mai 19 2012

Vênus e a Psicanálise

O Nascimento da Vênus, de Botticelli - detalhe

Como já mencionei numa outra crônica, “Psicanálise não é conversa“, não sendo a Psicanálise uma terapia de conversa penso que posso chamá-la de psicoterapia de relacionamento, porque o objetivo é ajudar alguém a sair de um sofrimento psíquico, de alma. E todo esse papo de terapia parece não ter nada a ver com Vênus, planeta sempre associado ao amor e à beleza, à sedução. Vênus, astrologicamente, é o planeta da união e da atração. Foi Vênus que levou uma tribo primitiva a fazer acordo e juntar forças com outra tribo próxima — é o planeta que nos ensina que a união faz a força, representa a nossa capacidade de nos relacionar, de expressar afeto, fazer acordos, negociar, nos agregar. Não é à toa que muitos estadistas bem-sucedidos têm Vênus muito bem colocada em suas Cartas Natais. Vênus também determina o nosso gosto, nosso senso estético, a nossa sociabilidade, o que nos atrai ou nos causa repugnância, no nosso ambiente e nas outras pessoas; indica o que nós valorizamos, e então está relacionado com dinheiro, bens e recursos em geral.

Nas relações sociais, Vênus é civilizadora; sua energia é pacificadora, harmonizadora, suavizante, embelezadora. Sendo o planeta da harmonia, está relacionado aos valores, aos negócios e à capacidade de negociar, à medida justa nas trocas. Quer dizer, em qualquer acordo, todos têm que lucrar.

É muito relacionada à forma, ao equilíbrio, à proporção; é o planeta que dá forma às nossas ideias e as transforma em imagens, em imaginação, daí propiciando sua concretização. E também tem a ver com as construções, a arquitetura, as ideias construídas.
Antigamente, era considerada a pequena Fortuna Astral, um planeta de sorte, porque bons relacionamentos valem tanto ou mais que ouro, e saber cooperar leva à prosperidade.

É exatamente esse o princípio da pratica da psicanálise: é preciso haver empatia entre o analista e seu analisante (como se chama agora), para começar. E é a forma como se estabelece esse relacionamento entre os dois que vai provocando uma melhora na vivência de relacionamento do analisante. Quase todo o sofrimento da alma vem do amor não correspondido, mal entendido, mal buscado, da dificuldade ou incapacidade do analisante para fazer acordos justos e produtivos e exercer as qualidades venusianas já mencionadas em proveito próprio — o que só ocorre se houver também proveito alheio, se se puder deixar a solidão do egoísmo de quem “quer porque quer”, surdamente, impor suas vontades, ou a preguiça de fazer esforço e sair cedendo o que não se deve nos acordos e relacionamentos. É um preço caríssimo a se pagar.

Com isso, começa-se a prosperar, a relaxar e alcançar o bem-estar. Q excelência nas artes de Vênus é difícil de se atingir. Porém, é possível, mas somente com a ajuda de outros, em nossos diversos encontros.

 

 

 

mai 18 2012

Indiferença

A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu
tamanho original.

Albert Einstein

 

É impressionante como podemos passar às vezes a vida inteira com determinadas certezas que se mostram, em algum ponto de nossa existência, absolutamente errôneas. Foi o que se deu comigo em relação aos gatos.

Quando muito pequena, ganhei um gatinho branco muito lindinho, mas que se revelou em incrível criadouro de pulgas. Eu estava encantada com o bichaninho e tinha convicção de que ninguém neste mundo poderia deixar de gostar do bichinho. Foi quando chegou minha mãe:

— Olha, mamãe, o que ganhamos. — Eu já estava dividindo o presente para não correr o risco de ser chamada de egoísta, de ser acusada de querer ficar com aquela belezinha só para mim.

— Onde você arranjou isso?

— Foi o moço que mora aí na casa ao lado que me deu. A mãe dele ganhou muitos filhinhos e não pode ficar com todos, então ele quer dar para a gente.

Até aquele instante eu estava com o gatinho no colo e mamãe ainda não tinha se aproximado; mas foi aí que ela chegou mais perto e pode observar todos aqueles pontinhos escuros se movendo freneticamente pela pelagem branquinha no animal. Correu, pegou uma caixa de sapatos e mandou que eu colocasse o pobrezinho lá. Pela cara meio desesperada que ela fez, achei melhor obedecer e questionar depois.

— Mas, mamãe, coitadinho, ele vai ficar com frio.

— Você leve imediatamente esse bicho imundo para o lugar de onde ele veio, aliás vou mandar a Amélia levar. Você pode ir já tomar um banho para se limpar um pouco. Espero que não tenha pegado nenhuma doença.

Comecei a sentir aquele calor no rosto que parece que vai explodir, e as lágrimas vieram aos borbotões. Quando Amélia esticou os braços para pegar a caixa de sapatos, senti que era como se alguém estivesse me arrancando as entranhas: é incrível como as crianças e adolescentes sentem tudo com muito mais intensidade do que nós, adultos, e parece que quanto mais vivemos menos nos afetam os dissabores, as desilusões. Entretanto, acho que aumenta a capacidade de amar, aquele amor paciente e tranquilo.

