Cristo olímpico

cristo olimpicoA chuva que banhou o Rio ao final das olimpíadas tem um nome e tem uma razão. O nome? Saudade. A razão? Esperança.

O que me restaria fazer a não ser chorar?

A gente chora quando vê um povo sofrido, enganado, e que ainda não encontrou força suficiente para romper com esta saga e buscar o seu destino, seu glorioso destino. Mas a gente chora também de emoção.

Sei que uma Olimpíada não é salvação de pátria nenhuma, mas pode ser uma bela referência. Pode nos dar a dimensão da nossa capacidade, demonstrar o tamanho da nossa força e a beleza de nossas atitudes.

Garanto que a maioria dos que vieram para o Rio de Janeiro nessa competição saíram com uma ideia belíssima da Cidade Maravilhosa, impactados com a beleza da paisagem e com a sensibilidade e gentileza de seu povo.

Como em qualquer lugar do mundo, ocorreram percalços. Como em qualquer lugar do mundo, um ou outro saiu reclamando de alguma coisa. Só não puderam criticar a beleza que vejo aqui a meus pés. Só não puderam criticar o talento dos artistas que organizaram as cerimônias de abertura e de encerramento. Só não puderam diminuir a generosidade com que foram recebidos.

Um evento desses pode e deve sensibilizar o povo brasileiro, e se você pensa que estou exagerando, peço-lhe que não seja tão exigente. Peço-lhe que acredite, que acredite na grande capacidade deste povo, que só precisa ter consciência do seu poder, que só precisa saber que com suas escolhas pode vir a mudar seu destino.

O Rio foi, durante essas semanas, a capital do mundo. Infelizmente, o mesmo mundinho que assistiu ao evento em todas as horas, dia e noite, não vai dar a mesma atenção aos jogos que se seguirão, os paraolímpicos. Mas o Rio de Janeiro pode mostrar que não tem a mente reduzida, e que vai prestigiar da mesma forma a competição que se segue às olimpíadas.

Durante os jogos paraolímpicos é que o Rio de Janeiro pode mostrar ao mundo que tem pernas e fôlego suficientes para se tornar um grande marco no turismo mundial e realizar a sua vocação de Cidade Maravilhosa, que atrai e encanta a todos, sem distinção.

De minha parte, farei o possível para que isto aconteça. E você aí, vai fazer a sua parte?

Ganhar e perder

jose-roberto-guimaraes-e-o-neto-felipeAs olimpíadas chegaram ao fim. Mais que um evento esportivo, nos trouxeram alegrias e tristezas, mas, principalmente, reflexões.

Vimos que a mentira não é privilégio de alguns poucos; os atletas de natação americanos nos provaram isso. Por outro lado, percebemos que ganhar uma medalha tem um valor simbólico imensurável, símbolo de excelência, esforço, determinação e vontade.

O que nos parece difícil, às vezes, é perceber o que se esconde por trás dessas conquistas, e nesses jogos pudemos ver algumas faces dessa moeda.

No futebol, nosso melhor jogador, criticado por muitos com uma veemência desproporcional, reagiu com a seguinte frase, depois do triunfo da nossa seleção: “Vocês vão ter que me engolir”. A expressão, por si só, nos mostra o sentimento de raiva e ressentimento que ele teve em relação aos que reclamaram de suas atuações, e de seu modo de ser.

Neymar é jovem, e talvez não tenha compreendido que saber ganhar é tão importante quanto saber perder. Talvez devesse olhar em direção à quadra de vôlei.

Lá, as meninas do Brasil perderam uma medalha que para todos parecia certa. Só esqueceram de combinar com as chinesas, que não só derrotaram nosso time como se tornaram campeãs olímpicas.

Desoladas com a derrota, atletas e comissão técnica pareciam não acreditar no que havia acontecido. No banco, sentado solitariamente, já que nas derrotas é muito difícil encontrar companhia ou solidariedade, o técnico do Brasil, José Roberto, olhava para o nada em busca de alguma explicação.

Num instante, um garoto atravessou a quadra e o abraçou. A criança chorava copiosamente, não compreendendo o que acontecera. Era o neto do nosso técnico!

José Roberto confortou o garoto e lhe explicou:

— Tem dias em que nós perdemos meu filho.

Parece simples, mas não é!

