.

Finja que não viu, que não sabe de nada.

Já pensou se a Justiça dá ganho de causa a nós, os idiotas que bancamos sua farra familiar durante quase 96 meses?

 

Flores na paisagem

ipeQuando o inverno chega em minha terra, algo acontece que aquece meu coração.

Não que o frio seja tão intenso, muito menos que uma nevasca cubra nossas montanhas.

Aqui o inverno não se faz rigoroso. Não é o mesmo de outrora, pois o homem, ao atuar de modo agressivo na natureza, a alterou; o que era natural se tornou imprevisível. Mas ainda assim, o tempo por aqui, apesar de não ser como outrora, ainda resiste, e algumas coisas permanecem serenas nestas paragens.

Em Minas Gerais, as montanhas ainda sobrevivem, apesar das mineradoras, garimpos e afins. Nos campos e nas cidades, algo em comum acontece e nos alegra o coração.

Falo dos ipês!

Para aqueles que não conhecem essa bela arvore, ela é típica de nossa região. Quando chega esta época ou pouco antes do inverno, de suas copas surgem flores que colorem campos e metrópoles. Podem ser de alguns matizes, mas o roxo e o amarelo predominam em grande parte, modificando a paisagem. Com o frio, é comum o chão amanhecer salpicado com as pétalas que caíram durante a noite.

Muitos podem estar perguntando: qual a importância desse fato tão singelo?

Talvez seja o fato de acontecer independente de nossa vontade.

No meio de tanto ódio e ressentimento, em nosso país e no mundo, é bom saber que algumas coisas permanecem desafiando com sua beleza este horror.

Por mais que a dor e a violência predominem nos noticiários, e que notícias boas e sinceras não nos chamem a atenção, ainda há lugar para o belo no mundo.

Sei que o sucesso e o dinheiro se tornam a razão de muitos para dar sentido a esta vida. Mas se é verdade que ter independência financeira é fundamental, tornar-se apenas um instrumento de negócios não nos torna mais humanos.

Acredito que possamos de vez em quando levantar os olhos do computador, do celular, e ver um pouco além.

Sei que para muitos pode parecer uma blasfêmia dizer que gosto de ler um livro, caminhar um pouco a pé ou escutar uma música. Mas me arrisco a não ser compreendido, a me chamarem, quem sabe, de poeta, como se isso não fosse um elogio.

Não defendo viver alienado no mundo, ou estar desvinculado da realidade do meu país. Acredito, porém, na possibilidade de olharmos um pouco mais além daquilo que o dinheiro proporciona, ou da satisfação de fazermos um bom negócio.

Acho que ainda há espaço para encontrar um amigo, conversar de forma descontraída, e até se divertir um pouco com um caso engraçado ou uma lembrança do passado.

Estar ciente da realidade não significa desespero, amargura ou mau humor. Se não temos muito com que nos alegrar hoje em nosso país, ficar na queixa e na lamentação não vai mudar a nossa vida.

Por isso, olho minhas árvores com alegria, e feliz caminho entre elas.

Caminho com a esperança de que o simples e o belo continuem a fazer parte da minha história, e que viver bem seja mais que uma possibilidade.

Eu quero ter um milhão de amigos…

amigosDia 20 de julho, Dia Internacional da Amizade.

Especialmente nos dias de hoje, é sempre bom lembrar que temos amigos. Aliás, ter amigos é sempre ótimo — em tempos ruins e em tempos bons. Mas discordo de quem diz que “ter amigos é uma dádiva”.

Para mim, amizade não é um presente, é uma construção. Amizades que se mantêm apesar de falta de respeito, desconsideração e omissão, não merecem este nome.

“Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves”? Sim, é. Mas que estas chaves não sejam outras que não a reciprocidade, a admiração mútua, a persistência. Sim, a amizade verdadeira detém o atributo da resiliência — ela supera pressões, se adapta a novas circunstâncias, lida com problemas. Afinal, estamos falando de seres humanos — mutáveis seres que não precisam ser o tempo inteiro a mesma coisa,  seres que têm opiniões diferentes das nossas e que podem até mudar eventualmente de opinião.

Geralmente, pessoas que não mudam… Conhecem aquele tipo “nasci assim e vou morrer assim”?  Ah, geralmente essas pessoas são umas malas — carregadas de passado, e não há quem goste de carregar mala pesada.

A amizade é cordial, é democrática, excelente exercício de democracia.

Muito me espanta às vezes quando vejo pessoas que encerram amizades antigas, só porque as opiniões não coincidem. Uns tempinhos atrás, quando a Lava-Jato deu início aos trabalhos, assisti com muito espanto pessoas desfazerem amizades porque eram contra (ou a favor) da operação.

Quer dizer: se pensa como eu, é pessoa amiga, se pensa diferente é inimiga? Por favor…  A humanidade já viu esse filme, e o resultado que a História registrou foi intolerância a opções, racismo, guerras.

Vamos viver nossas amizades com generosidade, vamos aprender na diversidade, vamos respeitar o pensamento do outro. Quantas vezes alguém já lhe disse alguma coisa, diferente das suas convicções, na qual você nunca havia pensado antes? E que te fez refletir e sentir-se uma pessoa melhor?

Sócrates elegeu como princípio uma orientação escrita no frontal do Templo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”.

Aí está, no meu entender, a grande chave que abre todas as portas, de todos os portais: quando você se conhece, domina o seu mais primitivo desejo, identifica os seus erros, os seus acertos e adquire a competência para mudar sua relação com as outras pessoas e com o mundo. Simples assim…

Simples assim? Não, nada simples, porque é claro que, inconscientemente, gostaríamos que todos fossem como nós: não haveria discussões, talvez fosse menos trabalhoso estabelecer relacionamentos.

Mas… isso seria um tédio. As oportunidades de aprender seriam poucas, e o mundo seria de uma só cor. Quer coisa mais entediante e pequena? Infelizmente, vemos isto com frequência: filhos têm que pensar igual a seus pais, mulheres igual a seus maridos, maridos igual a suas mulheres, amigos “obrigados” a pensar como seus amigos. Caso contrário, vira ofensa. As pessoas esquecem que da divergência pode nascer a sabedoria, e que amigos, quando divergem, muitas vezes estão nos apontando fatos para os quais temos ‘pontos cegos”, que não conseguimos ver e que, geralmente, são armadilhas do nosso próprio inconsciente.

A mídia social, especialmente o Facebook, vulgarizou o conceito de amizade — todo mundo é amigo. Nada disso, são apenas conhecidos, O que não é ruim, ao contrário, é muito bom termos muitos conhecidos, ouvir conceitos e ideias diferentes, conhecer novas formas de pensar, mas amigo… É OUTRA COISA.

A canção diz “Eu quero ter um milhão de amigos”. Pois eu, não. Quero ter amigos em quantidade suficiente para que eu possa cuidar da amizade, procurar, abraçar, me interessar pelo que ocorre em sua vida, ajudar quando necessário. E amar. Eu não teria tantos braços e tanto tempo para dedicar a um milhão de amigos, mas para os meus amigos tenho todo o tempo do mundo e um estoque infinito de abraços.

Feliz Dia do Amigo, a todos os que têm, realmente têm amigos. E que sabe reconhecê-los no meio da multidão de conhecidos.