Resumindo a história do gatinho, nunca mais o vi. E sobrevivi, ao contrário do que pensam muitos quando não querem contrariar nenhuma vontadezinha dos filhotes. Aprendi a lidar com isso e nunca mais quis saber de gatos, que, com o passar dos anos, comecei a considerar falsos, sorrateiros, não amorosos… até que um dia…

Bem, minha filha adora todos os animais, e dentre cobras e lagartos —literalmente — resolveu trazer uma gatinha que adotou nos Estados Unidos. Quando ela ainda estava lá, eu já ficava meio de longe, com medo de levar uma unhada ou coisa parecida. Mas acabei me encantando.

Não se pode esperar arroubos de alegria quando se chega em casa, nem rabinhos abanando, somente um arzinho blasé quando ela vem me receber no alto da escada como se estivesse passando ali por acaso, mas a gente sabe muito bem que ela pressente nossa chegada muito antes do barulho do carro entrando na garagem. O máximo que ela faz é permitir que façamos carinhos em suas costas, e agora que está à vontade, até a barriguinha rosa ela expõe para que passemos os dedos por ela.

Moral da história: precisamos manter nossas mentes abertas e aceitar novos desafios. Saber que não somos donos da verdade.

 postado também aqui

 

mai 17 2012

Diário de uma Europa doente

São nove horas em Budapeste. Entro no carro que nos levará a Viena e conheço Kristoff, nosso guia. Seu português é perfeito, pois ele morou no Rio. Do seu discurso vêm as guerras que fixaram o povo húngaro às margens do Danúbio — a mesma Hungria que foi obrigada a lutar por Hitler e sucumbiu à máquina soviética.

Chegamos a Bratislava, Eslováquia. Kristoff nos leva a um castelo. Ele despreza o edifício: “Isso aqui é muito malfeito. Os eslovacos fizeram isso aqui para tentar ter uma história. Eles não têm tradição, não são como os húngaros”, diz.

Em Viena, Jamelka é uma sardenta que nos conduz pelo Ring, o centro histórico; nos apresenta o Bairro Grego. Numa viela, perto da casa de Mozart, está pichado na parede. “Tourist is terrorist”.

Fico assustado. Passa um sujeito no passeio e joga seu ombro no ombro do meu amigo. Sinto que ele nos quer longe da Áustria. Estou comendo schnitzel, porco à milanesa. Almoço apreensivo.

Estou na van que nos levará a Praga. Deixo o Danúbio para trás. Vinícolas. Estrada perfeita. Ross é o motorista esloveno cinquentão, que fala inglês britânico. Festeiro e piadista, dá uma de guia e nos passa altas informações. Usa um cachecol coloridaço. Bamboleia os pulsos a cada frase. Adora mostrar que é gay.

Estamos cruzando a fronteira com a República Tcheca. “Preparem-se para bandidos e estradas ruins”, alerta o motorista. Dito e feito: um rapaz tenta nos roubar no estacionamento de uma lanchonete; minha cunhada grita, o elemento sai vazado. “Aqui não é a Áustria!”, alerta o esloveno.

Tento pedir um sanduíche com uma coca. A moça leva cinco minutos para entender o que quero, está impaciente comigo. Minhas mãos tremem.

Em Praga, Ross pede informações sobre como chegar ao hotel, fala com um senhor naquela língua muito doida. Ross vira-se para mim e diz. “É um sérvio. Sérvios são ignorantes”. O motorista fala com outro homem. Agora cochicha para mim: “Bah, pelo jeito é búlgaro”. Gorjeta para Ross em coroas tchecas, moeda boa e barata. Ross, o gay intolerante.

Museu do Kafka. Sombrio. Vejo as primeiras edições de seus clássicos. Estou muito emocionado. A Metamorfose: todos somos Gregor Samsa, não passamos de baratas tontas. O Processo: somos sempre condenados.

Tanya é a guia judia que nos leva ao colossal castelo de Praga. Seu português é mais ou menos, mas rola. Digo a ela que guiar pessoas de todo o mundo pela cidade mais deslumbrante da Europa deve ser legal demais. Na catedral de São Vito, ela comenta: “Só que eu não gosto de guiar alemães. Eles pensam que são os donos do mundo. Também não gosto de russos. Fazem perguntas maldosas, querem saber de tudo com o rigor de todos os detalhes. Os russos torcem para eu errar alguma informação para jogar isso na minha cara. Gosto dos brasileiros. Amanhã tenho outro grupo de brasileiros. Que bom!”

Tanya chora de leve em frente ao cemitério judeu. O Menino Jesus de Praga usa roupas luxuosas. Hoje vou ao show do Jeff Beck. Faço a conversão: oitenta reais o ingresso. Se fosse no Brasil, seria quatrocentos.

A crise na Europa é muito mais profunda do que as dívidas públicas dos estados. A União Europeia é uma farsa; os europeus estão com o espírito doente: a intolerância e a xenofobia estão gritando no Velho Mundo caduco, e os turistas tiram fotos na ponte do Rei Carlos.