Diante do inesperado, da vitória ou de uma grande derrota, nos deparamos com nossos sentimentos. Talvez, se percebermos que errar é humano, saibamos lidar melhor com esses momentos. Afinal, perder ou ganhar, faz parte do jogo da vida.

 

Por uma vida com menos desejos e mais força de vontade

thiago“Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atômica: a vontade”. Esta frase de Albert Einstein ficou martelando por alguns dias na minha cabeça, e se intensificou durante o final de semana, principalmente no último dia dos jogos olímpicos.

Sinceramente, nunca fui muito chegada aos esportes, não sou uma torcedora fanática. Entre um livro, um vídeo interessante sobre assuntos que me são caros — como filosofia, teosofia —, uma palestra sobre literatura ou assuntos transcendentes, e uma partida de futebol, dispenso a última sem dó nem piedade. Mas durante esses dias de competições e jogos tão empolgantes, senti uma leve vontade de assistir alguns. E num dia em que o Brasil estava em campo, me propus assistir à partida e torcer pela seleção.

Afinal, sou brasileira, com muito orgulho, com muito amor. Durante os primeiros trinta minutos, torci por aquele time que estava sendo muito cobrado, principalmente depois do fatídico jogo em que perderam de goleada para o mesmo time contra o qual estavam disputando a medalha de ouro. Os jogadores estavam lutando com muita garra. Parecia que o mundo ia acabar se eles não ganhassem aquela partida, mas não conseguiram fazer nenhum gol no primeiro tempo. Foi quando faltou luz na minha rua, e como eu estava desmotivada, aproveitei para ler o capítulo de um livro que estava amando.

Fiquei tão concentrada que não percebi que a luz havia voltado, e o jogo havia recomeçado já há alguns minutos. Liguei a TV sem muito entusiasmo e tentei me concentrar no tal jogo outra vez, mas não deu: fui vencida pela preguiça e pela minha má vontade em apenas dez minutos. Desisti, desliguei a TV e me dediquei a pesquisar e refletir com a maior boa vontade do mundo sobre a natureza das coisas e sobre a possibilidade de sempre aprender algo de bom a partir destas reflexões.

Entre uma pesquisa e outra, a leitura de um texto, uma resenha e as matérias do dia nos principais jornais, percebi que o tema recorrente era a capacidade de dar a volta por cima de alguns atletas, suas histórias de superação interna e externa e a capacidade de exercerem um grande controle sobre suas vontades, elevando-as à potência máxima da força de vontade.

E não deu outra. Meu entusiasmo aflorou, e me deixei levar pelas histórias singulares daqueles atletas que venceram seus medos e encararam a possibilidade de fracasso, mas nunca pensaram em desistir dos seus sonhos, nem de alcançar suas metas. Neste interim, os fogos pipocavam, as crianças da minha rua gritavam…

“É campeão!”

“É campeão!”

“Brasil neles!”

Foi aí que tive um insight sobre a relação entre o significado da frase de Einstein, a preguiça e a minha má vontade de me envolver com os jogos e a vontade de vencer dos atletas. Entendi, por exemplo, que a palavra “vontade” pode ter significados diversos. Existe inclusive, um dito popular que diz que “vontade é coisa que dá e passa”.

Ok, cara pálida. Talvez essa vontade esteja relacionada ao desejo, e acho até que era o meu caso. Eu tinha o desejo de ver os jogos, mas não tinha tanta vontade assim de me tornar uma torcedora atuante. Aliás, não tinha nem vontade, nem entusiasmo. Por isso, a falta de interesse me venceu.

O fato é que, se eu tivesse realmente vontade de me envolver, teria vencido a preguiça a qualquer custo, caso em que demonstraria força de vontade. E é aí que mora a diferença: uma coisa é ter vontade, outra é ter força de vontade. Pude perceber a diferença na conduta de todos os atletas que, a duras penas, saíram vencedores das competições: era grande a força de vontade que os movia. Não desejavam apenas vencer; eram totalmente movidos pelo entusiasmo — a palavra entusiasmo vem do grego, e significa “ter um deus dentro de si”.

