Biscoito no forno

nanisleepingSeu João vivia tranquilo, no trabalho e agora na sua aposentadoria. A vida que para muitos parecia tão complicada, difícil e misteriosa, para ele não trazia surpresas ou aflição.

Era domingo, dia de missa, de sair para comprar o pão. A esposa, Dona Zizi, antes de ele sair para fazer sua função, já estava na cozinha fazendo a massa para o biscoito de rosca. Ele a olhava com admiração, fazendo os danados todos iguais sem preocupação. Ela os pôs no tabuleiro, e de lá foram direto para o forno a lenha.

Antes de sair, ele a viu se dirigir para a cadeira de balanço. De lá, ela lhe sorriu e lhe disse tranquila:

— Daqui a pouco, tá pronto, João!

Ele sorriu de volta e foi cumprir sua função, para fazer companhia às roscas de leite no café da manhã.

Voltou tranquilo, no seu passo curto. Entrou em casa, e sentiu o cheiro do biscoito assando no forno. Dormindo na cadeira, Zizi parecia tranquila,o crochê no colo, os óculos pendendo sem pressa apoiados na base do nariz. Ele a olhou novamente com admiração. Depois de 50 anos de casado, tudo era comum e perdoado. Ela, que sempre reclamava do seu cochilo depois do almoço, agora dera para descansar assim, sem hora marcada.

Aproximou-se tranquilo da amada, mas viu na sua pela pálida mais do que um sono tranquilo. Pegou em seu pulso e não sentiu a vida ali. Ela tinha partido, que nem passarinho. Chamou seu Juca, o médico da cidade, só para confirmar o que já sabia. Não chorou porque já era combinado. O que resolvesse ir antes do amado, não ia deixar o outro contrariado. Afinal, o trem da vida não tem hora, só bilhete marcado.

O velório foi simples, mas o povo todo da cidade foi chegando. Com um ramo de flores na mão, com uma palavra amiga, com um aperto no coração.

O casal não tinha filhos, mas seu João era sapateiro de profissão e dona Zizi fora professora no grupo escolar até se aposentar. Assim, os dois eram queridos entre pobres e ricos da região, pois ela ensinava a todas as crianças, do filho do fazendeiro até o menino do pião. Todos com ela aprenderam na cartilha as primeiras letras. Destes, muitos hoje homens feitos e barbados, não conseguiam esconder uma lágrima ao ver o corpo da antiga professora no centro da sala, onde muitos tinham aprendido a lição.

A casa ficou pequena, tinha mais gente entrando em fila que na ultima procissão. As meninas, além de ler quando crianças, tinham recebido dela na vida adulta o apoio e ajuda na hora do parto, ou num passado doído, ouvido seus conselhos numa precisão. Uma sofria com a criança nova. Uma outra na arrumação da casa, no aprendizado da vida, no casamento e até em separação.

Elas a vestiram com a roupa da missa. A urna que guardava o seu corpo foi coberta com as rosas do campo que ela tanto amava, em suas mãos que a tantos acolhera o terço de suas orações. Seu João olhava o movimento, aceitando o acontecido, triste pelo ocorrido, mas feliz pelo carinho de tantos, para com aquela a quem ele tanto amava.

No início, ainda se levantava pra receber os abraços dos conhecidos e vizinhos, mas era muita gente e se deixou ficar sentado na mesma cadeira que ela há pouco havia usado. Agradecia as palavras e o carinho de todos e se deixava ficar. Estava longe, em outro lugar…

Lembrou-se de quando a vira pela primeira vez, indo dar aula na escola da cidade. A lojinha do conserto de calçados do pai, onde era aprendiz, dava de frente pra rua. Foi ali que a viu pela primeira vez em sua vida, uma moça pequena, formosa e bela, num vestido amarelo, passando em frente da loja. Ele achou que era uma aparição, parecia uma santa, de tão bela e pura.

Distraído com tão bela criatura, esqueceu-se da função e bateu o martelinho de pregar calço em bota bem no meio do dedão:

— Aiiiiiiiiii! — gritou o rapaz distraído.

— Toma jeito, Joãozinho! Não vai me estragar a bota do freguês! — gritou o pai para o filho desastrado e aprendiz.

A moça olhou de onde veio o grito e riu da bronca que o rapaz moreno e forte recebia do pai. Ele olhou para os olhos castanhos da garota e se perdeu no meio deles. Ela sorriu, agora embaraçada, abaixou o rosto e seguiu o seu caminho. Ele ficou ali, no meio do desassossego da descoberta do amor!

Nunca imaginou que seu sonho de vê-la novamente pudesse ocorrer. Mas na festa da Padroeira, festa a que não queria ir, mais foi, ela estava lá! Seu olhar encontrou o dela e dessa vez nenhum dos dois tirou o do outro do lugar.

O resto foi história, começaram o namoro e ela o ensinou a ler e a contar. Casaram-se três anos depois e foram morar na casa que ele mesmo ajudou a construir, naquele lugar.

Os filhos tão sonhados não vieram, mas o amor dos dois por todas as crianças era maior. Era ela quem ensinava os pequenos que tinham mais dificuldades a ler, em casa, depois da aulas, sem cobrar pelo reforço. Era ele que consertava os sapatos dos desvalidos, anotando e aguardando, sem cobrar na hora daqueles que não podiam pagar. Talvez por uma falta de emprego momentânea ou por adoecerem sem poder trabalhar.

Ele sorriu ao se lembrar, agora era outro tempo, no mesmo lugar. Olhou para o amor da sua vida, e soube que em pouco tempo com ela de novo ia estar. Pensando na vida e na morte, como elas são, não viu a sobrinha se aproximar com o prato na mão:

— Come tio! Você precisa se alimentar!

Pegou o biscoito assado com uma das mãos, com a outra aceitou a caneca de café. Tomou com gosto. Era o mesmo que ela tinha feito pela manhã. Comeu com gosto e sem amargura no coração, pois uma vez mais, ela alimentava com amor sua solidão.

 

 

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