A cerveja tcheca é boa mesmo. O joelho de porco é crocante. O garçom está de mal humor.

Até a próxima.

 

 

mai 16 2012

A Montanha Mágica

— João, acorde! — Parecia um sonho, mas devia ser realidade.

Com dificuldade, o garoto abriu os olhos. Viu outros, carinhosos, pertos dos seus. Eram os de sua mãe. Ela passou a mão delicadamente nos cabelos dele e lhe deu um beijo na testa. Apesar da manhã fria, o menino se sentiu aquecido. Levantou o corpo apoiado nos cotovelos, viu a mãe sair do quarto, ajeitou o corpo, assentou-se, virou-se para o lado. As pernas penderam livremente, sem ainda encontrar o chão. Sentiu algo frio encostando em seu pé; assustou-se por um momento, mas reconheceu o nariz:

— Ralf!

O cão saiu de baixo de sua cama já com o rabo abanando. Encostou a cabeça no colo do menino e esperou o afago. O garoto riu do companheiro e lhe coçou as orelhas. Saltou do leito, agora mais disposto. Trocou de roupa e foi para a sala, seguido pelo amigo.

Sobre a mesa, o bule de café, os biscoitos de forno e o pão recém-assado acabaram de despertá-lo. Sentou-se no lugar de costume e sentiu algo tocar sua perna. Ralf trouxera sua vasilha e a segurava com os dentes. João riu, como fazia todas as manhãs. Tomou o recipiente do cachorro, lançou nele dois biscoitos dos grandes e um pedaço de pão, molhou com leite de ovelha o conteúdo e abaixou-se para pôr o pratinho no chão. O animal acompanhava com os olhos os preparativos que, com cuidado, o menino levava a cabo. Assim que a vasilha tocou o chão, começou com tranquilidade a comer.

— João, você estraga este bicho!

A voz da mãe soava como recriminação, mas, acompanhada de um sorriso, dava ao menino a certeza da cumplicidade familiar. A casa, feita de madeira, era consistente, e o velho aquecedor de ferro aquecia o ambiente. Apesar de pequena, mostrava o apreço com que fora construída. Tinha apenas dois quartos, um único banheiro e uma cozinha que fazia a função de sala de jantar e de visitas — era a parte mais ampla da casa, e na limpeza dos cômodos se mostrava o cuidado e zelo da dona.

O sol bateu no costado daquele lar, devagar, invadindo o ambiente através da janela e dos vidros, ainda embaçados pelo frio da Serra Gaúcha. Enquanto João terminava o café, sua mãe preparava o pequeno lanche para o pai. Era tarefa do menino levar o almoço àquele a quem tanto admirava.

O pai já acordara duas horas antes e partira com as ovelhas em direção à pastagem ao sul de sua morada. João iria encontrá-lo e ficaria em seu lugar, até o pai trazer os cordeiros de volta ao curral que ficava ao lado da casa. Os pequenos eram de difícil manejo, e só com a experiência do pai e a ajuda de Lady, sua cadela, era possível realizar a tarefa de colocá-los no cercado. No total, o rebanho se compunha de 100 animais, entre ovelhas, cordeiros e um carneiro, todos da raça Merino Australiano, animais puros, próprios para a produção de lã.

Lady era mãe de Ralf, e ajudava o pai de João há mais de dez anos. Enquanto pensava na vivacidade da cadela, João caminhava com o amigo em direção ao sul. O cão, uma mistura de Bernese Montagne e pastor alemão, o acompanhava alegre. Apesar do tamanho (pesava em torno de 50 quilos), era delicado com o garoto. A mãe, de quem o filhote herdara o pelo tricolor, a robustez e músculos, era Bernese; do pai, Ralf recebera a inteligência e o senso de guarda e responsabilidade: fora selecionado pelo criador de ovelhas na hora de vender os outros filhotes, e se mostrara uma excelente escolha. Enquanto o menino desaparecia no horizonte com seu animal, a mãe, na varanda, permanecia tranquila. João tinha apenas 9 anos, mas o cão tinha por ele verdadeira adoração e o protegeria com a própria vida.

O garoto caminhava com determinação; levava embrulhado em um pano o almoço prometido. Depois de mais ou menos uma hora de jornada, avistou, no alto de uma colina, a nuvem branca do rebanho envolvendo seu cume. Deu um assovio, colocando os dois dedos na boca. Um latido se seguiu: do outro lado a resposta veio, imediata.

— Vai, Ralf!

O cão não esperou outra ordem e disparou como uma flecha em direção à mãe, que desceu em direção contrária, ao seu encontro. O pai do menino surgiu, devagar, atrás da cadela. Os dois cães se encontraram no meio do caminho e pularam um no outro como se fossem dois filhotes pequenos. O garoto se aproximou do pai e o abraçou:

— A mãe mandou para o senhor!

— Obrigado, filho! — Passou o braço nos ombros do menino e ambos se voltaram para onde estava o rebanho.

— Lady, Ralf! Chega! — A voz forte do pai se dirigiu aos cães. Como se uma mão invisível os contivesse, os animais diminuíram a euforia e seguiram atrás do homem e do menino.