Sabemos que os gregos eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses. Mas acreditavam, acima de tudo, que o entusiasmo poderia transformar a natureza e fazer as coisas acontecerem. Agora entendo por que ficamos tão tocados quando lemos as histórias dos heróis de todos os tempos; não os heróis que morrem de overdose, mas os que vencem a si mesmos, suas fraquezas e suas debilidades, nos inspiram e nos levam a pensar que suas vitórias não são fruto apenas de suas simples vontades, mas sim de sua singular força de vontade. Eles não trabalham apenas sua força física, mas muito mais sua força interior; e nos ensinam a nunca desistir dos nossos sonhos, por mais desafiadores que se apresentem, e a jamais retroceder na busca de nossos ideais.

Da minha parte, admito que não tenho nenhuma vontade de assistir a outros jogos, ou de me tornar uma torcedora fanática de última hora. Mas nunca, jamais, em tempo algum, a exemplo dos atletas olímpicos, terei alguma dúvida sobre o que me move: minha força de vontade e entusiasmo para ler, aprender e escrever. E tal como os vencedores, também me sinto uma vencedora, e estou a cada dia mais entusiasmada pelo meu trabalho.

Força de vontade é o que não me falta.

 

Um Negócio das Arábias

tomhanksA cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
Carlos Drummond de Andrade

Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim.
Buda

Qual a sua razão de viver? O que te motiva, dia após dia, a levantar da cama, sair para trabalhar e voltar para casa? E repetir, tudo de novo, do mesmo jeito, no dia seguinte, no seguinte e nos próximos dias, pelo resto da sua vida? Quem, ou o que impulsiona sua força de vontade? Você é movido por dinheiro ou por altruísmo? Aliás, você seria capaz de qualquer coisa por dinheiro?

Em pesquisas nas empresas, quando perguntados sobre o que era mais importante, se aumentos salariais ou reconhecimento profissional, os empregados optavam pelo segundo. Ou seja, aquilo que não se vê, mas se sente, ali escondido no fundo da sua alma, se sobressai; mesmo que, no final, para se livrar da depressão, do que advém das escolhas equivocadas, você tenha que pagar, e muito, ao seu analista.

E você, conhece alguém que abandonou tudo, que literalmente “chutou o balde” e resolveu assumir outro papel no roteiro da sua própria existência? Pois foi o que o protagonista da comédia dramática “Negócio das Arábias” decidiu fazer, quando tudo à sua volta parecia desmoronar.

Alan Clay (Tom Hanks) é um executivo norte-americano à beira da falência: perdeu a casa, o carro e até a esposa dedicada que, aparentemente, não aguentou a pressão de viver sem dinheiro para pagar as contas. Determinado a dar uma reviravolta em sua vida, encontra um meio de não se render à depressão: mete-se num avião rumo à Arábia Saudita, o novo país das oportunidades, onde pretende vender uma ideia inesperada ao próprio chefe de Estado daquele país: um sistema holográfico tridimensional passível de ser usado em videoconferência, daí o título original do longa em inglês: “Um holograma para o Rei” [A Hologram for the King].

Apesar das dificuldades e do inevitável choque cultural, que quase o leva ao desespero, é ali que Alan vai encontrar a oportunidade de se reerguer e de se sentir novamente pronto a enfrentar o mundo. Com direção e roteiro do alemão Tom Tykwer (“Corra, Lola, Corra”, “O Paraíso”, “A viagem” e “Perfume – A história de um assassino”), o longa, indicado ao Prêmio do Cinema Alemão de Melhor Filme de 2016, é uma adaptação da obra homônima do escritor americano Dave Eggers, editada em 2012, por conta da qual o diretor se reencontra com o premiado ator americano, com quem já havia trabalhado em “A viagem”.

Além de Tom Hanks, numa atuação mais do que convincente, entre o americano comum e o mais destemido dos forasteiros, numa breve e bem-humorada lembrança do caixeiro-viajante presente em muitas histórias do cinema americano, o filme conta com uma ligeira, mas contundente participação do ator americano Tom Skerritt, como o pai-patrão-algoz de Alan, com a beleza exótica da atriz britânica Sarita Choudhury (da série “Homeland”) que, encarnando a médica Zahara,  descortina para Alan um oásis num deserto insólito, coalhado de personagens bizarros, como o faz-tudo-motorista-guia turístico Yousef (Alexander Black), contraponto bem-humorado entre os milhares de sauditas em suas djellabas, transitando entre as adhan, as famosas cinco chamadas às orações, e as terríveis execuções junto a estas mesmas mesquitas, entre as quais se sobressai a Masjid al-Haram, em Meca, objeto de uma pitoresca cena do filme.