O pastor sentou-se em uma pedra, já gasta pelo uso, com o garoto a seus pés. Enquanto o pai almoçava, Lady se dirigiu ao seu posto de vigília, no lugar mais alto do terreno, com o filho ao lado. Após o repasto, o pai se levantou. Sem dizer nada e por meio de assovios comandou os cães na tarefa planejada. Em pouco tempo os cordeiros foram separados das mães para que essas pudessem descansar e se refazer da função materna.

— João! Agora é com você! — Disse isso e desceu devagar com os cordeiros em direção contrária à que o garoto viera.

O menino assumiu o posto, sentou-se na pedra antes ocupada pelo pai e vigiou o rebanho. A essas alturas, Ralf já executava sua função, juntando uma ovelha desgarrada que se achara dona do próprio destino. Em pouco tempo, o barulho dos balidos de mães e filhos foi diminuindo, conforme aumentava a distância entre eles. O silêncio chegou sem pressa e se deixou ficar. Algumas reses se deitaram, outras começaram a pastar tranquilamente. O garoto contemplava os animais e sonhava; olhou para o céu, sentiu a brisa no rosto e fechou os olhos.

— Acorda, meu filho! Já está na hora da aula!

O pequeno abriu os olhos devagar: estava no seu quarto e a mãe o olhava com um sorriso curioso.

— Vamos, menino, já são 7 horas!

Levantou-se devagar. O barulho da cidade grande despertando o trouxe de volta à realidade, que entrava sem cerimônia pela janela do apartamento. Caído ao chão, o livro mostrava na capa um garoto e um cão. O menino suspirou fundo, pegou o pequeno tesouro, marcou a página e se levantou para começar mais um dia.

 

 

mai 15 2012

Nem só de crimes vive a literatura policial

Quem gosta de História e História da Arte, especialmente a italiana, e mais especificamente a de Veneza, não pode deixar de conhecer o investigador Guido Brunetti, criado pela norte americana Donna Leon: nem só de crimes vive a literatura policial.

Nascida em Nova Jersey (1942), professora e escritora, em sua juventude Donna viajou para a Itália, onde estudou nas cidades de Perugia e Siena. Depois de trabalhar como guia turística em Roma, teve vários empregos como professora em escolas na Europa e Ásia. Desde 1981 vive em Veneza.

Senhora de uma escrita cinematográfica, com um fantástico domínio dos diálogos, Donna Leon é, além de tudo, uma mulher cultíssima. Seus livros contêm, além da fórmula policial muito bem aplicada, uma agradabilíssima lição de História e História da arte, tendo em todos eles múltiplas referências à ópera e à literatura. Trazem também um manancial inesgotável de receitas culinárias da cozinha mediterrânea mais sofisticada, e um precioso roteiro do melhor que há em Veneza e não consta de nenhum guia. Donna Leon conhece Veneza como a palma da sua mão, e se compraz em descrevê-la bem, com seus itinerários mais secretos.

Esta familiaridade não é de se admirar: sendo norte-americana, trabalhou muito tempo em Veneza, ensinando literatura inglesa. O protagonista de seus livros não poderia viver em outro local. Guido Brunetti está por volta dos 40 anos, tem dois filhos adolescentes e é casado com uma professora universitária. Os pais dela são riquíssimos, vivem de negócios financeiros algo obscuros e frequentam a alta aristocracia de Veneza e do restante da Itália, enquanto Guido Brunetti veio de classes mais baixas, é formado em direito, recebe um magro salário como policial e não tem muita paciência para as festas dos sogros. No entanto, são essas festas que proporcionam à autora a oportunidade de escrever sobre os fantásticos palácios e locais requintados de Veneza.

Guido e sua esposa se dão muito bem. Ele adora os filhos e tem um desprezo absoluto pela classe política italiana que considera, sem exceção, atolada na mais vil corrupção — uma corrupção que extravasa todos os poderes, inclusive o da polícia.
Morte no Teatro La Fenice foi a estreia no Brasil do charmoso Guido Brunetti, um comissário instintivo, ágil e cordial, funcionário exemplar da polícia de Veneza. Nesse livro, Brunetti investiga o caso do maestro Wellauer, encontrado morto em seu camarim depois de reger o primeiro ato de uma famosa ópera de Verdi.

Em Fardo da Nobreza, os jardins de uma casa abandonada em uma pequena vila na Itália permaneceram intocados por cinquenta anos. Quando o novo proprietário assume a propriedade e dá início a uma reforma, um túmulo macabro vem à tona. Animais, fungos e bactérias fizeram seu terrível trabalho, e o cadáver humano encontra-se em estado avançado de decomposição, o que impede o reconhecimento do corpo. Um anel valioso torna-se a principal pista desse mistério, que leva o comissário Guido Brunetti ao coração da aristocracia veneziana, uma família que ainda sofre com o desaparecimento do filho e cujos segredos perturbadores remontam à Segunda Guerra Mundial.

Enquanto eles dormiam se passa no início da primavera em Veneza. Tomado pelo tédio, o comissário Guido Brunetti já perdia as esperanças de qualquer ação, até que recebe uma estranha visita. Mais uma vez retratando as peripécias desse atípico detetive — amante da boa mesa e da literatura e casado com uma intelectual filha de um conde veneziano — em meio a canais, praças e vielas que ele conhece como ninguém, Donna Leon conduz os leitores aos subterrâneos de uma misteriosa organização religiosa, protegida por figurões da cidade. Brunetti precisará de muita cautela e astúcia para aplacar a influência dos poderosos, inclusive de seu chefe, e proteger uma boa alma.

Se não fosse pelo feriado de Ferragosto, que todos os anos inunda Veneza de turistas, a notícia de um travesti encontrado morto num terreno baldio certamente se tornaria o assunto mais comentado da cidade. Além disso, uma onda de calor faz os moradores se trancarem em suas casas, na segurança dos aparelhos de ar-condicionado, e o crime fica diluído entre os muitos outros escândalos que estampam as capas dos jornais. Para o chefe da polícia de Veneza, trata-se de um caso simples, banal: o michê fora assassinado por um cliente insatisfeito com os serviços prestados.

Em Vestido para morrer, apenas o comissário Guido Brunetti suspeita de algo maior por trás do crime. Quando o corpo é identificado como sendo o de um diretor de banco, Brunetti se vê às voltas com uma conspiração que envolve algumas das figuras mais importantes da cidade, e novos cadáveres não tardam a aparecer.

Num chuvoso domingo de inverno, a arqueóloga americana Brett Lynch recebe uma inesperada visita no apartamento que divide com a namorada — a cantora lírica Flavia Petrelli —, e acaba brutalmente espancada. Em Acqua Alta, o comissário Guido Brunetti, velho conhecido da diva do Scala, assume o caso e, com a ajuda de um pintor e connoisseur, desvenda os códigos internos do mercado de antiguidades e uma complexa rede de negociações espúrias. Por trás de tudo, paira a sombra da Máfia siciliana, que parece influenciar todos os setores da economia italiana. Como veem, nem só de crimes e cadáveres vive a literatura policial!

Até a próxima.

 

 

mai 14 2012

Poluição sonora, NÃO!!!

Eu realmente não sei se é velhice ou chatice. Mas a verdade é que cada dia que passa eu suporto menos os barulhos e ruídos. É a televisão alta, a marretada da obra, criança gritando, o telefone tocando, o celular apitando uma mensagem, a empregada falando com a vizinha pela varanda, o aspirador de pó ligado, a porta batendo e por aí vai… tudo junto e misturado.

Imaginem uma pessoa tonta: é assim que eu fico. A cabeça parece que esvazia, a mente fica em estado de desespero e o cérebro não processa nada, a não ser, claro, a poluição sonora à minha volta. Dá vontade de gritar bem alto:

— CHEGA! Pelo amor de Deus, vou surtar em 10, 9, 8, 7…

Mas não adianta, ninguém vai ouvir; o caos já foi instaurado. Ontem, dia de reunir a família, foi assim: os homens vendo o jogo do Fluminense x Botafogo quase no volume máximo da televisão (e comentando, óbvio); as crianças urrando pela casa (cada hora por um motivo); as mulheres conversando aos berros (tentando inutilmente ganhar do som da tv); e eu lendo a revista do Globo (ou não). Até que minha sogra me perguntou:

— Como você consegue ler com essa loucura em volta?

— Eu não consigo! Estou mal, muito mal mesmo, Ruth, você não tem ideia. Existe algum planeta que não tenha futebol?

Sendo na minha casa, dou uma de maluca, pego o controle, abaixo tudo, decreto uma lei de que criança só brinca no quarto e me enfio no banheiro para um minuto de paz. Mas dar uma de maluca na casa dos outros, o assunto fica sério, não dá! Aí,  só nos resta, na medida do possível, tentar manter a sanidade mental. Ontem consegui, mas não sei se sobrevivo ao próximo encontro.

A poluição sonora deveria ser proibida por lei. Em casa, enquanto um está lendo, o outro deveria ficar mudo. Enquanto se escreve, o telefone não poderia tocar, nem a campainha, nem o apito do email, nem a mensagem do celular. Na hora de conversar ou fazer as refeições, nada de música alta ou televisão ligada. Brinquedo infantil, só com o botão off ou sem pilha. Gritaria por causa do futebol, só bem longe de casa, de preferência lá no estádio (outro dia o vizinho quebrou a casa toda). E quanto à empregada que cisma em falar no volume 5 logo às 7 da manhã, tranque-se no quarto até as 12h00 — horário razoável para que alguém comece a emitir sons.

Será que esse mal tem cura?

 

 

mai 13 2012

Galinha ensopada

Certa vez, eu estava viajando e meu marido avisou à empregada:

– Vou levar duas pessoas para jantar.  Tem comida suficiente?

Comida nesse caso era galinha ensopada, a única coisa que a criatura era capaz de fazer sem supervisão.

– Pode trazer, doutor, dou um jeito.

– Para a mesa não ficar muito apertada, use o aparador.

– Tudo bem, doutor.

Quando ele chegou com as visitas, a mesa estava posta para a família do modo de sempre, e no aparador havia dois pratos extras.  De cara para a parede.