Na próspera cidade de Jeddah, longe da complicada realidade da recessão que então assolava os Estados Unidos, Alan realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, realizar algo de bom e surpreendente em sua vida. Nesse futuro improvável, ele irá se deparar com uma estranha e fascinante galeria de forasteiros, vindos do mundo inteiro para cumprir todo tipo de ambições, como se convergissem para lá aspectos de uma realidade que ninguém pensa em viver, mas acaba por construir, por total falta de opção. É nesse espelho quebrado de nacionalidades e aspirações que Alan tentará juntar os cacos de sua própria vida, recriar sua existência, e quem sabe, recobrar sua honra.

Não espere uma profunda reflexão acerca das idiossincrasias dos locais, muito menos uma desculpa esfarrapada para os estereótipos do mundo ocidental em relação ao oriental. Num momento marcado pelo fechamento de fronteiras, com centenas de muros reais e imaginários sendo erguidos entre os homens, o olhar crítico do estrangeiro está presente. Certamente que está. Mas, o de fora, aquele que normalmente lança o olhar crítico, com sua contundente visão hegemônica, agora precisa ser acolhido. Felizmente, apesar de todos os clichês ali presentes, o longa não cai na armadilha da guerra religiosa, muito menos na crítica fácil ao processo de globalização, como se fosse possível transitar pelas diversas economias e auferir todas as vantagens da modernidade sem pagar o custo do pedágio, aquele lembrete de que “não há almoço grátis”.

Numa das cenas visualmente mais deslumbrantes, por conta de um inesperado mergulho no mar Vermelho, Alan se depara com uma exótica pintura, retratando uma paisagem idílica dos Alpes suíços, pendurada no meio de uma imensa janela sobre o mar, como que rompendo a mansidão do azul marinho exterior. E a própria personagem da médica árabe dá a deixa, lembrando que as pessoas nunca estão satisfeitas com o que têm, numa alusão a uma das mensagens sub-reptícias do longa: alguns querem sempre o melhor dos mundos; estão num lugar, mas gostariam de estar em outro.

 

Lisboa

LisboaBrasileiros viajantes que não conhecem Lisboa: não percam tempo e programem-se para ir até lá. A cidade, além de bonita, oferece o conforto de falar (quase) a mesma língua e a inconveniência de a comida ser tão deliciosa que convida a excessos indesejáveis.

No verão Lisboa fica lotada de turistas, uma festa. Quando o tempo está bom, o que nesta época ocorre praticamente todos os dias, existem muitos recantos para explorar a pé. Com uma ressalva: como a cidade foi erguida em cima de sete colinas (na verdade são oito), há um grande número de ladeiras nas zonas mais tradicionais. Quem quiser poupar as pernas pode recorrer aos pitorescos bondinhos, que em Portugal são chamados de “elétricos”.

Há também ônibus do tipo “Hop in Hop off”. Ao contrário dos bondinhos, eles são grandes demais para caber em ruelas antigas e estreitas, mas percorrem praticamente toda a cidade e levam às áreas mais afastadas. Muito conveniente.

Aconselho comprar um bom guia de viagem. Não corra o risco de voltar para casa e descobrir que existiam atrações que lhe interessariam, se você soubesse que elas estavam lá. Dependendo de suas prioridades, isso pode ser o Museu de Arte Antiga, o Bairro Alto, o Centro Cultural Calouste Gulbenkian, um drinque em um bar no topo de algum edifício, o Museu dos Coches, o Monumento aos Descobridores, a Torre Vasco da Gama, as pontes sobre o Tejo, comer bem e barato nos restaurantes do Mercado da Ribeira, atravessar o parque de Monsanto para ir a Paço d’Arcos, ou a Cascais, ou a Sintra, assistir a um show no Cassino de Estoril, e por aí vai.

Para além das atrações óbvias, há muito que descobrir em Lisboa. Podem-se apreciar vistas da cidade de diversos pontos. Recentemente, foi instalado no Shopping das Amoreiras um elevador que conduz a um mirante construído na cobertura do prédio. A vista, anunciada como a mais alta de Lisboa, é de trezentos e sessenta graus e valorizada pelo guarda-corpo de vidro instalado no local.