– Era para colocar a comida no aparador.

– O senhor não explicou isso.

 

Noutra ocasião, mandei preparar almoço para sete pessoas.  Galinha ensopada.  A mulher colocou a mesa para seis.

– São sete pessoas.

– Só encontrei seis cadeiras.

– E o que eu faço com a outra pessoa?  Mando voltar da porta?

– Não entendi.

– Deixa pra lá.  Pega uma cadeira na varanda.

– Ah, agora sim, a senhora teve uma boa ideia.

A propósito, uma frase que me enchia de medo era “Tive uma ideia!”

 

Sou exagerada com comida sempre que tenho visitas.  Em geral, sobra para o resto da semana.  Em um desses day after, o jantar, galinha ensopada, foi precedido de um anúncio:

– Hoje a senhora vai ter uma surpresa.  Vai ver que eu aprendi tudo que a senhora me ensinou.

Aguardei, ansiosa.  Não vi nada de diferente na galinha ensopada do dia anterior.  Ela anunciou que era na sobremesa.

Tinha sobrado fruta em quantidade suficiente para alimentar um batalhão por três dias, imaginei que talvez a surpresa fosse uma salada de frutas. Veio uma bandeja com todos os restos: manga, abacaxi, uva, melancia.  Nada diferente do menu anterior.

– Não notou nada, madame?

– Sinceramente….

– A senhora não viu que eu não acrescentei a manga?  Lembrei que a senhora sempre diz que a gente come primeiro a fruta aberta e depois é que come a fechada.  Então, não abri a manga.

A criatura tinha cogitado a possibilidade de cortar mais uma manga e só por milagre não o fez, uma rara vitória do bom senso sobre a burrice.

 

No começo, esses episódios me faziam sentir pena da moça.  Demorei a perceber que ela se achava normal e era feliz assim.  Qual de nós duas, afinal, era mais lesada?  Comecei a ter pena de mim, oprimida pela burrice (de quem?) de um lado e pelo politicamente correto do outro.  Um dia, ela resolveu dar outro rumo à vida.  Despediu-se com estas exatas palavras:

– Olha, se a senhora sentir saudades daquela galinha ensopada que a senhora gosta tanto, pode me chamar que eu venho fazer ela pra senhora, viu?

 

Por segurança, eu e meu marido só voltamos a comer galinha, ensopada ou de qualquer outra forma, uns dois anos depois.

Burrice é um conceito discutível. Humor também.

 

 

mai 13 2012

Fecha-se o ciclo

"Moisés" (c. 1513–1515), de Michelangelo Buonarroti, imagem creative commons de Wikipedia.

Assisti esta semana na tevê a “Perfect Sense”, um filme assim meio filosófico meio proselitista que através de umas imagens bastante atraentes – com ênfase absoluta nos seios naturais da protagonista – passa uma mensagem meio absurda mas meio que faz sentido, dá pra entender? A história é de um casal já em princípio meio estranho, desencontrado desde o início, ele cozinheiro, ops, perdão, Chef de Cuisine, e ela cientista, melhor, epidemiologista, bem a calhar, pois há uma epidemia que não para de se alastrar e vai tirando dos humanos os seus sentidos, um a um.

Engraçado que mais tarde, comentando com Alan (via skype, viu, gente, eu no meu mato com meu gato e ele no dele, com cachorro e tudo, o cachorro – digo, cadela – do Erik, claro), dissemos ao mesmo tempo que tudo aquilo parecia a descrição injustamente poética de uma epidemia real, o mal de alzheimer, mas no filme a consciência dos personagens se mantinha intacta, bem, a gente não sabe bem se no alzheimer não se mantém, apenas pensa, afirma que não; e é assim mesmo, os sentidos da pessoa vão se trancando um a um, que sofrimento, meu deus, para quem sente e para quem vê.

No filme, a perda de um sentido vem precedida de uma overdose daquela mesma coisa ou coisa parecida, por exemplo, o primeiro sintoma era a perda do olfato, então as pessoas sentiam uma tristeza inexplicável, inconsolável, uma nostalgia de tudo aquilo que já tinham perdido um dia e de cuja perda até já se haviam recuperado — bem, estou assim também, calma num dia, no outro despedaçada, lembrando ainda toda aquela dor por que mamãe passou, por que, meu deus, por quê? — e logo depois… não sentiam mais cheiro de nada. Em seguida vinha o paladar, o que para o Chef era extremamente inquietante pois viria a afetar não somente o seu prazer, mas também o prazer de dar prazer aos outros; esta era precedida de uma voracidade incontrolável, coisa que a gente conhece também muito bem – o paladar foi a última coisa que mamãe perdeu, quer dizer, sei lá, mas certamente a capacidade de engolir, então, babau. Ainda no hospital, nos últimos dias, com aquela gororoba nojenta que a mantinha alimentada evitando o circuito do gosto pra ir direto aonde interessa, o buraco no estômago, se é que vocês me entendem — no final, desculpem, tudo que entra, sai, ou entra pra sair —, coitada, ainda se lambia com o purêzinho de maça da fonoaudiologia. Nossa mãe.