Outra vista interessante pode ser apreciada subindo pelo elevador que conduz ao alto do arco da Rua Augusta. É infinitamente mais baixa, mas permite ver de cima a harmoniosa Praça do Comércio, onde, aliás, não mais existe comércio algum. Mas, se você é do tipo consumista, não se desespere: dessa praça saem ainda as ruas do Ouro e da Prata que, conjuntamente com a Augusta, são repletas de lojas. A subida vale a pena também porque se pode ver de perto as lindas esculturas e o relógio que enfeitam o monumento.

Quem quiser economizar o ingresso dos elevadores pode ir ao miradouro de São Pedro de Alcântara. Neste caso, gaste o dinheiro economizado para visitar a vizinha igreja de São Roque.

No lindo Parque das Nações, onde se realizou a Expo 98, se não estiver interessado no bem conhecido Oceanário, talvez você queira visitar a atração ao lado: o Pavilhão do Conhecimento. É um encantador museu do tipo “hands on” adequado para todas as idades.

No extremo oposto da cidade, ao lado do imperdível Mosteiro dos Jerônimos, fica o Centro Cultural de Belém, que abriga o Museu Berardo de arte moderna, que é relativamente recente, e cuja coleção é excelente. A área concentra diversas atrações importantes, e você ainda aproveita para comer um pastel de nata, também conhecido como pastel de Belém, porque dizem que foi lá que inventaram esse doce tradicional. Se a fila da pastelaria for muito grande, não vale a pena esperar: outros lugares em Lisboa fazem pastéis iguais ou melhores que os originais.

Quem gosta de fado, além de ir escutá-lo ao vivo, pode também visitar a Fundação Amália Rodrigues, instalada na casa onde a cantora viveu por mais de cinquenta anos.

Outro local pouco conhecido dos turistas é a Mãe d’Água das Amoreiras. “Mãe d’água” é como se chamavam as cisternas que antigamente eram usadas para abastecer a cidade. Em Lisboa, foi construída no século XVIII uma sofisticada rede de distribuição de água, e algumas partes podem ser visitadas (veja no site do Museu da Água). A face mais visível dessa obra de engenharia notável é o Aqueduto das Águas Livres. As mães d’água abasteciam os chafarizes, e dentro de uma delas (desativada, é claro!) até existe uma enoteca, batizada com o sugestivo nome de “Chafariz do Vinho”.

Lisboa é repleta de cafés. Frequentar cafés faz parte da cultura portuguesa e, na maioria dos casos, cada um tem o “seu” café. Não é raro encontrar gente que passa boa parte da tarde ou da manhã no café, conversando com amigos, ou simplesmente lendo o jornal do dia, e consumindo apenas um expresso e um doce, ou uma torrada, ou algo equivalente. Fernando Pessoa frequentava o “A Brasileira”, que ainda está lá, no bairro do Chiado. Em frente ao café existe uma estátua de bronze dele, sentado à mesa, com uma cadeira vazia ao lado. A cadeira e algumas partes da escultura, ao contrário de todo o resto, conservam o dourado polido do metal porque os turistas têm o hábito de tocar no poeta e tirar fotos sentados na cadeira. É um lugar comum, mas, cá entre nós, nada é comum quando se trata de Pessoa.

Entre medalhistas e turistas todos se salvaram

lochteOs Jogos Olímpicos do Rio estão chegando ao fim, e entre medalhistas e turistas, todos se salvaram. Pelo menos até hoje, porque em 72 horas muita coisa ainda pode acontecer.

Foram dias incríveis! Aprendemos tanto! E também ensinamos um pouco ao mundo. Especialmente na Cerimônia de Abertura, aquele espetáculo inesquecível. Mostramos as nossas origens, nossos inventos, nossa cultura diversificada, enriquecida pelos diversos povos que formaram nossa nação.