Bem. A comparação com a doença real vai bem até um determinado ponto, porque o último sentido a ser perdido é a visão, quando, ao contrário dos cegos na vida — Liliane Camargos que o diga: vai se sair em breve pela KBR com A Psicanálise do olhar, ou, O Sonho dos Cegos, ela andou indecisa mas ficou com o primeiro subtítulo para seu livro de estreia, Do ver ao perder de vista —, já não havia outros que o substituíssem através de sua intensificação. Era a suprema mortificação, mas… ops. Peraí.

Antes que a luz se perdesse eram todos tomados por um excesso de luz, de amor, de querer estar junto do seu amor deixando de lado as diferenças, e o impulso era tão irresistível que quem não tivesse  com quem se virava ali mesmo na rua com alguém, mas não era o caso, no nosso caso havia um casal que estivera apaixonado porém se perdera, momentaneamente, por uma dessas besteiras a que hoje em dia a gente dá ouvidos pra não ter que se aporrinhar no dia-a-dia com a por vezes incômoda presença do outro. O fato é que uma vez abraçados, perdoados e iluminados, kaput, ia-se embora a visão, a visão de fora, pelo menos – ficavam os amantes embolados em sua própria e particular escuridão, afinal de contas, o amor é cego: de um amor no escuro nascemos e por entre outros amores no escuro, ou, pelo menos, à meia-luz, todos desejamos caminhar, são duas escuridões separadas por um intenso período de luz  [de ambos os lados da existência], hipotético, é claro, pois ninguém acredita realmente, visceralmente nisso, embora todos queiramos intensamente acreditar: da luz viemos e para a luz vamos voltar.

Agora, o problema sério do filme, ou, pelo menos, sua questão crucial – que nunca é explicitada, como, aliás, tudo na vida –, é que os quatro sentidos passam, mas o toque fica. Na cena final, os amantes, surdos, cegos, sem olfato nem paladar para se identificar, sentem ainda o toque molhado de suas mútuas faces a se tocar, molhado pelas lágrimas que correm, lágrimas de um desespero mortal ou pelo consolo de estarem juntos no momento fatal, sei lá. E isso me pôs a pensar.

É verdade, por exemplo, que no alzheimer o toque fica: a pessoa totalmente trancada em sua própria jaula, desprovida [da liberdade] dos sentidos e de quase todo o sentido que há na vida, sente-se mal ou bem quando é tocada por alguém e a isso reage, dependendo de quem a toca, claro. O Alan, por exemplo — ah, lá vem o Alan mais uma vez, é saudade pura, gente, quando ele está aqui nem ligo —, tinha um talento especial para tocar a mamãe: era aquela “mão de cirurgião” pressionar de leve o braço dela e ela parava de tremer, de gritar, o que fosse que a estava fazendo sofrer. Gostava. Sentia prazer. Embora, como vocês sabem porque já contei, quando ainda o enxergava ela literalmente se assustasse com ele, “sai daqui” etc.

Por outro lado, a única coisa no final das contas que realmente nos identifica – e me pergunto, por que seria que assim por nós ficou decidido? – não é nosso nome de batismo, nem nossa cara, nem nosso cheiro e muito menos o gosto da nossa carne quando lambida, a não ser, é claro, para os mais íntimos amantes, mas o toque, nosso toque único, o registro da polpa dos dedos eternizado, a nós associado para sempre nos computadores da burocracia.

Não deve ser por outro motivo que esses autointitulados “cientistas do apocalipse” que abundam por aí, preconizando para qualquer momento futuro o fim deste mundo e o início de um outro qualquer, volta e meia se gabam de terem encontrado em suas pesquisas “a digital de Deus”, Deus, aquele que ninguém ouve, cheira, degusta ou vê, mas cujo toque se encontra em tudo que nos cerca e até mesmo em nosso próprio corpo, dizem, afinal de contas, conta a lenda, fomos modelados com cuidado e prazer por sua própria maõzona onisciente de artista: Allora parla!

E um bom domingo procês.

 

 

mai 11 2012

A Escolha

Há alguns dias fizemos a abertura de um bazar que conglomerava 113 ONGS. Proferi algumas palavras que peço licença para transcrever aqui:

“Muitos não compreendem e nos questionam o que nos leva a sair do conforto de nossos lares, abrir mão de horas de lazer e até do trabalho, desprezando ganhos econômicos e financeiros em benefício de pessoas que às vezes nem conhecemos, associações, comunidades etc., às vezes abrindo mão até do que nos é mais caro, que é a companhia da família, amigos e até da saúde.

“Para quem pergunta, é difícil explicar, pois não vieram com essa marca no DNA. Essa força que nos compele tem vários nomes: cidadania, patriotismo, amor ao próximo.

“É muito bom estar em companhia de nossos pares, pois somente nós sabemos por que o fazemos sem necessidade de explicações. A sociedade não teria estrutura, caso faltasse gente abnegada fazendo o trabalho que muitas vezes seria obrigação dos governos, mas, como eu sempre respondo: alguém tem que fazer. Entretanto, os benefícios que temos em retorno são tantos, em matéria de agradecimento, de carinho, de sorriso, de abraço, de palavras de incentivo e, principalmente, um acalento na alma que nos ilumina os dias, que o trabalho até nem parece sacrifício.”

Mais difícil ainda é justificar o trabalho de síndicos de prédios, dirigentes de clubes associativos que não visam lucros. A explicação é a mesma, só que nesses casos os beneméritos têm como benefício participar e frequentar esses lugares pelos quais tanto zelam. Vejo no meu clube, com as eleições que se avizinham, tantas pessoas ávidas por vencê-las, cada qual achando que pode trabalhar ainda melhor pela associação. Todos, ou pelo menos a grande maioria, é muito bem intencionada, lutando com as armas que têm: alguns apresentando resultados positivos de suas gestões anteriores, outros usando de armas menos nobres.

Do outro lado estão aqueles que escolhem por algum motivo não participar da gestão, ou melhor, ficar do outro lado da urna, que aliás nem é mais urna e sim um computador, mas mesmo assim participando ativamente no processo; e outros ainda que nem saem de casa para cumprir seu papel exercendo a cidadania, mas que, geralmente, são os que mais criticam, e geralmente pensam que o mundo gira em torno de seus umbigos, buscando soluções para seus próprios problemas e esquecendo que a comunidade tem que ser gerida para a maioria.

A escolha é realmente muito difícil, pois os candidatos apresentam argumentos antagônicos e o eleitor fica desorientado. Meu conselho é que se baseiem em fatos concretos e palpáveis, pois são incontestes. Palavras vão ao vento.

Desejo a todos muito boa sorte e espero que vençam os melhores.

 publicado também aqui

 

mai 11 2012

Fé no consumo, Catitu!

O nome é Adenilson, mas o chamamos de Catitu desde os tempos do campinho. Ontem, nos encontramos no bar do Kaneko: caldo de canjiquinha com costela de porco. Baixinho, cabelo partidinho no meio, pançudo, é vendedor na loja de eletroeletrônicos. Glorioso, depositou seu novo celular no balcão, um Blackberry.

“Me falaram que é o celular do Obama”, festejou. Catitu namorou o aparelho na sorveteria aonde levou a filha. “Vi o bacana marrento exibindo o bicho. O meu era bem chulé. Acabei trocando”.

Está cumprida a Lei da Física do Consumo: vemos o produto e o compramos em função do pertencimento ao grupo daqueles que o possuem. No fundo, o consumidor não deseja só o produto. Ele quer aceitação em um meio, uma promoção social. O consumo é a adolescência que persiste.

Catitu estava transbordando no celular. Pediu uma pinga com jurubeba. Debulhou a conquista. “Vem com computador. Cabe um caminhão de música e faz filmagem. Se cair, não quebra. E é seguro! Esse povo que invade a gente lá dentro do computador não entra aqui não”.

De tanto vender geladeiras “side by side”, Catitu entrou para a classe C. De tanto comprar TV de LCD, a classe C elevou o Índice de Confiança do Consumidor. Ironia besta: agora que o trabalhador pode comprar, urubus dizem que a economia brasileira pode superaquecer e supitar. Só falta eles mandarem o trabalhador parar de comprar e guardar dinheiro na poupança, já que, se a inflação progredir, a classe C seria responsabilizada.

“Catita” andou ganhando comissões aos golfos graças ao que ele chama de “fenômeno das lavadoras de roupas”. “O aumento das vendas beirou os 100%! Fiz um puxadinho pra aumentar a cozinha e comprei uma poltrona toda massa pra minha mãe!”

Segundo Catitu, “nem a empregada quer esfregar aquela roupa de cama pesadona”. Gesticulando rodopios, o vendedor demonstrou a centrifugação da lavadora, que “deixa a camisa tão seca a ponto de sair vestindo”, e dissertou sobre a mulher moderna: “Ela quer tempo pra outras paradas, estudar, ganhar sua grana. O problema é que os filhos perderam as estribeiras por causa disso. Minha mulher, não. Cuida da minha filha direitinho. Enquanto eu puder, deixa quieto. Ela fica em casa.”

Fumando cigarros paraguaios, Catitu apontou para a queda nas vendas de aparelhos de som. “Todo mundo só quer saber desses aparelhinhos com milhares de músicas e usar fone na rua. Meu vizinho faz pão com fone de ouvido o tempo inteiro”. A procura por home theaters também teria despencado. “Imagem é na internet, no YouTube.”

Como todo bom vendedor, Catitu quis me vender o peixe: “Você tem o nosso cartão? Então faz um. É um cartão de crédito com a bandeira da loja. Muito melhor do que pagar com dinheiro. Ah, aceitamos todos os cartões. É a única loja que divide sem juros com qualquer cartão.”

Num susto, meu amigo pediu a conta. “Vou passar ali na cantina do Piero, minha filha gosta de espaguete arrabiata. O azeite com 0,5% de acidez já tá na mão. O vinho argentino pra tomar com a esposa também. Cabernet!”

Catitu despediu-se numa aura de fé. “No dia de Santa Rita, ando vinte quilômetros até a capela da santinha. Sou devoto. Vai dar tudo certo”. Amém.

 

 

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