Ao longo desse período, houve alguns “desastres”, mas nenhuma tragédia, ufa! O primeiro incidente foi a entrega da Vila Olímpica em condições inabitáveis. Resolveu-se, mas rendeu bastante desconforto.  Depois, veio a piscina com água verde, cheia de algas e, até agora, nenhuma micose noticiada. Teve a imensa câmera que caiu no Parque Olímpico, que resultou em sete pessoas machucadas, nada grave. Mas a deficiência da instalação ficou claríssima. Deu vergonha. Também me envergonhei de uma porta de vidro que se estilhaçou em decorrência do vento, no mesmo dia. Ainda bem que foi apenas uma porta e ninguém se feriu. Até agora, uma morte fora das atividades olímpicas. Uma fatalidade.

Todos inconvenientes pequenos demais para o grande espetáculo protagonizado pelos atletas do mundo inteiro. Houve vários recordes quebrados, um deles do incrível Thiago Braz.

Nestas Olimpíadas, conseguimos resultados inéditos: a primeira medalha de ouro no salto com vara, o primeiro ouro para mulheres na vela, o ouro inédito no boxe. Diego Hypólito se superou e realizou o sonho de muita de gente de vê-lo no pódio olímpico, e nos deu a prata no solo da ginástica artística em dobradinha com o Arthur Nory. Aliás, Nory estava em nono lugar e herdou a oitava posição nas classificatórias de um japonês excedente, ficando apto para disputar a final e nos presentear com seu bronze, seu sorriso, sua alegria.

E enquanto escrevo esta crônica, não sei qual o metal da medalha do futebol masculino, nem se nossas meninas conquistarão o bronze. Não sei se levaremos alguma medalha no nado sincronizado e na ginástica rítmica. Independentemente do que aconteça, conquistamos muitas vitórias, conhecemos histórias de luta e superação de nossos atletas e passamos a entender e a valorizar algumas modalidades esportivas.

Sinceramente, o ideal seria que o Brasil inteiro realmente valorizasse o esporte. A luta dos nossos atletas é quase solitária. Alguns exemplos de persistência são tocantes. Por exemplo, o Diego Hypólito venceu um quadro depressivo e chegou ao pódio olímpico. Soubemos também da comovente história de abandono do Thiago Braz e nos impressionamos com sua maturidade e capacidade de concentração.  E não se pode esquecer das dificuldades enfrentadas pelo Caio Bonfim, que chegou em quarto lugar na marcha atlética, depois de correr 20 km — a conquista, inédita, valeu como um ouro. Ele era xingado durante os seus treinos nas ruas de Sobradinho, no DF.  E ainda vai disputar os 50 km da marcha atlética, é mais do que uma maratona! Há tantas outras histórias que nos emocionam e nos ensinam.  O mérito da vitória é todo deles.

Na nossa Olimpíada também teve muita zoeira. É a paixão brasileira e a nossa capacidade de rirmos de nós mesmos e de tudo e de todos. Como naquela luta de boxe em que não havia atleta brasileiro, mas havia um juiz e a torcida foi toda para ele. As vaias são horríveis, mas por meio delas foi-nos revelado um francês babaca, que tentou, de todas as maneiras, desmerecer a vitória do brasileiro Thiago Braz. Impossível, ficou péssimo para o francês.

Vimos o tanto que os cubanos são marrentos, e o quanto eles se amarraram na facilidade que é falar ao telefone aqui. Imaginem se essa gente vai para um lugar realmente desenvolvido?

E o que dizer dos quatro nadadores estadunidenses investigados por falsa comunicação de crime? Não sabiam que mentira tem perna curta? A impunidade no Brasil deve ser mundialmente conhecida e eles resolveram pagar para ver, mas “deu ruim” (como diz a moçada). Com o esclarecimento dos fatos, certamente perderão patrocínios, porque a credibilidade desses jovens e brilhantes atletas foi mortalmente atingida. O Comitê Olímpico dos Estados Unidos pediu desculpas a todo o povo brasileiro e declarou que a conduta destes atletas não condiz com os valores americanos.

Apesar dos inconvenientes e das vaias, pode-se dizer que o balanço dos Jogos Olímpicos é positivo. Segundo o Ministério do Turismo, 87% dos turistas estrangeiros que vieram para o evento voltariam ao Rio de Janeiro. Aliás, houve elogios à hospitalidade do brasileiro.

Aprendemos muito. No entanto, implementar esse aprendizado em programas de governo é outra história. Acabar com a xenofobia, a homofobia, o racismo e o machismo não é nada fácil e levará tempo. Os Jogos Olímpicos foram um importante reforço.

Bom fim de semana procês!